Homenagens a Robert Desnos, 5

em Terezienstad desnos2

Alguma biografia: o personagem

Robert Desnos nasceu em Paris em 1900. Estreou em revistas literárias aos 17 anos. Em 1919, passou a fazer parte do grupo da revista Littérature, dirigida por Breton e Aragon. Publicou poesia, prosa e relatos de sonhos. Prolífico, em 1922 lançava a série Rrose Sélavy (já comentada nestas postagens), seguida no mesmo ano por Les nouvelles Hébrides, reproduzindo as histórias que narrava para si mesmo ao adormecer: aventuras, entremeadas de toda sorte de perversões, envolvendo seus amigos Breton, Péret (que o havia apresentado aos surrealistas), Aragon e Vitrac; passavam-se, diz Alexandrian, “em um mundo ao avesso”. De 1924 é Deuil pour deuil (luto por luto), escrita automática. Segue La liberté ou l’amour! de 1927 e a coletânea Corps et biens, de 1930.

Durante um período inicial do surrealismo, Desnos teve um papel central por seu talento e pela capacidade de sonhar e entrar em estados hipnagógicos, intermediários entre sonho e realidade. No elogio que lhe fez Breton em Nadja, declarou que, de todos os encontros previstos por ele, “não há um ao qual eu sinta ainda a coragem de faltar”.

Foi ao mesmo tempo um libertino (como se evidencia em suas narrativas) e um lírico romântico. No começo dos anos 1920, Desnos e o jornalista e roteirista Henri Jeanson partilhavam a mesma amante; dividiam-na. Em 1925, apaixonou-se pela cantora de cabaré Yvonne George, e, mesmo sem ser correspondido, a elegeu como musa e protagonista de sonhos. Ganhou dela uma garrafa com um barco dentro: sentia que esse barco vibrava toda vez que fosse lhe acontecer algo importante. Em 1930, conheceu Youki, com quem viveria até o fim – o barco vibrou quando a conheceu.

Rompeu com Breton e o grupo surrealista em 1927, junto com Artaud, Leiris e Soupault, por discordarem da adesão ao comunismo soviético. Desnos e Breton insultaram-se, respectivamente no panfleto Un cadavre e no Segundo manifesto do surrealismo. Ambos se retrataram dos insultos e reataram relações em 1936. E Breton manifestaria várias vezes o reconhecimento pela contribuição de Desnos.

A propósito, um dos vícios de determinada crítica é examinar autores que romperam com Breton em contraposição ao surrealismo, deixando de lado as relações de continuidade. Um dos exemplos (há muitos) é o livro de Silviano Santiago sobre a viagem de Artaud ao México, pretexto para um libelo contra o surrealismo. Mas, na época, Artaud e Breton se correspondiam. Artaud se apresentou como surrealista e deu a palestra “Surrealismo e revolução” no México (traduzi e a publiquei em Escritos de Antonin Artaud). Escreveu cartas a Breton da Irlanda, relatando os episódios que culminaram em seu internamento em hospícios. Quanto a Leiris, reconheceu o surrealismo como quadro de referências em A idade viril e colaborou em Minotaure, a revista dirigida por Breton.

De tudo o que Desnos fez nos anos de 1930 (muita coisa), destaco o programa de rádio que criou, interpretando sonhos. Transcrevo alguns parágrafos de Alexandrian em Le surréalisme et le rêve:

“Em 1937, Robert Desnos criou no Poste-Parisien uma emissão hebdomadária intitulada A chave dos sonhos, na qual convidava os ouvintes a lhe enviar seus sonhos, propondo-se a explicá-los e transmiti-los. O sucesso foi imediato e lhe demonstrou o interesse apaixonado que o público tinha por esse gênero de problema. A cada semana, recebia um fluxo de cartas de homens e mulheres contando-lhe o que haviam sonhado; um de seus correspondentes lhe enviou até mesmo um caderno no qual anotava noite após noite suas impressões de sono. Desnos escolhia os dois sonhos que lhe parecessem mais radiofônicos e os reconstituía com atores e um fundo sonoro; resultavam cenas bizarras, destinadas a mergulhar o espírito em uma ambientação onírica. Em seguida, dando a réplica a dois assistentes, Colette Paule e Jerôme Arnaud, Desnos se ocupava doutamente com os outros envios que lhe haviam sido feitos; classificava-os em duas grandes categorias: os sonhos portadores de presságios e os sonhos sem significação para o futuro.

“Decifrava-os referindo-se ao tratado dos sonhos de Artemidoro de Efeso, traduzido em 1921 por Henri Vidal. Adaptava esse livro às realidades modernas; ou seja, aplicava por exemplo aos automóveis o que Artemidoro dizia dos carros. Embora destacasse que Freud tinha grande consideração pelo autor grego, não os lia em um espírito freudiano. Ao contrário, autorizava-se a determinar os signos fastos e nefastos pertencentes à vida onírica. Acreditava, com uma candura autêntica, que os sonhos tinham um sentido augural […] Submetiam-lhe as mais absurdas aventuras: havia o sonho da ouvinte que tinha feito uma viagem em um camelo com bigodes, antes de encontrar-se sentada no interior de uma abóbora; aquele de um homem que se servia de um piano automóvel, permitindo-lhe ao mesmo tempo tocar música e percorrer as estradas etc. […]

Alexandrian dedica mais algumas páginas a esse programa radiofônico. Transcreve sessões. Reproduz o argumento de Desnos sobre a possibilidade de mistificação, de pessoas inventarem sonhos – tanto faz, dizia, pois “a imaginação é a mesma na vigília e durante o sono. Não se inventa seja o que for, e um sonho inventado libera os mesmos segredos, traz os mesmos presságios que um sonho autêntico”.

Em 1940, assumiu um “correio de sonhos” na revista feminina Pour elle, assinando como Hormidas Belloeil – nome, dizia, de um personagem que o visitava durante o sonho – Alexandrian transcreve trechos dessa sessão.

Durante a guerra, com a França ocupada, passou a militar na Resistência. Sua tarefa: preparar documentos falsos de identidade para outros militantes clandestinos. Ainda teve tempo de criar um jornal satírico, La voix des Taons (a voz das mutucas) e de atuar para que Artaud fosse transferido de um hospício na França ocupada para outro, melhor, na República de Vichy.

Preso em abril de 1944 pela Gestapo, foi enviado a uma horrenda série de campos de concentração: Flossemburg, Buchenvald, Teresienstadt. Quando Teresienstadt foi tomado pelos aliados em 1945, acharam Desnos – tarde demais: com tifo, agonizante, não resistiu. Suas últimas palavras, ao ser reconhecido por um estudante tcheco no hospital: “Esta é minha manhã mais matinal”.

Havia conquistado a admiração dos demais prisioneiros ao jogar sua gamela de sopa na cara de um dos guardas do campo de concentração, suportando impassível os duros castigos a que o submeteram, relata Alexandrian.

Transcrevo da Wikipedia em inglês, que cita Susan Griffin, outro episódio (Alexandrian também o menciona, mas com menos detalhes):

“Um dia, Desnos e outros prisioneiros foram levados a um caminhão; sabiam que este os levaria à câmara de gás. Ninguém falava. Logo chegaram e os guardas ordenaram que saíssem do caminhão. Quando começaram a andar em direção à câmara de gás, Desnos repentinamente saltou para fora da fila e agarrou a mão da mulher a sua frente. Estava animado e começou a ler a palma da mão. A previsão era boa: uma vida longa, muitos netos, abundantes alegrias. Uma pessoa ao lado ofereceu sua palma a Desnos. Novamente, Desnos antecipou uma vida longa, cheia de felicidade e sucesso. Os demais prisioneiros animaram-se, estendendo as palmas de suas mãos para Desnos e, em cada caso, ele predisse vidas longas e felizes. Os guardas ficaram desorientados. Minutos antes, estavam em uma missão de rotina cujo desfecho parecia inevitável, mas agora hesitavam. Desnos foi tão eficiente em criar uma nova realidade que os guardas foram incapazes de prosseguir com as execuções. Mandaram que os prisioneiros voltassem ao caminhão e os levaram de volta a suas barracas. Desnos nunca foi executado. Através do poder da imaginação, salvou sua vida e aquelas dos outros.”

EM TEMPO (estou acrescentando no dia seguinte): a história das leituras de mão, e, principalmente, demover guardas nazistas, pode parecer não só improvável, mas fictícia.  Alexandrian é rigoroso, fonte muito confiável: em seu História da filosofia oculta, por exemplo, sustenta que Nicolas Flamel nunca foi alquimista (nisso contradizendo Breton), porém apenas um homem muito rico a quem foi atribuída a capacidade de fazer ouro, e que os escritos que lhe foram atribuídos são apócrifos; e que o tarô não é egípcio antigo, porém criação de Eteilla no sec. XVIII, embora derive de jogos de cartas criados na Renascença. Enfim, a informação é precisa nos livros dele que já li. A autora citada na Wikipédia, Susan Griffin, é uma jornalista e dramaturga, prêmio Pulitzer – existe. Chequei no Google, de fato ela relata esse espantoso episódio.

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9 responses to this post.

  1. Qdo jovem ouvi falar nele, por meio do meu então ‘ídolo’ Brenton. Que bom saber coisas sobre este poeta!

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  2. Os sonhos, criando, criando, alterando a vida! Salvando a vida, até.
    Claudio Willer, obrigada por mais este trecho lindo.

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  3. WILLER!

    E por que diabos você ainda não traduziu essa obra do Alexandrian!? Chego a me ofender com isso. Willer, professor do Delírio, faça-nos esse grande favor.

    Minhas considerações,

    Tiago Silva Barreto.

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  4. Mestre Willer, vale lembrar (guardadas as devidas proporções/especificidades) o livro “Book of Dreams”, do Kerouac. É uma “prova” da relação entre a Beat e o Surrealismo (sem falar no Lamantia, que assumidamente, pelo que li, foi muito influenciado abertamente pelo movimento francês). Parabéns pelos textos! Belíssimo trabalho! Grande abraço!

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  5. Posted by Benanse on 04/11/2014 at 19:09

    Que história! É normal os olhos se encherem d´água?

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  6. Saludos, Willer Trismegisto!
    Em andanças pela internet, me esbarro com este relado de André Verder (que não conheço — em uma rápida olhadela pelo google, não encontrei nada) onde é narrado o caso quiromante de Desnos. O link: http://inutilesmisterios.blogspot.com.br/2013/07/la-carta-de-robert-desnos-youki-del-15.html
    Abrazos!

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