André Breton e Antonin Artaud

Havia dito que publicaria homenagens a Alfred Jarry neste blog, do mesmo teor daquela a Robert Desnos. Pretendo fazê-lo. E também sobre Henry Miller, um beat-surreal.

Contudo, enviei algo para os participantes desta minha mais recente oficina de surrealismo sobre Breton e Artaud; e achei que o conjunto merecia maior circulação.

Já havia anotado, no capítulo 5 de minha série, neste blog, sobre Robert Desnos, que um dos vícios de determinada crítica (em especial, brasileira) é examinar autores que romperam com Breton em contraposição ao surrealismo, deixando de lado relações de continuidade. Um dos exemplos (há muitos) é o livro de Silviano Santiago sobre a viagem de Artaud ao México, pretexto para um libelo contra o surrealismo. Se não me falha, no opúsculo de Teixeira Coelho sobre Artaud é adotada a mesma perspectiva.

No entanto, após insultarem-se pesadamente entre 1928 e 1930 – em Um cadavre, por Artaud, e no Segundo manifesto do Surrealismo de Breton, além de Breton e amigos tumultuarem a encenação de Strindberg por Artaud e esse ter chamado a polícia –, Artaud e Breton se reconciliaram em 1936. Corresponderam-se. Artaud se apresentou como surrealista e deu a palestra “Surrealismo e revolução” no México (traduzi e publiquei em Escritos de Antonin Artaud). Voltou a escrever cartas para André Breton a partir de 1936; inclusive uma da Irlanda, relatando os episódios que culminariam em seu internamento em hospícios, naquele ano. Tenho a impressão (observei isso em Escritos de Antonin Artaud) de que a violência do confronto entre eles foi proporcional à importância que tinham um para o outro. Mas a reconciliação não foi plena; Artaud achava que Breton estava sendo paternalista e condescendente com ele, e recusou-se, como é lembrado por Clayton Eshleman (em “Watchfiends & Rack Screams: Works from the final period”) a participar em uma exposição internacional do surrealismo.

  1. De Breton sobre Artaud, em Entrétiens, livro com suas entrevistas radiofônicas, de 1952:

“Havia passado muito pouco tempo desde que Artaud se juntou a nós, porém ninguém havia posto mais espontaneamente a serviço da causa surrealista todos os seus meios, que eram grandes. […] Muito atraente, como o era então, arrastava atrás de si, ao deslocar-se, uma paisagem de novela negra, toda ela atravessada por relâmpagos. Estava possuído por uma espécie de furor que não perdoava , por assim dizer, nenhuma das instituições humanas, mas que podia, em algumas ocasiões, desembocar em uma risada que destilava todo o desafio da juventude. Esse furor, mediante o surpreendente poder de contágio que possuía, influiu profundamente no caminho empreendido pelo surrealismo, nos impulsionou a correr verdadeiramente todos os riscos, a atacar pessoalmente, diretamente, tudo aquilo que não podíamos suportar. […] Um “escritório de investigações surrealistas” foi aberto no número 15 da rue de Grenelle, e seu objetivo inicial era recolher todas as comunicações possíveis, referent4es às formas que poderia adquirir a atividade inconsciente do espírito. […] Artaud, que assumiu sua direção sucedendo a Francis Gérard, se esforçou em convertê-lo em um centro de “readaptação” à vida. […] Nesse momento, se publicaram, sob o impulso de Artaud, textos coletivos de uma grande veemência. […] esses textos adquiriram bruscamente um ardor revolucionário. Tal é o caso da “Declaração do 27 de janeiro de 1925”, da que se intitula “Abram os cárceres, licenciem o exército”, das convocações “ao Papa” e “ao Dalai Lama”, das cartas aos reitores das universidades européias” e “às escolas budistas” e da carta “aos médicos diretores dos asilos mentais” que se pode ler na obra Documents surréalistes. […] Gostava desses textos, particularmente aqueles em que se vê mais claramente a influência de Artaud. Mais uma vez, estou valorizando em função de seu próprio destino, do grande sofrimento que motivava essa recusa quase absoluta, que também era a nossa, mas que ele era o mais apto e o mais ardente para formular.

(Breton também faz algumas ressalvas, e explica porque assumiu a direção daquele escritório de investigações surrealistas)

  1. De “Hommage à Antonin Artaud”, fala de Breton em uma sessão em favor de Artaud em 1946, quando foi libertado, solto do manicômio. Está publicada na coletânea La clé des champs. São trechos: selecionei o parágrafo final e a nota de rodapé, extensa, bem no estilo Breton, na qual são citadas cartas de Artaud. Os itálicos são de Breton e Artaud (exceto o parêntese que acrescentei). Normalmente, em traduções do francês, contorno o “vous” cerimonioso que eles usam – é anacrônico demais. Mas desta vez mantive, nas manifestações de Artaud – o “você” não caberia, e “o senhor” é comercial demais. Ele quis ser solene, acho.

[…]

“Não percamos de vista que sob outros céus que o céu da Europa a palavra incessantemente inspirada de Artaud teria sido recebida com uma extrema deferência; que ela teria sido de natureza a levar bem longe a coletividade (tenho em vista, particularmente, a acolhida e o destino privilegiado que reservaram a testemunhos extraordinários dessa têmpera as populações de índios). Tornei-me demasiado pouco adepto do velho racionalismo, que detestamos por consenso desde nossa juventude, para revogar o testemunho extraordinário sob pretexto de ter contra si o sendo comum. É assim que eu gostaria de tranqüilizar o próprio Antonin Artaud, quando o vejo incomodar-se por minhas lembranças, na década mais ou menos atroz que acabamos de viver, não corroborarem exatamente as suas (1). Sei que Antonin Artaud viu, no sentido em que Rimbaud e antes dele Novalis e Arnim falaram em ver; importa muito pouco, desde a publicação de Aurélia, que isso, que assim foi visto, não esteja de acordo com aquilo que é objetivamente visível. O drama é que a sociedade à qual nós nos honramos cada vez menos de pertencer persista em atribuir ao homem um crime inexpiável por haver passado para o outro lado do espelho. Em nome de tudo o que me diz, mais que nunca, ao coração, aclamo o retorno á liberdade de Antonin Artaud em um mundo onde a própria liberdade precisa ser refeita; para além de todas as denegações prosaicas, dou toda a minha fé a Antonin Artaud, homem de prodígios; saúdo em Antonin Artaud a negação perdidamente apaixonada, heróica, de tudo aquilo de que morremos por viver.

A nota de rodapé: (acrescentada em 1952)

  1. Ao sair do hospital de Rodez, Artaud continuava a representar-se de um modo muito exaltado os acontecimentos que, segundo ele, haviam-se desenrolado no Havre em outubro de 1937 e foram o prelúdio de sua internação. Estava persuadido de que eu havia, então, perdido minha vida ao querer lançar-me em seu socorro (o fato de ele me pedir por carta que marcássemos um encontro não mudava nada). Não mais o tendo revisto desde aquela época, escrevia-me a 31 de maio de 1946: “”Sois mesmo vós que vos fizestes matar (eu digo matar) sob as balas das metralhadoras da polícia diante do Hospital geral do Havre onde eu era mantido em camisa de força e com os pés amarrados à cama. Vós lá deixastes mais que vossa consciência, e conservastes vosso corpo, mas isso é bem justo, pois após a morte retorna-se mal”. Como, sentado no dia seguinte comigo no terraço de um café, ele quase me incitava a testemunhar publicamente para acabar com os protestos e objeções que esse relato inverossímil encontrara, fui obrigado – com todo o tato possível – a, por minha vez, invalidá-lo. Mal o fiz, e seus olhos se encheram de lágrimas. Enquanto permanecemos juntos naquele dia, ele não se demoveu da opinião de que eu lhe ocultava a verdade, quer fosse por ter os mesmos interesses que os outros, o que ele não podia admitir sem dilacerar-se, quer fosse, muito mais provavelmente, por me haverem, através de não sei que manobras, despojado de minhas verdadeiras memórias para colocar outras, falsas, em seu lugar. Contudo, em uma carta datada de 3 de maio, ele abandonará, ao menos parcialmente, sua posição: “Acredito, pois vós o dissestes, que, com efeito, em outubro de 1937 não estivestes no Havre, mas na galeria Gradiva em Paris. Afirmo que nunca delirei, nunca perdi o senso do real, e que minhas lembranças, ou o que delas resta após cinqüenta comas [dos eletrochoques] são reais. Escutei, durante três dias no Havre, as metralhadoras da polícia diante do Hospital Geral do Havre, escutei também o estrondo soar em todas as igrejas durante uma manhã. Nunca mais escutei algo semelhante desde então. Pode-se discutir por muito tempo, com efeito, sobre a interpretação desses fatos. Haviam-me dito, de diversos lados, que André Breton queria libertar-me a força. Vós me dizeis que não o fizestes: eu acredito”.

Há mais sobre Artaud-Breton em Escritos de Antonin Artaud.

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12 responses to this post.

  1. Salve Willer, nada mais interessantes que ler textos seus verdadeiros presentes.

    Abraços poéticos,

    Luiz D Salles

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  2. Posted by Joana Ruas on 04/02/2012 at 16:47

    Gostei deste texto.abraço

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  3. Grata, professor. um texto histórico que nos veem lágrimas, pela ignorância humana.

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  4. Posted by Mauro Martins on 15/11/2012 at 21:31

    Loucuta Total nas mentes humanas desta sociedade sem poder pararelo social com projeto.. do bem comun….

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  5. Posted by WASHINGTON SANTANA on 01/03/2013 at 23:22

    PÉROLAS WILLER PÉROLAS

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  6. […] 4. SURREALISMO E LOUCURA: A formação de ANDRÉ BRETON (1896-1966) em psiquiatria. No Manifesto do surrealismo, “o medo da loucura não nos impedirá de hastear a bandeira da imaginação”. Gênese do surrealismo em Gérard de Nerval. Alucinações, ataque aos psiquiatras e manicômios em Nadja. À notícia de que Nadja, em pleno delírio, havia sido internada, afirmou que, se fosse internado, mataria alguém, de preferência um de seus médicos, para que o deixassem em paz, confinado no isolamento. Simulação da loucura em Imaculée Conception de Breton e PAUL ÉLUARD. Elogio da loucura em La clé des champs, l’art des fous, sobre o movimento Art Brut, com JEAN DUBUFFET: o artista louco é uma reserva de saúde moral, por não criar pela aceitação da crítica e mercado. ANTONIN ARTAUD (1896-1948), sua ligação com surrealismo: a Carta aos médicos-chefes dos manicômios, de 1925, antecipando seus internamentos a partir de 1937. As Cartas de Rodez; “Loucura e magia negra” em Artaud o Momo; Van Gogh, o suicidado pela sociedade: “O que é um louco?” O reencontro de Breton e Artaud em 1946. O reencontro de Breton e Artaud, do qual tratei em meu blog: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/03/andre-breton-e-antonin-artaud/ […]

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