Pesquisas sobre índios

(aproveito para agradecer pela quantidade de manifestações relativas à EFEMÉRIDE, ao 02/12)

Algumas semanas atrás, a revista Veja deu matéria sobre pesquisa com índios no Brasil, realizada pelo Instituto Datafolha, encomendada pela CNA, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. Pretendia comentar, mostrando como sua apresentação e interpretações divergiam do que aprendi na primeira aula do curso de Estatística. Mas, nesse entretempo, saiu artigo no jornal Folha de S. Paulo, de 29/11, quinta-feira, por dois especialistas, Márcio Santilli e Raul do Valle. Argumentam que a divulgação da pesquisa faz parte de esforços, inclusive com apresentação de projetos de lei, para impedir novas demarcações de terras indígenas. Ou seja: avanços como a aprovação da reserva Raposa – Terra do Sol, a devolução de terras dos pataxós na Bahia, a recente decisão judicial em favor de xavantes no Mato Grosso e a suspensão da expulsão dos caiovás em Naviraí, alarmaram proprietários representados pela CNA. Querem retroagir ao modo antigo de encarar a questão, dos militares: territórios indígenas seriam nações dentro da nação, fragmentando o Brasil (foi o que me expôs o comandante da base aérea de Pirassununga, defendendo didaticamente a “integração”, quando retornava em 1967 do Xingu em um vôo da FAB – os mesmos argumentos, recentemente, do comandante militar da Amazônia, durante a polêmica suscitada péla demarcação da reserva Raposa – Terra do Sol).

O artigo;

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/80697-muita-terra-para-pouco-fazendeiro.shtml

Santillli e Valle também chamam a atenção para os 95 mil hectares destinados aos 45 mil guarani-caiová continuarem, em grande parte, ocupados por fazendeiros. Reservas no papel, por enquanto.

Não consegui, através do Google, acessar a matéria da Veja dando a pesquisa – apenas o artigo de um dos comentaristas da revista, Reinaldo Azevedo: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-que-realmente-querem-os-indios-e-o-que-alguns-antropologos-querem-que-eles-queiram/ . Trata do assunto no estilo Pondé (comparem, argumentação e retórica idênticas, ou vice-versa: todos eles escrevem no mesmo tom bombástico do Olavo). Corrobora o que Santilli e Valle enxergam, segundas intenções na divulgação da pesquisa: munição para a guerra contra índios, para impedir que alguns proprietários rurais sejam obrigados a ceder terras.

Minha primeira aula de estatística foi sobre a média aritmética. Percentuais são médias aritméticas. O significado de uma média aritmética ou percentual muda, conforme a diversidade da população estudada. Se os indivíduos de uma população pesarem entre 22 e 148 quilos, a média aritmética de, digamos, 73,6 quilos terá um sentido completamente diferente do que se pesassem entre 64 e 91 quilos. Ora, é justamente a diversidade o que caracteriza situações e problemas enfrentados por índios brasileiros. Sua população cresceu, pois pararam de massacrá-los – episódios como o extermínio dos wamiri-atroari para abrir estrada ou da dinamite jogada sobre a aldeia dos cintas-largas pertencem ao passado, embora recente (décadas de 1960/70). Tragédias como essas enfrentadas por índios de Mato Grosso do Sul são, portanto, minoritárias. “Minoria” e “diversidade”: categorias execradas por neo-conservadores. Metodologia para dar conta dessa diversidade: o estudo de caso, a exemplo de como procedem antropólogos – por isso, detestados por eles.

Mudando de matéria, da Estatística para Política: aprendi que democracia, sendo governo eleito pela maioria, também é garantia de direitos das minorias. Claro que essa não é a democracia de fachada dos contendores do indigenismo. Sou a favor da diversidade de opiniões através da imprensa; acho que cabe um lugar aos Pondé, Reinaldo e afins. Mas sou mais a favor da honestidade intelectual: se defendem uma mudança na legislação brasileira, na constituição de 1988, para garantir a posse por aqueles que ocuparam terras de índios, então assumam, digam-no claramente – em caso contrário é, sim, conspiração.

Em tempo (a 03/12). Veio um comentário de Célia Musili que dá continuidade à minha argumentaçãoPor isso, resolvi adicioná-lo ao corpo desta postagem:

Para mim, a questão indígena implica uma dimensão planetária: onde está o índio existe VIDA! Embora não faltem opositores à causa. Depois de Pondé, a senadora e pecuarista Kátia Abreu (ex-DEM, atual PSD de Tocantis), tb articulista da Folha de S.Paulo, publicou três artigos para rebater a necessidade da demarcação das terras indígenas. A serviço da Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil , ela afirma “ocorre aí uma expropriação criminosa de terras produtivas, e o fazendeiro, desesperado, tem que abandonar a propriedade com uma mão na frente e outra atrás”. Ora, ora, esta senhora há décadas não vê um índio pela frente e desconhece os dados apresentados pela jornalista Verenilde Pereira que mostram: “na área Guarani-Kaiowá existem 20 milhões de cabeças de gado que dispõem de 3 a 5 hectares por cabeça, enquanto cada índio não chega a ocupar um hectare.” Kátia Abreu nada sabe da relação entre o índio e a terra e tem espaço num dos maiores jornais do Brasil para falar bobagens endossada por fazendeiros que ameaçam os índios de morte, comprando armas no mercado ilícito. Mas vamos continuar na briga, rebatendo a “antropologia” de senadores e filósofos como Pondé, a serviço do agronegócio. Gente espúria!!! Parabéns por sua insistência e contribuição iluminando a “outra margem.”

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3 responses to this post.

  1. Para mim, a questão indígena implica numa dimensão planetária: onde está o índio existe VIDA! Embora não faltem opositores à causa. Depois de Pondé, a senadora e pecuarista Kátia Abreu (ex-DEM, atual PSD de Tocantis), tb articulista da Folha de S.Paulo, publicou três artigos para rebater a necessidade da demarcação das terras indígenas. A serviço da Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil , ela afirma “ocorre aí uma expropriação criminosa de terras produtivas, e o fazendeiro, desesperado, tem que abandonar a propriedade com uma mão na frente e outra atrás”. Ora, ora, esta senhora há décadas não vê um índio pela frente e desconhece os dados apresentados pela jornalista Verenilde Pereira que mostram: “na área Guarani-Kaiowá existem 20 milhões de cabeças de gado que dispõem de 3 a 5 hectares por cabeça, enquanto cada índio não chega a ocupar um hectare.” Kátia Abreu nada sabe da relação entre o índio e a terra e tem espaço num dos maiores jornais do Brasil para falar bobagens endossada por fazendeiros que ameaçam os índios de morte, comprando armas no mercado ilícito. Mas vamos continuar na briga, rebatendo a “antropologia” de senadores e filósofos como Pondé, a serviço do agronegócio. Gente espúria!!! Parabéns por sua insistência e contribuição iluminando a “outra margem.”

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  2. O mestre sempre preciso! Falta honestidade intelectual, e até moral, para essa gente (Pondé, Reinaldo, Kátia Abreu, etc.) assumir o que realmente pretendem: mudar a Constituição para tirar as terras dos índios. Conspiração pura, utilizando mal a estaística.

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  3. Mestre,
    Também essas pesquisas publicadas na Folha, índios, mídia, pecuaristas e a antropologia da insensatez:

    http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=1008

    (artigo interessante)

    Resposta

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