Henry Miller, beat-surreal

Beat-surreal: o termo foi utilizado por Roberto Piva para designar Paranóia. Mentes circunscritas acham surrealismo e geração beat incompatíveis. Discuti por isso com Vincent Bounoure, organizador de La civilization suréaliste, que não admitia os beats – isso foi em 1968: ao mesmo tempo, surrealistas inteligentes como Alain Jouffroy e Jean-Jacques Lebel divulgavam a beat na França.

As relações entre esses dois movimentos são complexas, pela pluralidade beat (como já comentei em Geração Beat). Ginsberg dá impressão de não ter ido com a cara de Breton – deixei escapar a oportunidade de perguntar-lhe. Philip Lamantia e Ted Joans foram beat-surreais; há surrealismo em Gregory Corso. Bob Kaufman pode ser considerado surrealista? Enfim, tema vai longe. Para mim, a beat realizou algumas premissas do surrealismo; beat e surrealismo, além de contarem com criadores extraordinários, foram os movimentos em que poesia e rebelião se uniram de modo mais efetivo, e com mais desdobramentos.

Quinta-feira passada, ao reler Henry Miller para minha comentá-lo em minha mini-oficina de criação poética e erotismo – escolhi trechos da trilogia Sexus, Nexus e Plexus – ficou-me evidente que ele foi o verdadeiro e primeiro beat-surreal. Um precursor, é claro: chegou antes.

As duas relações, com beats e surreais, são temas laterais. Importa que Miller foi um escritor magnífico. É um absurdo, conseqüência da conversão do mercado editorial em desfile mundano, coadjuvado pela omissão da crítica e pelo alheamento das universidades, estar fora de moda, não ser estudado, falar-se tão pouco dele, haver tão poucas edições brasileiras. O ritmo, a torrencial prosa poética, a conjunção de lirismo e cinismo, deboche e alta filosofia, o inconformismo e a crítica contundente à sociedade de massas, tudo isso me encanta cada vez mais, a cada releitura. Meu predileto é Primavera negra, extensa prosa poética de imagens surrealistas.

Dois tópicos sumários, incompletos: um para o Miller surreal, outro para o beat.

  1. O surreal.

Breton referiu-se a ele como “mon ami Henry Miller”. Onde? Desvantagens de ler muito: perdi de vista, não me lembro em qual de seus artigos isso consta. Breton, todos sabem, não distribuía amizades facilmente. Sarane Alexandrian, em História da literatura erótica, inclui o tópico “O caso Henry Miller” no capítulo “O erotismo surrealista”. Diz: “Henry Miller foi incontestavelmente um autor surrealista, porém independente; quando chegou a Paris em 1930 desistiu de entrar no grupo animado por André Breton em razão das preocupações marxistas, estranhas às suas idéias, que ali se exibiam”. Claro: como se vê pelo capítulo final de Plexus, Miller foi um spengleriano, e não um marxista. Quem participou, compareceu, foi Anaïs Nin, com quem teve caso (tema do filme Henry and June de Philip Kaufman com Fred Ward, Uma Thurman e Maria de Medeiros).

Alexandrian cita, da correspondência de Miller e Lawrence Durrell: “Nunca tento ser surrealista de início. Às vezes isso me acontece no começo, às vezes no fim. É sempre um esforço tendente a não deixar nada de lado, a dizer o que não pode ser dito ou não era dito nunca.” Declarou-se inspirado por Nadja, que seria um modelo de sua June. Em uma carta-manifesto de 1938: “É falso falar de Surrealismo. Isso não existe: há apenas surrealistas”. Miller jogou xadrez com Marcel Duchamp (deve ter perdido todas, Duchamp foi um mestre, criador de jogadas). Participou da Exposição Internacional do Surrealismo de 1947. Quis que Breton prefaciasse o catálogo de uma exposição de seus quadros – Breton refugou, pois achava-o melhor escritor que pintor (tinha razão).

Pesquisando, acho um artigo, The Unpublished Correspondence of Henry Miller & André Breton, the “Steady Rock”, 1947-50, de Karl Orend, em Nexus – The International Henry Miller Journal. Mas sem download. Pena, queria ler essa correspondência. Inclusive para esclarecer como podiam se apreciar desse modo personagens tão opostos na moral sexual. Breton era pelo amor único, absoluto. Em Arcano 17, formulou uma ética: “Optei, quanto ao amor, pela forma passional e exclusiva, com tendência a proibir ao lado dela tudo o que pode ser atribuído à acomodação, ao capricho e ao desvio”; fala em defendê-la “de seus choques com a dos céticos ou ainda dos libertinos mais ou menos declarados”. Em Miller, o frenesi do deboche, a poetização da licenciosidade, todas as gradações do cinismo (com especial predileção por avançar sobre mulheres de amigos). O relacionamento de ambos mostra algo que já observei como qualidade de Breton: ser contraditório, paradoxal. O valor, a qualidade, tinham precedência.

  1. O beat.

Nascido em 1891, Miller foi um óbvio antecessor, na escrita e na vida. Após reler bastante Kerouac, como encontro prosa milleriana em seus extensos parágrafos e, especialmente, na escrita polifônica – ou vice-versa, enxergo Kerouac ao reler Miller. Ele apreciava Kerouac, prefaciou Os subterrâneos, encantou-se com The Dharma Bums (Os vagabundos iluminados), escrevendo uma carta entusiástica. Estiveram juntos em cenas relatadas em Big Sur de Kerouac.

Tanto Kerouac (e Burroughs) quanto Miller foram spenglerianos. Em meu Geração Beat e místicas da transgressão (inédito, em acabamento), observo desleitura de Spengler por Kerouac; adaptou de modo pessoal categorias como “segunda religião” e “fellaheen”. Miller, não – como se vê pelo final de Plexus, entendeu muito bem A decadência do Ocidente, inclusive categorias difíceis como “pseudomorfose”. Em ambos, Spengler fundamentou o individualismo, o desprezo pela massificação.

Em comum a Kerouac e Miller, também, a paixão por Dostoievski – e outros traços e fontes. Miller aparece indiretamente em Viajante solitário de Kerouac. Transcrevo, também deste meu próximo Geração Beat e místicas da transgressão (o artigo unindo-os a que Jack se refere é de Kenneth Rexroth, publicado em The Nation):

“O personagem perfeito de Kerouac seria, portanto, alguém que fosse ao mesmo tempo negro, louco, emigrante apátrida, marginal e delinqüente: inteiramente à margem. É o conjunto de qualidades representadas por seu companheiro na balsa de Dover a Calais, como relatado em Viajante solitário. Ao descer do “barco do canal completamente apinhado, centenas de estudantes e dezenas de belas garotas inglesas e francesas com rabos-de-cavalo e cabelo curto”, vai parar, na alfândega,

“[…] ao lado de um negro das Índias Ocidentais que simplesmente nem tinha passaporte e carregava uma pilha de casacos e calças estranhos e velhos – ele respondeu estranhamente às perguntas dos funcionários, parecia extremamente vago e de fato me lembro de ele ter esbarrado distraidamente comigo no barco durante a viagem. – Dois policiais ingleses altos e vestidos de azul estavam observando ele (e a mim) desconfiadamente, com aqueles sorrisos sinistros de Scotland Yard e aquela estranha desatenção mal-humorada e de nariz empinado típica dos velhos filmes de Sherlock Holmes. – O negro olhou para eles aterrorizado. Um de seus casacos caiu no chão, mas ele nem se incomodou em apanhá-lo. – Um brilho insano surgiu nos olhos do funcionário da imigração (um jovem almofadinha intelectual) e depois outro brilho insano nos olhos de um dos detetives, e de repente me dei conta de que o negro e eu estávamos cercados.

Kerouac tem que explicar-se, justificar a tentativa de entrar na Inglaterra com quinze xelins no bolso e uma aparência que o identificava ao antilhano. Alega que iria receber um cheque de seu editor (o adiantamento pela edição britânica de On the Road): “Não acreditaram na minha história – eu não estava barbeado, tinha uma mochila nas costas, parecia um vagabundo andarilho.” Como se não bastasse,

“– Àquela altura, o negro tinha sido levado para uma sala dos fundos – de repente, ouvi um gemido terrível como o de um psicopata em um hospício, e perguntei: “O que é isso?”.

“É o seu amigo negro.”

“O que há com ele?”

“Ele não tem passaporte, nem dinheiro, e aparentemente escapou de uma instituição para doentes mentais na França. […]

O trecho merece transcrição por mostrar o humor de Kerouac, inclusive em seu epílogo. O editor inglês não é localizado, pois era sábado. Obrigam-no a provar que é escritor:

“[…] Revirei minha mochila e de repente encontrei um artigo em uma revista sobre Henry Miller e eu e o exibi para o cara da alfândega. Ele sorriu:

“Henry Miller? Isso é ainda mais notável. Ele foi detido por nós há alguns anos, escreveu um monte de coisas sobre New Haven.”

Anúncios

9 responses to this post.

  1. ( revi algumas passagens deste comentàrio & decidi postà-lo )

    Genial artigo sobre o Miller! Estou de acordo com suas colocaçoes precisas & como vc transfere detalhes mesmo “ordinàrios”, secretos, para uma leitura mais aprofundada das questoes que levantas.
    Todos os artigos que envio em email, nao sei se vc jà os leu, vao dialogar aih com tudo o que vc tem dito. – Bravo.

    Todos sabemos que os EUA & a França, além de pàtrias irmãs, foram as duas cenas culturais predominantes dos ultimos séculos – a interconexao & influência que ambas exerceram uma sobre a outra sao Fato, antes & depois das guerras, – às vezes até acho que a França tem mais de USA hj em dia do que de França ( aquele appeal da América novo continente e depois do jazz, do rock, etc )!!!!, tudo se mistura, tudo é diàlogo–
    e bem mais tarde, é bem obvio que, durante aqueles tempos loucos da guerra, que os artistas revoltados se identificassem com coisas como surrealismo, que dava-lhes terreno & substância. Acho até mesmo, sem querer afirmar, é claro, que o expatriado & fodido Miller so conseguiu achar o rumo & o fluxo de sua literatura pessoal ( veja sua escrita antes & depois do Tropico ) depois do contato com aquele ambiente surrealista que o cercava, mesmo que ele nao quisesse virar “partidàrio”, mesmo que ele tenha feito seu caminho & tivesse suas proprias percepçoes ( ele nao tinha 20 e poucos anos também, embora fosse um menino!), como vc bem coloca, mas querendo ou nao, a loucura estava no ar, e mesmo num café qualquer conversa jà era um delirio na Paris dos anos loucos & com pressàgio de apocalipse, e o Surrealismo, mesmo que infame & blasfemo, estava em tudo, no gosto da juventude ( ao menos tinha aquele ‘wild appeal’ ), enquanto Miller ainda perambulava de bar em bar, de abrigo em abrigo & de cama em cama em busca de experiências & de reconhecimento, compensaçao para seu gênio massacrado pelas adversidades ….
    Outra coisa é q o Miller era um espirito de outros continentes, em fase de recriaçao poètico-existencial, jogado pelo destino de um barco no Atlântico para o “berço de nascimentos artificiais” que era Paris – ele odiava sua propria pàtria, os EUA, & ao mesmo tempo nao conseguia encaixar-se, nem adotar completamente, o estilo meio burguês-blasé dos europeus, mesmo os mais loucos!! Em Paris, sentia-se pela primeira vez na vida um homem Livre, para criar, para ser, para reinventar-se. Ele revela muito do espirito livre (& do homem em geral) naquela época, e suas obras jamais envelhecerao.

    Ah, vc se lembra de Maurice Girordias, da Olympia Press, que editava & publicava clandestinamente livros banidos ? E o Beat Hotel conectando US & França, e mesmo a storia da Shakespeare and Company, cujo proprietàrio George Whitman faleceu dezembro passado, levando para o tumulo o espirito original & a dinâmica dessa livraria, se bem que ele jà estava afastado hà anos, fora do controle da loja – insubstituivel…. e hà tantos outos indicios & co-relaçoes, como alguém poderia negà-las?

    Grande artigo!

    Responder

  2. O Beat Hotel em Paris parece ser é o ponto, no tempo & no espaço, em que os Beats, que jà “fantasiavam” com aqueles misteriosos dada-surrealistas de quem ouviam falar em livros & em parcos relatos, finalmente encontram-se com o Surrealismo, ao qual sao inclusive apresentados pessoalmente, por Lebel & outros, & depois disso, tornaram-se inseparàveis.

    e salve Bob Kaufman ( tenho uma amiga nos EUA que hà pouco tempo lançou um livro sobre o Kaufman, no qual nao poderia faltar…. Aimé Césaire ( surrealismo)!!!

    “Henry Miller? Isso é ainda mais notável. Ele foi detido por nós há alguns anos, escreveu um monte de coisas sobre New Haven.” ( !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! )

    Responder

  3. Isso.
    Saiu livro específico sobre ‘Beat Hotel’, ainda não li, vou comprar – o que sei é das biografias que li de Ginsberg e Burroughs

    Responder

  4. Posted by roberto bicelli on 06/02/2012 at 17:36

    no olho da mosca tuas observações sobre miller/beat- surreal. o piva sempre falava de “big sur e as laranjas de hieronymus bosch”, que só li recentemente e que é um deslumbramento: miller completamente zen/beat/surreal…
    descobri miller pra valer em 64 e concordo com vc, willer, sobre a imensa importância de sua vida e obra. na verdade estão vivos miller, piva, kerouac,rimbaud, splenger e mais dezenas de deuses lares dessa família que acredita na vontade de potência.

    Responder

  5. a parte que mais gostei do seu artigo foi quando mencionou Anais Nin. acho que ficou devendo. deveria dedicar um artigo especial para ela. Foi uma mulher muito a frente de seu tempo. sou apaixonada por sua história e literatura. sempre um belo e poético testemunho de sua vida louca vida.

    Beijos!!

    Lu

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: