Homenagens a Robert Desnos, 2

por Man Ray imagesRrose Sélavy

Já havia escrito sobre o Robert Desnos autor de anagramas. A seguir, um trecho do meu “Surrealismo, poesia e poética”, publicado em O surrealismo (Perspectiva, 2008, org. J. Guinsburg e Sheila Leirner). Completo com informações e interpretações transcritas e traduzidas por mim de um livro extraordinário, Le surréalisme et le rêve de Sarane Alexandrian (Gallimard). Termino com um comentário.

  1. De “Surrealismo, poesia e poética”:

Liberar o “discurso do pensamento”, o fluxo da linguagem, foi levado a extremos por Robert Desnos em poemas feitos de significantes aproximados pelo valor sonoro, fonético ou prosódico, compondo séries de homofonias, aliterações, parônimos: Les chats hauts sur les châteaux/ d’espoir/ Croquent des poires d’angoisse/ la nuit/ l’ennui/ l’âme nuit. (há correspondências sonoras intraduzíveis; ao pé da letra: Os altos gatos sobre os castelos/ de esperança/ Abocanham as peras da angústia/ a noite/ o tédio/ a alma amola.)

Exemplos como esse, ou então L’appeau/ La peau, peau-pierre (onde a pálpebra é pele de pedra por homofonia), e L’or est hors de nos mains/ qui demain/ palpéront les cinq seins/ d’une femme plus belle que/ la qui bêle (O ouro está fora de nossas mãos/ que amanhã/ apalparão os cinco seios/ de uma mulher mais bela que a que bale), compõem o capítulo da analogia. São cabala fonética (como os designava Breton), que exibe e disfarça palavras através de outras cujo som é assemelhado, ocultando sentidos e gerando-os. Mas, ao contrário da criptografia, que é exata, tais enunciados produzem polissemia, multiplicando sentidos. Preenchem boa parte da poesia de Desnos, reunida na coletânea Corps et biens. Incluem a série Rrose Sélavy – que havia sido iniciada por Marcel Duchamp –, com anagramas como Le temps est un aigle agile dans un temple (O tempo é uma águia ágil em um templo). Através deles, Desnos indica o criador dos ready-made: Rrose Sélavy connaît bien le marchand du sel, onde marchand du sel é Marcel Duchamp com sílabas trocadas (o próprio Duchamp adotava esse pseudônimo).

Michel Leiris, por sua vez, continuaria esse procedimento, chegando, em Glossaire j’y serre mes gloses, publicado inicialmente em La révolution surréaliste (republicado em Mots sans mémoire, Gallimard, Paris, 1969), dedicado a Desnos, a criar um dicionário de parônimos, homofonias e aliterações com cerca de oitocentas entradas, desde ABÎME – vie secrète des amibes (abismo, vida secreta das amebas) e ABRUPT – âpre et brut (abrupto, áspero e bruto), passando por ÉROTIQUE, erratique? e ESCALIER – l’obstacle est son esclave lié, até ZENITH – qu’il m’attise! Et je n’hésite…. e ZÉRO – oh! l’érosion de l’essor rosé… Exemplos equivalentes de anarquia verbal e desorganização dos fonemas se encontram em Roger Vitrac.

  1. De Le surréalisme et le rêve de Alexandrian – que estranho, um livro tão bom estar fora de circulação na França – o exemplar que tenho foi achado, a meu pedido, por Jean Sarzana em um ‘bouquiniste’, banca de alfarrábio, à beira do Sena, mas depois de pesquisar bastante – e Alexandrian é um autor bem conhecido; dele temos, no Brasil, a História da literatura erótica e A magia sexual; encontra-se a edição portuguesa de História da filosofia oculta. O trecho relata sessões de “sono hipnótico” a que se entregaram os surrealistas no final de 1922 (em uma próxima postagem, trarei mais a respeito):

Na penumbra, esperam com ansiedade o momento em que um golpe surdo anuncia que Desnos caiu, adormecido, sobre a mesa; levantam-no, rodeiam o poeta de olhos fechados, cujo corpo é sacudido por tremores nervosos. Não se cansam de repetir-lhe: quem é Max Ernst? o que você sabe de Paul Éluard? o que você pensa de Simone Breton? o que você vê para Gala Éluard? o que fará Breton daqui a dois anos? Com uma voz parecendo vir de muito longe sob a consciência, ele profetisa como uma Pítia. Escreve com frenesi, quebrando lápis sobre lápis em sua fuga, riscando com suas frases desmedidas o papel e a mesa. Sempre o inesperado jorrava de sua boca e de sua mão. Querem que escreva um poema? Improvisa quatro estrofes de uma enfiada só, que interrompem prematuramente, achando que ele havia terminado, e das quais ele dá os dois últimos versos dez minutos após ter respondido a uma série de questões. Querem que desenhe? Ele, que ordinariamente se queixa de não saber desenhar, realiza uma quantidade de desenhos simbólicos, de execução bem fraca, porém de concepção notável. Picabia, para testar o adormecido, lhe pede que faça um jogo de palavras à maneira de Marcel Duchamp, coisa que o grupo acha impossível, tendo os trocadilhos dele como inimitáveis; mas Desnos, a cabeça sobre o braço, replica automaticamente: “Dans um temple em stuc de pommes le pasteur distillait le suc des psaumes.” (minha tradução aproximativa: “Em um templo com estuque de maçãs o pastor destilava o suco dos salmos” – evidentemente, valem as correspondências sonoras em francês).

  1. Ainda de Alexandrian, trechos de sua interpretação da poesia de Desnos:

Às perversões sexuais, amavelmente descritas em suas prosas como signos da mais alta liberdade amorosa, correspondem em seus poemas as perversões verbais, signos equivalentes da mais elevada liberdade de expressão. Para Breton, as palavras fazem amor; para Desnos, praticam a sodomia, o vampirismo. É notável constatar que o recurso de estilo ao qual se afeiçoa é a inversão (semântica e gramatical), como se a poesia fosse um ato contra-natura. A violação da linguagem é manifesta em L’Aumonyme (intraduzível: é fusão de anônimo, anonyme, e esmola, aumône), Langage cuit (linguagem cozida), C’est les bottes de sept lieues cette phrase “Je me vois” (É as botas de sete léguas esta frase “Eu me vejo”); há violação porque o sentido é imposto arbitrariamente ao poema, a grandes golpes de homofonia e de paronomásias. […] O poema dá a impressão de um baile equívoco onde as mulheres estão disfarçadas de homens e os homens de mulheres. A palavra é vestida de um fonema, ela pode travestir-se mudar de sentido como se muda de sexo, por permutação das letras ou inversão da figura. […]

  1. Minhas observações, para terminar:

Já havia observado que Rrose Sélavy, Glossaire, etc, poderiam passar ao leitor desavisado por poesia concreta em seus melhores momentos, não houvessem sido criados décadas antes. E com uma diferença fundamental com relação a formalistas e poetas inteligentes em geral: sua vitalidade, seu caráter subversivo (bem observado por Alexandrian), o ímpeto com que procuram destruir a relação de significação, romper a barreira entre o simbólico e o real, chegar à síntese de poesia e vida: propósitos diametralmente opostos aos cartesianismos poéticos em voga.

Esta postagem ficou longa … Haverá mais sobre Desnos e temas afins; principalmente, a busca de identidade da poesia e vida.

Anúncios

2 responses to this post.

  1. Ótimo texto, mestre Willer! Penso que a partir do “modus operandi surrealista” a relação entre poesia e vida pôde ser muito comprovada, se é que à poesia coube ou cabe a função de comprovar alguma coisa… Aguardo mais textos sobre o assunto!

    Abraço,

    Leonardo.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: