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Rimbaud e Burroughs: Cult e Sabático

A revista Cult informa (copio o release):

É HORA DE LER RIMBAUD – Neste mês, o assunto da CULT é Rimbaud. Com artigos de Claudio Willer, Lucas Bertolo e Silvio Rosa Filho, Denilson Cordeiro, Anderson Gonçalves, entrevista com André Guyaux e uma tradução exclusiva de “O Sonho de Bismarck”.

Artigos sobre Rimbaud, meu e dos demais colaboradores, são convergentes. Conjunto virou libelo antiautoritário, com bastante informação literária.

Já nas bancas.

Amanhã nas bancas, no suplemento Sabático de O Estado de S. Paulo, minha resenha de Junky de William Burroughs.

Nos dois temas, deu algum trabalho condensar, ajustar ao tamanho da publicação. Teria assunto para ensaio daqueles de periódico, de 15 laudas. Voltarei a tratar deles.

Quanto á matéria no Sabático: até examinei com moderação a Companhia das Letras apresentar como lançamento novo e “edição defintiva” uma reedição de um livro publicado pela Brasiliense em 1984. E sem revisão da tradução – observei erros de Reinaldo Morais. Também quero ver quantos dos colegas das editorias literárias e afins se darão conta de que nas livrarias tem outra edição do mesmo Junky, da Ediouro, mais completa. Tem gente que sequer confere no Google.

Essa nova edição de Junky está à venda por R$ 37,00. A da Ediouro custa R$ 53,90. A livraria consultada, a Cultura, também tem a edição da Penguin Classics na qual a Ediouro se baseou, por R$ 39,70. Na Amazon Books a mesma edição Penguin está em oferta a U$ 10,00; em e-book, a U$ 9,20. O preço dos livros no Brasil contribui para nossos baixos índices de leitura – já havia observado isso.

Reler Rimbaud

A seguir, os parágrafos iniciais de um artigo sobre Rimbaud, encaminhado para publicação. O texto todo dá 5 laudas. Quando sair, aviso.

O rebelde

Claudio Willer

A censura retorna pela porta dos fundos, a pretexto de restauração da moral e do politicamente correto. Verbetes de dicionário são alvo de ações judiciais. Tentam impedir a adoção didática de obras de Monteiro Lobato. Livros declarados pornográficos foram confiscados por ordem judicial em Macaé, RJ. Uma lei instituindo programas em defesa da moral e bons costumes, aprovada no Rio de Janeiro. Retrógrados de toda sorte mobilizam-se. Novas eclosões de obscurantismo vêm aí.

É hora de reler Rimbaud.

Reacionários atualizam sua rebelião. Convidam à difusão dos impropérios contra os beatos em “Os pobres na igreja”: “Todos, babando fé de mendicante e inválido, / Recitam sua queixa infinita a Jesus / Que sonha, amarelado á luz do vitral pálido” . E também contra os burocratas, em “Os assentados” e “Os aduaneiros”; contra o Imperador, detentores do poder em geral e, por extensão, Deus, que “ri nas toalhas dos altares”, em “O Mal”; contra o beletrismo em “O que dizem ao poeta a respeito das flores”; contra os valores estéticos na “Venus Anadiomene” que mostra “a bela hediondez de uma úlcera no ânus”; contra os bons sentimentos em geral em “O homem justo”. E, no extenso “As primeiras comunhões”, contra Jesus Cristo: “ladrão eterno de energias, / Há dois mil anos deus que à palidez votaste / As faces que no chão encravam, de vergonha / E de cefalalgia, as mulheres em dor.” Por isso, Rimbaud recusou os sacramentos na “Canção da Torre mais Alta”: “Mas quem rezaria/ À Virgem Maria?” – e também, biograficamente, a extrema unção ao morrer.

 “Espero tornar-me um louco muito mau”: essa frase de “Vidas”, uma das Iluminações, poderia ser sua epígrafe geral. Foi muito louco e muito mau. Sua maldade deve ser entendida dialeticamente, como negação criadora. Faltou – estranhamente – o capítulo Rimbaud em A literatura e o mal de Georges Bataille.


[1] Todas as citações de poemas e prosas poéticas de Rimbaud utilizam a tradução de Ivo barroso, nos dois volumes, Prosa poética e Poesia completa, publicados pela Topbooks.

Rimbaud para censores, 2

Atendendo a meu pedido na postagem precedente, Leonardo Morais mandou-me “Os stupra”. Rimbaud e sexo selvagem – tem de tudo. Lembrando: esses sonetos circularam só a partir de 1923, divulgados, como não podia deixar de ser, por André Breton e Louis Aragon na revista Littérature. O terceiro dos poemas também foi publicado como “Soneto do buraco do cu” (saiu com esse título, pouco tempo atrás, no jornal Folha de S. Paulo). Sua autoria chegou a ser posta em dúvida. Mas são indiscutivelmente de Rimbaud, embora tenham a mão de Verlaine (que criou bastante poesia obscena) e outro colega. Em um modo mais cifrado, Rimbaud relatou algo semelhante, um furor erótico, na prosa poética “Bottom”, de Iluminações. A tradução é de Ivo Barroso, conforme Arthur Rimbaud – Poesia completa, ed. Topbooks. Espero que Ivo não se incomode com a difusão não-autorizada, mas é por uma boa causa: provocar censores – além de corrigir o que chamei de viés estetizante na divulgação de Rimbaud no meio digital.

  1. OS STUPRA

Outrora os animais cobriam-se em carreira,
As glandes a pingar de sangue e de excremento
Expunham nossos pais o membro corpulento
No vinco da braguilha e no ancho da algibeira.

Na Idade Média, para a fêmea – anjo ou rameira -,
Se impunha o latagão de sólido argumento;
Mesmo um Kléber, com seu culote que amaneira
Talvez demais, devia honrar seu documento.

Ao mamífero mais fogoso o homem igualo:
O tamanho de seu membro espanta-nos, sem
Razão; mas soa uma hora estéril: o cavalo

E o boi refreiam seus instintos; e ninguém
Ousa mais exibir seu orgulhoso falo
Nos bosques onde a infância em chusma se entretém.

***

Nossas nádegas não são as delas. Ao cabo,
Vi várias se aliviando atrás de alguma moita.
E, nesses banhos nus, da meninada afoita
Apreciava o formato e o feitio do rabo.

Mais firme, e, com frequência esmaecido, aflora
Relevos naturais que uma touceira veda
De pêlos; nelas, só na prega encantadora
É que se desabrocha a longa e espessa seda.

De uma engenhosidade e um toque extraordinários
Que só se pode ver nos anjos dos sacrários,
Imita uma bochecha a que um sorriso afunda.

Oh! estar assim, nus, alegres e de bruços,
Voltada a face para essa porção jucunda
E libertos os dois a murmurar soluços?

***

Franzida e obscura flor, como um cravo violeta,
Respira, humimldemente anichado na turva
Relva úmida de amor que segue a doce curva
Das náfegas até ao coração da greta.

Filamentos iguais a lágrimas de leite
Choraram sob o vento ingrato que as descarna
E as impele através de coágulos de marna
Para enfim se perder na rampa do deleite.

Meu sonho tanta vez se achecgou a essa venta;
Do coito material, minha alma ciumenta
Fez dele um lacrimal e um ninho de gemidos.

É a oliva extasiada e a flauta embaladora,
O tubo pelo qual desce o maná de outrora,
Canaã feminil dos mostos escondidos.

[Arthur Rimbaud, "Poesia completa". Trad. Ivo Barroso.]

Rimbaud para censores

ARTHUR RIMBAUD

O MAL

 

Enquanto esse cuspir vermelho da metralha

Silva no céu azul o dia inteiro, e logo,

Verdes ou rubros, junto ao Rei que os achincalha,

Tombam os batalhões em massa sob o fogo;

 

Enquanto a insânia horrenda arde num fogaréu

Cem mil homens e os deixa a fumegar, demente,

- Pobres mortos! na relva, ao sol do estio, em teu

Seio, Natura, ó tu que os criaste santamente! …. –

 

- Existe um Deus, que ri nas toalhas dos altares

Num cálice dourado, entre incensos, e nesse

Tranqüilo acalentar de hossanas adormece;

 

E acorda quando as mães, morrendo de pesares,

Choram de angústia, sob o negro xale imenso,

E Lhe dão uma moeda, amarrada no lenço!

 

A tradução é de Ivo Barroso, em Arthur Rimbaud, poesia completa, editora Topbooks.

Motivo desta postagem? Entre outros, pelas intervenções recentes de censores do Facebook, que retiraram um poema de Lou Albergaria, transcrito a seguir, conforme registrado em meu dossiê. A mensagem é a mesma – mas  o de Rimbaud adiciona em blasfêmia. Vamos ver se ousam.

Queria veicular outros dos poemas do Rimbaud satírico, blasfemador e provocador, com tratamentos para a Igreja, Deus, autoridades e bons costumes. Sempre, dedicando as postagens aos censores. “Os aduaneiros”, “Agachamentos”, “Os pobres na igreja”, “As primeiras comunhões” (especialmente), algo de “Os stupra” (“Nossas nádegas não são as delas…” e “Franzida e obscura flor…”, sobre o cu) e, é claro, do “Álbum zútico”. Procurei no Google – há seleções de Rimbaud disponíveis, de boa qualidade, porém estetizantes, deixando de lado esse Rimbaud-porrada, adolescente enfurecido, implacável. Alguém, algum dos rimbaudianos do pedaço, os transcreveria ou passaria um scanner?

 

PALAVRÃO
Lou Albergaria
existem palavrões nessa vida
que deterioram e molestam o Ser
muito mais do que palavrinhas tão
puras e inocentes quanto caralho,
boceta, cona, xana,… Eu poderia ficar
a tarde inteira enumerando-os
e daria para formar uma lista
talvez a mais verdadeira Lista de Schindler.
mas como não quero perder a novela
das seis nem o tesão pela vida
vou me deter em apenas três
que considero os mais cabeludos
de todos os tempos e eras paraglaciais
que arrepiam os pelos até do meu
cancioneiro analfabeto e tão cético:

Estado, Igreja e
Instituições Financeiras.

Que boca suja, meu Deus! Perdão!
Perdão!…
Prometo purificá-la daqui a pouco com as PUTAS.

Artigo sobre Rimbaud

A seguir, o link de breve artigo meu sobre Rimbaud – em parte, sinopse do que já escrevi sobre ele em ‘Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna’ e do que já disse palestras anteriores –  que saiu na versão digital do suplemento Verso e Prosa (ou é Prosa e Verso? ou Letras e Artes? – confundo suplementos, embora atualmente sejam poucos ) do jornal O Globo:

http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/11/21/rimbaud-revolucao-rebeliao-417310.asp

A publicação foi a propósito da minha apresentação ontem, dia 21, na Biblioteca Nacional, no programa Roda de Leitura, organziado pela Estação das Letras e já noticiado aqui. Gostei. Público interessado, debate animado.

CRUZ E SOUZA E RIMBAUD: DUAS BELAS PROGRAMAÇÕES LITERÁRIAS

Terei a satisfação de participar de um simpósio sobre Cruz de Souza, dias 16 a 19 de novembro em Florianópolis, na Academia Catarinense de Letras, e falar sobre Rimbaud dia 21 de novembro no Rio de Janeiro, na Biblioteca Nacional.

Agradeço retransmissão a, respectivamente, catarinenses e cariocas.

A seguir, noticiário desses acontecimentos:

FUNDAÇÃO CATARINENSE DE CULTURA COMEMORA OS 150 ANOS DE NASCIMENTO DO POETAS CRUZ E SOUSA

 A Fundação Catarinense de Cultura está organizando uma grande programação para comemorar o sesquicentenário de nascimento do poeta Cruz e Sousa com o SIMPÓSIO CRUZ E SOUSA, parceria com a Academia Catarinense de Letras. O SIMPÓSIO ocorrerá de 16 a 19 de novembro, na nova sede da Academia Catarinense de Letras, localizada à rua Hercílio Luz.

Programação:

Dia 16 (quarta-feira): Às 19 horas: Godofredo de Oliveira Neto: “Vida e obra de Cruz e Sousa: aspectos fundamentais”; Mediador/debatedor: Celestino Sachet. Às 20h30min: Luiz Augusto Contador Borges: “O erotismo na obra de Cruz e Sousa”, Mediador/debatedor: Péricles Prade.

Dia 17 (quinta-feira): Às 19 horas: Álvaro Cardoso Gomes: “Música e evocação em Cruz e Sousa”, Mediador/debatedor: Leatrice Moellmann. Às 20h30min: Eliane de Alcântara Teixeira: “A estética do feio na prosa poética de Cruz e Sousa”; Mediador/debatedor: Júlio de Queiroz.

Dia 18 (sexta-feira): Às 19 horas: Uelinton Farias Alves: “Vida e obra de Cruz e Sousa: novos ângulos”; Mediador/debatedor: Artêmio Zanon. Às 20h30min: Carlos Felipe Moisés: “A prosa poética de Evocações”: Mediador/debatedor: Dennins Radünz.

Dia 19 (sábado): Às 19 horas: Cláudio Willer: “Cruz e Sousa, poeta maldito?”; Mediador/debatedor: Rodrigo de Haro. Às 20h30min: Ronald Augusto: “A poética de Cruz e Sousa hoje”, Mediador/debatedor: Zilma Gesser Nunes.

 

Rimbaud por Claudio Willer

Último encontro do Rodas de Leitura discute obra do grande poeta.

Arthur Rimbaud (1854-1891), poeta francês, mestre do simbolismo, das vanguardas e do movimento surrealista, é o tema do último encontro do projeto Rodas de Leitura, da Estação das Letras. 

O público, mediado pelo poeta Cláudio Willer, poderá conhecer e discutir poemas do artista. Obras como O barco ébrio serão declamadas e analisadas.

21 de novembro (segunda), ás 18h

Local: Fundação Biblioteca Nacional – Auditório Machado de Assis – Rua México, s/nº, Centro – Rio de Janeiro.

Outras informações: Grátis (senhas distribuídas uma hora antes do evento) Telefone: (21) 3095-3879 www.estacaodasletras.com.br

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