André Breton, Pierre Mabille, Haiti, Vodu

Havia encaminhado ao pessoal do Teatro do Incêndio e do meu curso de surrealismo este trecho, a seguir, do prefácio de André Breton para Le Miroir du Merveilleux de Pierre Mabille. Resolvi blogar.

Mabille foi tipicamente holista (da espécie mais consistente): médico, antropólogo, psicólogo, ocultista, historiador.

O livro de Mabille, coletânea de relatos tribais, livros sagrados de diversos povos, lendas de várias épocas, trechos de literatura desde os clássicos aos contemporâneos, mostra a transversalidade e trans-historicidade do maravilhoso. Abre com uma leitura brilhante de Alice no país dos espelhos de Lewis Carroll, precedida por observações estimulantes: “O conhecimento do próprio signo leva ao conhecimento da coisa” … “A ciência da linguagem resume todas as outras ciências” … “Nas iniciações antigas, o primeiro e o mais longo trabalho consiste em aprender a ler”. O entusiasmo de Mabille por Carroll é, além da importância de Alice, por ambos serem simultaneamente estudiosos das ciências exatas e do ocultismo; cientistas e visionários: holistas. A precedência da linguagem, ou do signo, o aproxima, declaradamente, dos realistas medievais – e é bem distinta daquela que lhe é conferida pelos modernos semióticos, que são positivistas.

A estada de Breton no Haiti em 1945, convidado por Mabille, que era adido cultural francês, teria provocado, por suas declarações e palestras, uma insurreição revolucionária. O episódio é relatado em algumas páginas da biografia por Henri Béhar, André Breton: Le grand indésirable (o grande indesejável). De Mabille acaba de sair no Brasil Os deuses falam pelos Govis, apresentação e tradução de Marcus Salgado, edições Lop-lop (lembrando: Lop-lop é uma criatura concebida por Max Ernst)

As notas de rodapé são minhas.

 

BRETON:

Pierre Mabille me guia rumo a um desses houmphors ou templos vodu onde logo a seguir, mais ou menos clandestinamente, irá se desenrolar-se uma cerimônia – e isso, durante minha estada na ilha, vai reproduzir-se por oito dias. Tamanha é a complexidade do ritual vodu que só se poderia fazer uma idéia derrisória a não ser que se recorresse às obras especializadas, e emprestar-lhe aqui alguma cor seria, a meu ver, profaná-lo. Bem outro, aliás, é meu propósito: mostrar que poder assistir a cerimônias autênticas (das quais, em geral, os brancos são excluídos) ainda o é pela partilha que a amizade de Pierre Mabille pretende me fazer de tudo aquilo que o solicita e que espontaneamente o leva a me tornar beneficiário de todo privilégio que detenha. Ora, é com grande consideração que ele sempre é acolhido lá pelo hougan ou pela mambo que vai presidir ao cumprimento do rito e que previamente o conduz ao – ou seja, à pedra do altar – diante do qual ele esboçará com os dedos os gestos consagrados. O patético (1) das cerimônias vodu me assaltou muito duradouramente para que dos persistentes vapores de sangue e de rum eu possa pretender separar o espírito gerador e medir o real alcance. Não me foi dado senão impregnar-me de seu clima, tornar-me permeável à enchente de forças primitivas que eles põem em ação. Se com freqüência conversei a respeito com Pierre Mabille, de quem não duvidava que a esse respeito soubesse muito mais que eu, foi quase sempre pelo viés, na ocorrência das “possessões” das quais conhecíamos, um e outro (pela Salpêtrière) (2), os antecedentes clínicos. Dado o sincretismo culminante no culto vodu, nós nos interrogamos prolongadamente, em particular, sobre o “estilo” dessas possessões, duvidando que elas fossem de importação exclusivamente africana. Nós nos inclinávamos, ambos, a descobrir traços do mesmerismo, o que tornava plausível – e tão apaixonante – o fato que em 1772 desembarca em Santo Domingo, acompanhado por um Negro dotado de “poderes psíquicos”, uma personalidade em minha opinião das mais enigmáticas e cativantes: Martinez de Pasqually (3). Esse doará à ilha um “Tribunal soberano”, fundará uma loja (4) em Port-au-Prince, outra em Léogane, e terminará efetivamente seu Estatuto da Ordem dos Eleitos Cohens, antes de morrer em 1774. Não nos desesperávamos de uma recuperação de informações orais que in loco nos pudessem fazer reencontrar o lugar de sua sepultura, que permaneceu desconhecido, e, quem sabe, erguer o véu fosforescente que a recobre.

Notas:

[1] No caso, de pathos, emoção intensa.

[1] Hospício parisiense.

[1] Ocultista de enorme influência do sec. XVIII, criador da ordem dos ‘eleitos Cohens’ e do martinismo, que impressionou a poetas românticos.

[1] Loja no sentido de loja maçônica, entenda-se, e não de comércio.

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4 responses to this post.

  1. fascinante!

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  2. Posted by Jarbas S. Galhardo on 21/09/2012 at 00:58

    Relação contextual improvável:

    Responder

  3. […] sobre os que tocaram um plano muito profundo ou elevado. André Breton, Pierre Mabille e vodu, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/09/andre-breton-pierre-mabille-haiti-vodu/ E as homenagens ao sublime Robert Desnos, série que começa em […]

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