A crítica paradoxal

Não resisti. Mandei isto, a seguir, para a ombudsman da Folha de S. Paulo:
Guia da Folha de São Paulo de 29 de abril de 2011, sexta-feira: resenha do romance “A viúva grávida” de Martin Amis. Alcir Pécora, crítico literário e professor na Unicamp, aponta um “equívoco de disposição” das partes do livro, reclama de seu “aparato intelectualista, muitas vezes afetado” e o classifica como “regular”.
Caderno Ilustrada da mesma Folha de São Paulo do dia seguinte, 30 de abril de 2011, sábado: matéria sobre o mesmo “A viúva grávida” de Martin Amis, ilustrada pela mesma foto do autor. Martim Vasques da Cunha, editor da revista “Dicta&Contradicta” e doutorando na USP, classifica o romance como “ótimo” ao cotejá-lo com “Sobre a Revolução” de Hannah Arendt, pois “Amis vai além em relação aos teoremas de Arendt justamente porque não ignora a natureza humana”.
O que é isso? Exercício de relativismo? Demonstração de que em cada cabeça há uma sentença? Redução ao absurdo da crítica literária? Que tal pedir uma terceira opinião para desempatar? Publicar as duas matérias lado a lado, com as chamadas “gostei” e “não gostei”? Fazer isso regulamente, sempre cotejando um crítico simpático e outro idiossincrático? (e o leitor que resolva com qual dos dois concorda) Ou então, prestar mais atenção no que vai ser publicado, evitando desperdício de espaço?

Anúncios

5 responses to this post.

  1. Posted by roberto on 01/05/2011 at 19:35

    é sempre impressionante a “ligeireza” com que resenhistas ou críticos examinam obras literárias.
    se for resenhista, partem sempre do pressuposto que devem ser cáusticos, implacáveis. isso porque dificilmente alguém os peita e retruca. a última vez que vi alguém em santa fúria performática contra uma crítica, foi qdo josé roberto aguilar foi de botas e chicote na redação do jornal da tarde. subiu numa mesa e discursou por dez minutos,defendendo-se e estalando o chicote.

    Responder

    • bem lembrado!

      Responder

      • Posted by Lilian Gattaz on 01/05/2011 at 21:53

        sempre há uma turma de resenhistas de plantão disputando a paternidade da criança… e o esdrúxulo é que, quase sempre, a posse do DNA fica conferida, simplesmente, àquele que chegar primeiro… resenha é corrida “semêntica”, destrambelhada, reducionista, coisa que jamais pude entender a que se deve, a não ser aos leitores de orelhas (em ambos os sentidos).

      • que bom, minha manifestação rendeu – ainda vou mandar algo à Folha sobre o que publicaram a propósito da morte do Ernesto Sabato, outro absurdo – belíssimo escritor, e o necrológio da Folha é um artigo contra ele…

  2. Posted by Joana Ruas on 02/05/2011 at 11:36

    Olá Amigo Cláudio, mal vai o escritor que depende dos críticos,para a grande maioria que escreve na mídia é um ganha pão e por isso muitas vezes mal lêem as obras.Para mim são os escritores que melhor entendem as obras dos outros, porque as abordam pelo lado fecundo da criação e não pelo lado da crítica, pois crítica tem o mesmo étimo de crise.Abraço

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: