A polêmica sobre “os livro” e as recaídas no baixo populismo

A propósito dessa celeuma sobre a legitimidade de dizer “vamos pegar ‘os livro’” e chamar norma culta de “preconceito lingüístico”, o jornal “O Estado de S. Paulo” esclareceu, em matéria publicada ontem, dia 15/05, terça-feira, que o livro no qual constam essas afirmações foi adotado em um programa de educação de adultos, no Rio Grande do Norte, e foi indicado pela UFRGN e não pelo MEC. Erro jornalístico do Jornal Nacional não haver esclarecido isso.
Não obstante, a articulista do mesmo jornal, Dora Kramer, associou esse tipo de orientação pedagógica ao modo de expressar-se do ex-presidente Lula. Outro erro jornalístico: os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio que consagraram essa versão piorada do relativismo sociocultural são de 1996. Foram adotados durante o governo Fernando Henrique, na gestão Paulo Renato. Não por acaso, coincidiram com a piora no ensino público. E, felizmente, foram revistos no governo Lula, na gestão Haddad.
Na época, eu era presidente da UBE. Havia-me manifestado, em artigo intitulado “Em defesa da literatura”, de 2002, que coloquei on line:
http://www.revista.agulha.nom.br/ag25willer.htm
Erros jornalísticos à parte, a notícia já motivou recaídas no baixo populismo, com críticas à adoção da norma culta no ensino em detrimento das variantes, dos usos mais informais e coloquiais. Resumindo o que penso:
1. Nenhuma teoria ou paradigma pode ser hegemônica e virar doutrina oficial, seja aquela dos socioculturais que fizeram aqueles PCNs, ou formalistas, ou sociológicos, o que for – se não, passam a equivaler à ciência oficial de stalinistas e outros totalitarismos.
2. Minha objeção é ética: quem quiser alguma colocação profissional acima de motoboy, se não for competente na norma culta, irão bater-lhe com a porta na cara. Demandas de ascensão social e segurança econômica são legítimas e devem ser atendidas, na medida do possível (sem descartar, é claro, outras demandas e finalidades do ensino). Mais ainda hoje, quando já se registra oferta de emprego, com vagas não-preenchidas por falta de qualificação.
3. Alguns especialistas estão argumentando, em sua crítica à norma culta e defesa do relativismo e das variantes, como se estivéssemos no tempo de Laudelino Freire, Osório Duque Estrada e demais beletristas, os defensores das flexões elegantes e do preciosismo vocabular, obviamente signos da separação de classes em uma sociedade, como aquela d’outrora, pesadamente estratificada.

Anúncios

10 responses to this post.

  1. Muito bem pontuado professor. Aliás, o sensacionalismo aguarda sempre a tragédia, quando ela não acontece, ele a promove. Abraços Prof.

    Responder

  2. Posted by RENATA D'ELIA on 18/05/2011 at 18:40

    De acordo, Willer.

    Responder

  3. Posted by Camila Hungria on 18/05/2011 at 19:11

    Willer, belo texto! Você leu a carta resposta que a Ação Educativa redigiu sobre o ocorrido? Qual sua opinião? (vou colar aqui para você ver, caso não tenha visto). Bjs!

    NOTA PÚBLICA

    Livro para adultos não ensina erros

    Uma frase retirada da obra Por uma vida melhor, cuja responsabilidade
    pedagógica é da Ação Educativa, vem gerando enorme repercussão na
    mídia. A obra é destinada à Educação de Jovens e Adultos, modalidade
    que, pela primeira vez neste ano, teve a oportunidade de receber
    livros do Programa Nacional do Livro Didático. Por meio dele, o
    Ministério da Educação promove a avaliação de dezenas de obras
    apresentadas por editoras, submete-as à avaliação de especialistas e
    depois oferece as aprovadas para que secretarias de educação e
    professores façam suas escolhas.

    O trecho que gerou tantas polêmicas faz parte do capítulo “Escrever é
    diferente de falar”. No tópico denominado “concordância entre
    palavras”, os autores discutem a existência de variedades do português
    falado que admitem que substantivo e adjetivo não sejam flexionados
    para concordar com um artigo no plural. Na mesma página, os autores
    completam a explanação: “na norma culta, o verbo concorda, ao mesmo
    tempo, em número (singular – plural) e em pessoa (1ª –2ª – 3ª) com o
    ser envolvido na ação que ele indica”. Afirmam também: “a norma culta
    existe tanto na linguagem escrita como na oral, ou seja, quando
    escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando
    escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais,
    utilizando a norma culta”.

    Pode-se constatar, portanto, que os autores não estão se furtando a
    ensinar a norma culta, apenas indicam que existem outras variedades
    diferentes dessa. A abordagem é adequada, pois diversos especialistas
    em ensino de língua, assim como as orientações oficiais para a área,
    afirmam que tomar consciência da variante linguística que se usa e
    entender como a sociedade valoriza desigualmente as diferentes
    variantes pode ajudar na apropriação da norma culta. Uma escola
    democrática deve ensinar as regras gramaticais a todos os alunos sem
    menosprezar a cultura em que estão inseridos e sem destituir a língua
    que falam de sua gramática, ainda que esta não esteja codificada por
    escrito nem seja socialmente prestigiada. Defendemos a abordagem da
    obra por considerar que cabe à escola ensinar regras, mas sua função
    mais nobre é disseminar conhecimentos científicos e senso crítico,
    para que as pessoas possam saber por que e quando usá-las.

    O debate público é fundamental para promover a qualidade e equidade na
    educação. É preciso, entretanto, tomar cuidado com a divulgação de
    matérias com intuitos políticos pouco educativos e afirmações
    desrespeitosas em relação aos educadores. A Ação Educativa está
    disposta a promover um debate qualificado que possa efetivamente
    resultar em democratização da educação e da cultura. Vale lembrar que
    polêmicas como essa ocupam a imprensa desde que o Modernismo
    brasileiro em 1922 incorporou a linguagem popular à literatura.
    Felizmente, desde então, o país mudou bastante. Muitas pessoas tem
    consciência de que não se deve discriminar ninguém pela forma como
    fala ou pelo lugar de onde veio. Tais mudanças são possíveis, sem
    dúvida, porque cada vez mais brasileiros podem ir à escola tanto para
    aprender regras como parar desenvolver o senso crítico.

    Responder

  4. Posted by Neli Maria Vieira on 18/05/2011 at 19:17

    Obrigada Willer por usar sua sabedoria e gritar por nós.

    Responder

  5. Posted by roberto on 19/05/2011 at 01:43

    boa,willer! eu não tenho a mesma paciência que vc. por isso, defendo que se dê um certeiro chute na bunda desse pessoal que vc diz ser do “baixo populismo”, juntamente com o pessoal do “politicamente correto”.
    adorei a pronta reação de todos contra esse obscurantismo mediocrizante. CHUTE NA BUNDA imediato para essa gente reacionária, carola, populista, stalinista, burra, covarde e outras coisitas mais pesadas, que não fica bem colocar aqui.

    Responder

  6. Posted by Rogerio on 26/05/2011 at 01:00

    Gostaria de saber se as pessoas que falaram aqui ja tiveram aula de Linguistica!

    sou estudante de letras, nao sou contra que ensine a norma culta, nenhum linguista é, o que somos contra é consider alguém inferior pela forma que ele fala.

    Atire a primeira pedra quem nunca cometeu um erro na fala!
    em nenhuma parte do país falasse certo 100% e mesmo pessoas letradas cometem equivocos.

    Portanto , pesquisem antes da darem alguma opinião!

    Responder

  7. […] Acessos deram um salto quando me manifestei sobre a polêmica a propósito do ensino da língua https://claudiowiller.wordpress.com/2011/05/18/a-polemica-sobre-os-livro-e-as-recaidas-no-baixo-popul… – 194 no dia em que publiquei o comentário. Meu recorde– deve continuar por um bom tempo […]

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: