Homenagens a Robert Desnos, 3

obra 16283

col Poètes d''aujourd'hui 113354155

Desnos: mais poemas

Que beleza, conteúdo gerar acessos. Como aumentou a visitação a meu blog desde que iniciei esta série sobre Desnos.

A seguir, três de seus poemas, O primeiro, de Le langage cuit, é bem conhecido por freqüentadores de meus cursos e oficinas: mostro sempre. É obra prima no emprego dos oximoros e antinomias. Conecta-se, por isso, com uma tradição, incluindo cantos tribais, de civilizações antigas, hinos órficos, gnósticos, expressões de místicos e poesia moderna. Já escrevi sobre isso – oximoros e antinomias no misticismo e poesia – no cap. 4 de meu Um obscuro encanto, e tenho algo mais extenso a respeito em preparação. Os demais, de Les tenèbres, de 1927.

Todos na tradução de Eclair Antonio Almeida Filho (que traduziu a série toda, de 27 poemas, de Les tenèbres, e muito mais).

Está clara, para mim, a seqüência desta série sobre Desnos em meu blog. No próximo, vou postar mais sobre o sono hipnótico, comentando. A seguir, algo de sua biografia. Completarei com outro trecho de La liberte ou l’amour! Ficam fora, por intraduzíveis, mais de sua ‘cabala fonética ‘ e as séries de alexandrinos clássicos e outras formas fixas que ele produzia espontaneamente, por vezes em transe ou sono hipnótico.

UM DIA EM QUE ERA NOITE

Ele voou para o fundo do rio.

As pedras de madeira de ébano, os fios de ferro em ouro e a cruz sem braço.

Tudo nada.

Eu a odeio com amor como todo um cada um.

A morte respirava grandes correntes de vazio.

O compasso traçava quadrados

E triângulos de cinco lados.

Após isso desceu ao sótão.

As estrelas do meio-dia resplandeciam.

O caçador voltava, o bornal cheio de peixes

Sobre a margem no meio do Sena.

Uma minhoca marca o centro de um círculo

Sobre a circunferência.

Em silêncio meus olhos pronunciaram um estridente discurso.

Então avançávamos numa aléia deserta onde se apressava a multidão.

Quando a marcha nos trouxe repouso

Tivemos a coragem de nos sentar

Depois ao despertar nossos olhos se fecharam

E a aurora verteu sobre nós os reservatórios da noite.

A chuva nos secou

I – A voz de Robert Desnos

Tão semelhante à flor e à corrente de ar

Ao curso d’água às sombras passageiras

Ao sorriso entrevisto essa famosa noite à meia-noite

Tão semelhante a tudo à felicidade à tristeza

É a meia-noite passada que levanta seu dorso nu acima das

Torres e dos álamos

Chamo até a mim aqueles perdidos nos campos

Os velhos cadáveres os jovens carvalhos cortados

Os retalhos de tecido que apodrecem sobre a terra e o linho

Que seca nos arredores das fazendas

Chamo até a mim os tornados e os furacões

As tempestades os tufões os ciclones

As ressacas do mar

Os tremores de terra

Chamo até a mim a fumaça dos vulcões e a dos cigarros

Os círculos de fumaça dos cigarros de luxo

Chamo até a mim os amores e os amantes

Chamo até a mim os  vivos e os mortos

Chamo os coveiros chamo os assassinos

Chamo os carrascos  chamo os pilotos os pedreiros e

os arquitetos

os assassinos

chamo a carne

chamo aquela que amo

chamo aquela que amo

chamo aquela que amo

a meia-noite triunfante abre suas asas de cetim e se põe

Sobre minha cama

As torres e os álamos se dobram ao meu desejo

Aquelas desabam aqueles se envergam

Os perdidos no campo se reencontram ao me achar

Os velhos cadáveres ressuscitam por minha voz

Os jovens carvalhos cortados se cobrem de verdor

Os retalhos de tecido que apodrecem na terra e sobre a terra estalam à

minha voz como o estandarte da revolta

o linho que seca nos arredores das fazendas veste adoráveis mulheres que

eu não adoro que vêm a mim obedecem à minha voz e me adoram

os tornados giram em minha boca

os furacões enrubescem se é possível meus lábios

as tempestades murmuram aos meus pés

os tufões se é possível me pintam

recebo os beijos de embriaguez dos ciclones

as ressacas do mar vêm morrer aos meus pés

os tremores de terra não me abalam mas fazem tudo desabar à

minha ordem

a fumaça dos vulcões me veste com seus vapores

e a dos cigarros me perfuma

e os círculos de fumaça dos cigarros me coroam

os amores e o amor há  tanto perseguidos se refugiam em mim

os amantes escutam  minha voz

os vivos e os mortos se submetem e me saúdam os primeiros

friamente os segundos familiarmente

os coveiros abandonam os túmulos arduamente cavados e declaram que

apenas eu posso comandar seus noturnos trabalhos

os assassinos me saúdam

os carrascos invocam a revolução

invocam  minha voz

invocam meu nome

os pilotos se guiam sobre meus olhos

os pedreiros sentem vertigem ao me escutar

os arquitetos partem para o deserto

os assassinos me benzem

a carne palpita a meu apelo

aquela que amo não me escuta

aquela que amo não me ouve

aquela que amo não me responde

(14-12-1926)

III- A sexta-feira do crime

Um incrível desejo se apossa das mulheres adormecidas

Uma pedra preciosa adormece no cofre azul de rei

E eis que sobre o caminho se agitam as pedras exauridas

Nunca mais os passos das comovidas pela noite

Passem cascatas

As muralhas se levantam ao som do alaúde de Orfeu

E desmoronam ao som das trombetas de Jericó

Sua voz atravessa as muralhas

E meu olhar as suprime sem ruínas

Assim passam as cascatas com a lamentação das estrelas

Sem pedras no caminho

Sem mulheres adormecidas

Sem mulheres na obscuridade

Assim passem cascatas.

Anúncios

3 responses to this post.

  1. A natureza, as geometrias e a perfeição das oposições! Lindos, sempre!

    Resposta

  2. viva os bons leitores! bjs

    Resposta

  3. Posted by Contador Borges on 18/01/2012 at 02:06

    Desnos, que maravilha! poeta essencial. Para onde ele nos remete?
    uma voz que soa como uma navalha cortante como o silêncio preso
    na garganta da civilização.
    Beleza, Willer.
    abraço fraterno
    Cont.

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: