Desnos encore

Henrik Aeshna da Tsunami books enviou um comentário tão substancioso referente à minha série sobre Robert Desnos que eu resolvi copiá-lo e transferi-lo para cá – em breve, voupostar também pequena série de homenagens a Alfred Jarry:

“desajustados iluminados que somos, sempre estaremos em boa companhia enquanto andarmos com as màs companhias, bebendo no gargalo da mesma garrafa genital transbordando de baco & nitroglicerina, seiva & saliva floral, tal qual um cocktail molotov pronto para ser arremessado contra as vidraças do Tédio liberando assim a sinfonia-vagido de suas camisas-de-força burguesas, pois é assim que brindamos, com tal gesto, logo que nos reconhecemos, como dois-três-quatro estranhos numa estaçao qualquer do infinito ordinàrio, yorubàs inconsequentes com sotaque cockney-tupinambà que nos tomam como reféns, pois eles carregam consigo ‘les clés des situations’, a maravilhosa conexao alquimica interligando todos os desejos à esfera do Impossivel, copulando poesia & vida, de maneira perigosa & totêmica, a chave daquele ‘amour fou’ do qual nenhum poeta saiu ileso, daquele sonho louco & febril que nao deverà jamais sair de seu elétrico esplendor ( como um lagarto em sua crisàlida onirica ) para tornar-se significado & explicaçao ou abominaçao partidària, pois ele jà é a propria Realidade, ou melhor, a sua apoteose…. sigamos esses ‘loucos’ por onde quer que eles nos levem, & que eles nos seqüestrem para sempre de todas as nossas moradas-catacumbas burguesas, pois au-délà de nossos futuros pré-fabricados, com sua propaganda sadomaso l’oreal dantesca, hà um santuàrio elétrico paralelo borbulhando de outros significados, onde adolescentes embriagados & lucidos se esfregam em cima dos tapetes de calendàrios mortos, cometendo todos os adultérios, pecados tao horriveis & inimaginàveis que acabam revelando-se virtudes, anjos-bomba em palàcios de cristal, onde um velho sàbio de olhar sereno atravessa o sonho assobiando the Song of the Open Road – seus olhos me traziam hortênsias de longinquos jardins – & velhas lavadeiras lamuriam à beira do rio, Seine-Mississippi-Guaiba-Nilo-Amazonas, uma ilha flutuante talvez, uma zona sim, clandestina sempre, oculta, plantada bem no meio daquilo que foi arbitrària & criminosamente instituido como Ordem, onde os unicos panfletos nao sao nada mais que folhas de outono espalhadas no Parque Monceau, ou os destroços do ultimo poema rasgado caindo no meio da avenida central como chuva de confetti….

*

C Willer, acabo de jorrar essas palavras como uma espécie de exorcismo apos a leitura da sua série dedicada a Robert Desnos – você sabe realmente fazer uma obra Vibrar, se iluminar – e com uma classe tremenda! O que mostra que todo o terreno està preparado & fértil para uma poderosa ediçao, que espero que vocês façam aparecer em breve, – esse é o momento! — A obra do Sarane Alexandrian com a qual você dialoga é também fascinante, mas claro, o mérito de revelar o brilho apaixonante da obra do Desnos é todo seu, como bem enfatizo mais acima; tenho até aqui um curioso ensaio da Anne-Marie Amiot, entitulado “Robert Desnos, poète de la tradition”, Mélusine ( cahiers du centre de recherche sur le surréalisme ), N° XVI – cultures – contre-cultures’, 1997, & escrito à luz dos arcanos maiores do tarot…. Interessante o fato de que a ultima vez que o Desnos desabou na minha vida foi durante o meu aniversàrio no Mediterrâneo, quando uma jovem cantora de opera que acabara de conhecer começou a recità-lo junto com outra amiga atriz & cantora enquanto rasgàvamos a terceira garrafa de vinho tinto & dançàvamos feito loucos na cozinha do apartamento…. ( obs pessoal: jamais conheci uma cantora de opera que nao fosse louca, muito menos um pianista de musica clàssica ou jazz que nao tenha colocado fogo na casa ao menos duas, três vezes na vida!! )

Vive les high-chats des chateaux….

Em breve, mais Willer & mais Piva em outras linguas, se bem que vcs deveriam soar melhor em Tupi ou nas linguas em brasa daqueles possessos que entoam furiosas glossolalias às três da manhâ em meio a uma cachoeira de pianos quebrados, uivos luxuriosos de lobos no cio & queixas de vizinhos incapazes de dormir!!!!

afeto

hnrk
paris paralèlle
year of the dragon

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5 responses to this post.

  1. Incrível: poesia que se faz a partir da vida que se refaz novamente em poesia… Ouroboros delirante!

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  2. De Desnos passando para Jarry, lembrei-me de algo engraçado, aih vai : a passagem referente à “sinfonia-vagido” no texto acima tem uma forte ligaçao ( também ) com a temporada que passei em Marseille, inclusive enquanto organizava as traduçoes dos poemas do Willer & do Piva; eu estava instalado no bairro antigo do Panier, com aquelas ruas, ruelas estreitas, com todas as janelas dos apartamentos de ambos os lados da rua quase perfurando-se umas às outras, ou seja, durante o dia escutava-se (quase) tudo vindo dos apartamentos vizinhos, todas as queixas do ser humano & do cotidiano, casais neurastênicos quase despedaçando-se com punhais, bêbados enchendo a cara escutando musica no volume màximo & cantarolando desafinados enquanto a amante/esposa reclamava em seu ouvido de mercador, valises sendo arremessadas para fora ( o lado bandido do amor ), seres abandonados salmodiando sozinhos durante uma semana, casais copulando, gente gargalhando, torneiras histéricas sangrando em vàrias linguas, gatos cujos donos haviam partido de férias & que miavam inconsolados por dias, crianças cacarejando correndo pintando o sete, martelos & furadeiras Bosch à mil por hora misturados com o Pavarotti ou o violino do vizinho, a velha que passava religiosamente todas as madrugadas falando com seu cao & desaparecendo nas brumas, traficantes & gangsters que paravam naquelas ruas para discutirem algum esquema em plena luz do dia, o carteiro o lixeiro o sapato a moto, enfim… . – às vezes era bem interessante aquela cacofonia bizarra, mas quase sempre era insuportàvel !!; entao, pra me vingar daquilo tudo, ou so’ para me dar ao luxo de sentir um prazer mais radical, um calor no sangue, como eu sabia que a rua era entupida de recém-nascidos, là para as três da manhâ, quando tudo era silêncio sepulcral, e eu também tomava tanto absinto nessa época que meu sangue jà era verde, entao o que eu fazia ? – colocava a « Sérénade Grotesque » do Ravel no volume màximo no intuito de acordar todos os bebês da rua & boom, era tiro & queda : depois de alguns minutos, baixava subitamente o volume da musica & ficava no canto da janela, escutando : todos começavam a berrar ao mesmo tempo, e aquilo era fantàstico, epifânico, sublime ! Escutar o coral estridente daqueles recém-nascidos explodindo em làgrimas era mais belo que as flores da primavera, os pingos de chuva & todas as serenatas…. Cheguei à conclusao de que essa é a melhor maneira de conhecer Ravel !

    – Ne vous inquiétez pas mes bébés, c’est comme ça la vie,
    car “au pays de Rrose Sélavy
    on aime les fous et les loups sans foi ni loi.”

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  3. Li, reli, voltei a ler a série sobre Desnos. Há anos que estou esperando a tradução do Eclair. Tentei comentar suas postagens da série, mas a wordpress retornava que havia problemas com minha senha… Vamos ver se agora consigo…

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