Homenagens a Robert Desnos, 4

com os surrealistas mr_01_0

Mais sobre sono hipnótico

A seguir, transcrição de dois textos sobre Desnos e o sono hipnótico. O primeiro, de meu ensaio “Magia, poesia e realidade: o acaso objetivo em André Breton”, publicado na coletânea O Surrealismo da Perspectiva. O segundo, de Le surréalisme et le rêve de Alexandrian, do qual eu já havia transcrito, sobre sono hipnótico e Desnos, o trecho sobre a gênese da “cabala fonética”.

Antes, algumas observações sobre o valor poético dessas incursões por territórios desconhecidos. Chocam-se com um arraigado cartesianismo evidente, entre outros lugares, no que Haroldo de Campos havia escrito, nos Manifestos da poesia concreta, sobre o “irracionalismo surrealista, automatismo psíquico, caos poético individualista e indisciplinado”, gestado “nos limbos amorfos do inconsciente”, produzindo “essa patinação descontrolada por pistas oníricas de palavras ligadas ao subjetivismo arbitrário e inconseqüente”, pois, para ele, “O poema concreto é submetido a uma consciência rigorosamente organizadora, que o vigia em suas partes e no todo, controlando minuciosamente o campo de possibilidades aberto ao leitor”. Ferreira Gullar, contendor da poesia concreta, dizia-me a mesma coisa, por volta de 1980; não aceitava escrita automática “porque não sou eu quem está escrevendo”. Em João Cabral’ encontramos afirmações categóricas sobre o indispensável controle racional da criação poética (“A emoção não cria” etc).

Concretistas atenuaram posições (mas, como observei recentemente a Augusto de Campos, faltou avisarem a epígonos e adeptos). Gullar também. Cabral mostrou-se, até o fim, cada vez mais dogmático e intransigente. Matrizes do que tenho chamado de “poetas inteligentes”. Não percebem que alucinações, transes, escrita automática, sonhos, inspiração e possessão são ampliações, e não reduções. Que há um ganho e não uma perda; liberação e não restrição pela expressão do “eu” profundo; pelo retorno do recalcado; em última instância (ou primeira, não sei), do desejo. O legado de surrealistas em geral e Desnos em especial é a demonstração do valor poético dessas luzes que saem da profundidade. Alexandrian chama capítulos de seu livro de “La nuit des éclairs”, a noite dos clarões ou relâmpagos, e “Le mystère dans la lumière”, o mistério na luz. Faz observações como esta: “O desejo é uma língua viva”. Diz que “o simbolismo poético e o simbolismo onírico são interdependentes”.

O trecho do meu ensaio – sobre acaso objetivo, por isso focaliza o valor profético dessas e de outras manifestações:

Na busca do além-fronteiras durante a fase heróica ou intuitiva do surrealismo, período da formação que precede o primeiro manifesto, também foram feitas experiências com o “sono hipnótico”. São comentadas em um capítulo da coletânea Les pas perdus de Breton intitulado Entrée des Médiuns (antes haviam sido publicadas na revista Littérature e também pode ser encontrada na biografia de Breton por Henry Béhar, Le grand indésirable, ou em Oeuvres de Robert Desnos, Gallimard), sobre o desencadear-se deuma conspiração de forças absurdas”. A idéia de imitar sessões espíritas, mas rejeitando a hipótese da comunicação com os mortos, foi de René Crevel. É transcrito um diálogo entre Breton e Desnos, em transe, respondendo por escrito, a 27 de setembro de 1922:

Desnos, é Breton quem está aí. Diga-lhe o que você vê.

O equador (desenha um círculo e um diâmetro horizontal).

É uma viagem que Breton deve fazer?

Sim.

Será uma viagem de negócios?

– (Faz sinal de não com a mão. Escreve:) Nazimova.

Sua mulher o acompanhará nessa viagem?

– ???

Irá ele reencontrar Nazimova?

Não (sublinhado).

Ele estará com Nazimova?

– ?

O que mais você sabe sobre Breton? Fale.

O barco e a neve – há também a bela torre de telégrafo – sobre a bela torre há um jovem (ilegível).

Béhar sugere uma interpretação: “O leitor que conhece o triste destino de Nadja é tentado a assimilar esses dois nomes russos, ainda que Nazimova seja aquele de uma atriz de cinema célebre na época” (Alla Nazimova, atriz russa admirada por Desnos e que atuava no cinema americano, protagonista de Salomé). Em Oeuvres de Desnos foram incluídos comentários sobre cinema, nos quais a atriz Nazimova é mencionada. (a observar que a sessão foi em 1922; o encontro de Breton e Nadja, em 1926) Mas há outra interpretação possível, que não consta na bibliografia examinada: Nazimova podia ser uma recepção distorcida de nazismo. Isso dá ao episódio um alcance efetivamente profético, pois não havia como antever, em l922, a ascensão do nazismo na década seguinte e as conseqüências de mais uma guerra mundial. Entre outras, a viagem transoceânica de Breton em maio de 1941, como refugiado, primeiro à Martinica e depois aos Estados Unidos. Detalhes do diálogo reforçam essa interpretação: seria impossível “encontrar” Nazimova, e obter resposta sobre a mulher de Breton (não estaria mais com Simone Kahn, porém separando-se de Jacqueline Lamba). Dos presentes à sessão, quem acabou como vítima do nazismo foi o próprio Desnos. Militante da resistência francesa, morreria em um campo de concentração ao final da guerra.

As experiências com o sono hipnótico foram interrompidas depois de situações constrangedoras e chocantes, como a insistência de Crevel no suicídio coletivo (viria a suicidar-se em l935). Desnos as continuou por conta própria. Não consta, nos estudos sobre o assunto, a seguinte pergunta: por quê, do material disponível sobre sono hipnótico e estados de aparente mediunidade, resultado de várias reuniões, Breton escolheu esse trecho para a publicação em Les pas perdus? Qual critério o levou à seleção do diálogo sobre Nazimova, profecia impossível de avaliar ou considerar mais que devaneio? Pode-se falar em dupla premonição. Primeiro de Desnos adormecido, antevendo tragédias que aconteceriam daí a décadas. Depois de Breton, selecionando o trecho para figurar em L’entrée des mediums.

Breton e seus companheiros não foram os únicos a iniciar experiências através de simulacros de sessões mediúnicas, interrogando as profundezas do inconsciente ou a amplidão de outros mundos. A idéia da criação poética associada a uma voz externa, dizendo algo ao poeta, é antiga (está inclusive em Platão) e muito presente no primeiro romantismo alemão, em Gérard de Nerval, na bouche d’ombre de Victor Hugo e em episódios intrigantes como a “escrita automática” de Yeats, o procedimento através do qual sua mulher, Georgina Hide-Lees, escreveu A Vision; e ainda o modo como Fernando Pessoa, em 1914, criou O Guardador de Rebanhos de uma enfiada só, como se Alberto Caeiro houvesse “baixado”.

Agora, um dos trechos de Alexandrian (são vários):

Freqüentemente Desnos evoca, dormindo, personagens da Revolução Francesa (criança, identificava-se já a Robespierre, cujo nome evocava seus dois prenomes, Robert-Pierre), mas será visto pelo trecho a seguir como seu tom difere das pseudo-mensagens espíritas atribuídas a um Convencional:

Sábado, 30 de setembro. – Espontâneo – Ah! (depois, palavra ilegível)

P. – Onde você está?

R. – Robespierre.

P. – Aqui há mais pessoas?

R. – A multidão.

Robespierre (com uma letra bem grande) Robespierre.

Aqui Desnos se põe, pela primeira vez, a falar. Voz surda, triste, ligeiramente ameaçadora. Ouve-se:

Eles se tornarão mais brancos que o estandarte horrendo da monarquia…. Covardes, covardes… E esses colarinho branco que vós me reprovais como paramento inútil…. vós tendes ciúme do pescoço elegante que sai dele…. Vós sois forjadores escapadosde vossas forjas noturnas…. noturnas… noturnas…. A guilhotina…. a guilhotina. Estou só. Vós sois a multidão e vós tremeis diante do meu olhar verde.

P. – Atrás de Robespierre, o que há?

R. – Uma ave.

P. – Que ave?

R. – A ave do paraíso.

P. – E atrás da multidão?

R. – (desenho representando a guilhotina. Escreve: ) o belo sangue canapé.

P. – E quando Robespierre e a multidão não estiverem mais em contato, o que acontecerá?

R. – A bela canção de amor da minha vida inominada.

P. – O que acontecerá com a multidão?

R. – Que me importa?

P. – O que acontecerá com Robespierre?

R. – O céu.

Espontâneo – Boy of my soul as a sky so white do is my boy my boy my boy where is the blue sky – the boat of my hair a beautiful steamer star boat.

[…]

(o trecho vai mais longe – e há outro, no qual novamente Nazimova é evocada – mas este post está longo demais, transcreverei em outra ocasião)

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