Se Allen Ginsberg estivesse vivo, estaria marchando em Wall Street

Ginsberg morreu em 1997, aos 71 anos. Não fossem a cirrose e o conseqüente câncer que o matou, teria, hoje, 85 anos – outros beats, como Ferlinghetti, McClure e Snyder, estão aí, nessa faixa etária. Estaria no front, participando dos debates políticos deste milênio. Repetiria o que já havia dito. A seguir, trecho que recortei do final do ensaio ainda inédito ‘Geração Beat e místicas da transgressão’, um dos textos do meu pós-doc:

A exaltação mística e o ímpeto messiânico de Ginsberg coexistiram com um pensamento político articulado e atento aos detalhes. A passagem de algumas décadas confere valor adicional a suas declarações e manifestações. Isso, pelas tomadas de posição que o projetaram como liderança na mobilização contra o militarismo norte-americano e a intervenção no Vietnã, e por críticas como aquela ao regime cubano, então precursoras e atualmente óbvias, em tópicos como a perseguição de homossexuais e repressão à “santeria”. E por precisas análises pontuais. Por exemplo, em sua palestra sobre Ezra Pound, “Poetic Breath, and Pound’s Usura”, de 1971, publicada em Allen Verbatim. Após discorrer sobre prosódia, ritmo e respiração em poemas de Charles Olson e William Carlos Williams, detém-se nos famosos versos sobre a usura do Canto XLV dos Cantos de Pound. Mostrando a musicalidade de um verso como “Azure hath a canker by usura”; comenta o modo como o próprio Pound lia esses versos; observa a escolha de “with usura the line grows thick” em vez de “with usura the line gets thick”, argumentando que em Pound o som tinha sentido e cada vogal tem “substancialidade”. Finalmente, levando em conta esses valores sonoros, caracteriza o Canto XLV como um “grande exorcismo da usura” e contextualiza, denunciando a privatização e controle do dinheiro por bancos, que por sua vez se tornam credores dos governos:

Assim, o que Pound está observando é que todo o sistema monetário, o sistema bancário, é uma alucinação, e ele está explicando a estrutura dessa alucinação e retroagindo historicamente, porque a estrutura muda em cada era da reforma bancária. […] A questão é que a franquia é comprada por um grupo de monopolistas privados; daí em diante eles possuem o negócio bancário, nesse sentido, pois pagaram um milhão ao governo e tem um milhão em seus porões, e subitamente, no papel, possuem dezoito milhões a mais do que o capital inicial.

Nem é preciso insistir na pertinência dessa análise; o quanto se aplica à crise econômica em curso, decorrente da condução de políticas econômicas por bancos e da especulação desenfreada. Poderia constar em artigos escritos de 2008 até hoje.

Outro exemplo da sintonia fina em análises políticas está em Indian Journals, o diário de sua estada na Índia por mais de um ano, de março de 1962 a maio de 1963. No meio de poemas, reflexões sobre criação poética, registros de leituras, relatos de alucinações e efeitos de drogas, descrições do que via no período em que, junto com Peter Orlowski, levou vida de saddhu, monge mendicante, acrescentou um recorte de jornal. É um artigo intitulado “A classe privilegiada”, denunciando que “1% dos lares do país possuem nada menos que 75% dos bens privados”. Assim argumentou que a estatização, a economia fechada e o monopólio bancário geram corrupção e acentuam a concentração de renda – também algo evidente hoje, à luz das melhoras do quadro econômico daquele país.

Ainda sobre os bons insights políticos de Ginsberg, seu exame, também precursor, do tema das drogas, tal como exposto na série de palestras-diálogos de Allen Verbatim intitulada “Political Opium” (ópio político). Nelas, ao caracterizar o tráfico de drogas como flagelo urbano, argumentou tratar-se de resultado da proibição . Focalizou especialmente o Harrison Act de 1920, que baniu o ópio e derivados, e criminalizou seus usuários – invariavelmente, conduzindo à colaboração entre policiais e crime organizado, além de desviar recursos do que realmente interessaria, pesquisas e políticas de saúde pública em favor de viciados, obrigando-os a ter nos traficantes seus únicos interlocutores.

Apontar economias fechadas e burocratização como fonte de corrupção; proclamar que a transferência das decisões de política econômica para os bancos levaria ao desastre; insistir em que a criminalização do uso de drogas fortalece o crime organizado; tomar a defesa da diversidade sexual e cultural como crítica ao ‘socialismo real’: aí estão tópicos de uma agenda que deixou de ser exclusiva de seguidores ou continuadores da Geração Beat. No entanto, Ginsberg formulou esse tipo de crítica em 1962 (relativamente às economias fechadas), 1965 (sobre Cuba), 1970 (contra a criminalização de drogados) e 1971 (sobre os bancos e a especulação financeira). Pode-se, por isso, caracterizá-lo como um lúcido analista político.

Em outras intervenções, Ginsberg foi igualmente precursor, nas manifestações pacifistas, na defesa incondicional da liberdade de expressão, do multiculturalismo, da tolerância e respeito à diferença.

Tudo isso, hoje em dia, é agenda de setores amplos da sociedade e de um diversificado elenco de personalidades públicas; mas eram temas minoritários, alguns vistos como excêntricos, quando apresentados por Ginsberg; e também, em inúmeras ocasiões, por McClure, Ferlinghetti, Snyder, Di Prima, Waldman e outros beats.

O registro dessas manifestações corrige um estereótipo relativo ao místico, como alguém isolado e alheio ao mundo. Passar metade do ano recluso, em meditação (na época em que o traduzi), e a outra metade dedicando-se a uma intensa atuação pública chega a ser uma metáfora da harmonia desses dois campos, misticismo e política.

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10 responses to this post.

  1. Mestre, muito preciso e oportuno o recorte que você fez. Face ao explanado, com certeza Ginsberg estaria ocupando Wall Street e, quem sabe, dando um rumo para os ativistas do movimento.

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  2. Posted by Caneves on 11/02/2012 at 14:49

    Mestre, muito interessante esse post. Sem dúvidas, Allen Ginsberg estaria guiando os ativistas com suas ideias – a poesia. Uma boa tarde.

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  3. […] da poesia e da atualidade do pensamento político de Ginsberg, prosseguindo o que publiquei em https://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-… . Farei comparações de Negócios de família com outro belo livro sobre a Geração Beat: Beat […]

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  4. […] Pobre mundo esse, que se ajusta às evidentes metáforas de Saramago. Ainda bem que, salvando minha inclinação anarquista, em 1970 Allen Ginsberg já advertia sobre as consequências da economia ser conduzida pela especulação financeira – isso, entre outras antecipações de temas contemporâneos, como já observei aqui, em https://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-… […]

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  5. […] minha tradução de Uivo e outros poemas, e comentários sobre sua lucidez política, especialmente https://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-… . Seu biógrafo Barry Miles, no excelente The Beat Hotel, compara o final de “Kaddish”, o […]

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