As palavras proibidas

Decidi retomar em meu blog o devido tratamento dessa espantosa censura a dicionários, tal como noticiada em:

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1227792&tit=MPF-quer-tirar-de-circulacao-o-dicionario-Houaiss

Fico sabendo que todas as editoras patrulhadas estão cedendo á pressão, suprimindo trechos dos dicionários:

http://www.publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=67279

Isso só tem um nome: expurgo. Abre um precedente perigoso. Autores dos verbetes deviam reclamar: direitos morais, á integridade do que fizeram, continuam valendo. Onde estão as entidades científicas, de estudiosos da linguagem, diante de uma aberração dessas?

Não uso o verbo ‘denegrir’. Prefiro ‘maltratar’ a ‘judiar’. Denegrir e judiar são expressões racistas. Aliás, como assim, ‘racistas’? Preconceituosas, ofensivas, discriminatórias – racistas, não, posto que, comprovadamente, não existe ‘raça’, entre os humanos – só povos, etnias, comunidades.

Atenção, policiais do vocabulário: pra fora do dicionário, todas essas expressões incorretas – e muitas outras.

A redução ao absurdo é para mostrar aonde pode levar o precedente.

Um certo Roland Barthes, se ainda vivo, observaria que toda linguagem é assim: discrimina, hierarquiza, ao tentar ordenar um fluxo caótico. Outros diriam que a intervenção nos verbetes confunde a parte (o signo) e o todo (o significado, o ‘real’). Ou que essas intervenções são restritas à superestrutura.

Protagonistas da polêmica medieval dos realistas vs. nominalistas tinham mais nível do que essa gente que se empenha em alterar dicionários.

Poetas, criadores literários, ampliam o uso das palavras. Burocratas, censores, tentam reduzi-lo. O resultado de seu empenho seria, se bem sucedido (jamais será) distópico: um mundo como aquele do 1984 de Orwell.

É preciso reagir. Frear mais esse avanço do absurdo.

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12 responses to this post.

  1. Posted by Roberio Jorge on 28/02/2012 at 17:28

    Concordo com você, Claudio Willer. É preciso muito cuidado nessa questão. Talvez mais nefasta que a ação do MPF seja a redação do jornalista que escreveu a matéria: ele fala em “racismo contra os ciganos”, o que é simplesmente absurdo. A segunda matéria é melhorzinha, pois fala em “preconceito”.

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  2. “Poetas, criadores literários, ampliam o uso das palavras. Burocratas, censores, tentam reduzi-lo.”

    Willer, dicionàrios sao, acima de tudo, aparelhos registradores, e se, ao longo dos tempos, as palavras mudam ou sofrem corrupçoes etc, a “culpa” é da sociedade, do povo, do polvo, da lula & dos demais orgaos de repressao. Simplesmente, o que estao fazendo é abafar a verdadeira violência contra X ou Y minoria ou seja là contra o que/quem for. Outra, basta dar uma espiada nos comentàrios publicos em posts da CNN, por exemplo, pra ver que toda a enxurrada de preconceitos & termos pejorativos que o publico cospe à torto & à direito certamente nao sao aprendidos nos dicionàrios, mas bem além! O ignorante mais desprezivel é aquele que é convicto de sua propria ignorância; tao burro que chega a ser moralista cego… – O que estao fazendo é trocando as bolas do real problema, saindo da discussao…

    Proposta: instituir um novo dicionàrio-véu oficial onde os significados de cada palavra sao ocultos sob lindas tarjas pretas, ou o nome da instituiçao/marca que bancar o projeto. A lobotomia nao é cigana, mas certamente Loira, – sem querer ofender!!!

    Viva o Adultério!

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  3. Willer:
    que está acontecendo?

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  4. Posted by alegorista on 29/02/2012 at 12:22

    A ditadura do politicamente-corretismo ganha forças com vilões como esse procurador. Mas que digo? Tirem do dicionário esse significado de “vilão”, em nome de todos os habitantes de vilas!
    Não me incomodaria em judiar dessa gente falsamente politizada (porque o sentido forte de politizado, no meu dicionário, é positivo), nem de dizer que ele especificamente denigre o trabalho dos dicionaristas.
    O dicionário registra a convenção. Quem faz a convenção somos nós, cotidianamente, é verdade, mas é muita hipocrisia apagar a história no livro.
    Nessa conversa idiota (claro, no sentido de discussão do idioma português), concordo com Willer: é preciso reagir.

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  5. Deixemos entao a Igreja, a Procuradoria, os sheikhs do Totalitarismo (seja de direita, de esquerda ou o milk-sheikh neo-pseudo-ecolo-machista-feminista-naziblackhindu-fashion-gueto-monarquistapé-rapado-crentepedofilohipocrita) comandarem a Cultura… – vai ser demais!

    Por mim, em um nivel subjetivo radical & poético, abominaria todas as biblias & dicionàrios – na verdade, jogaria àgua sanitària em todo esse Blablaismo estéril, transformando-o em Page Blanche & Estrada, The Open Road….; no entanto, sei que a atitude pseudo-moralista de certos mafiosos do establishment é so a pontinha do iceberg, ou seja, so uma pequena amostra do que eles poderao fazer caso tomem o poder — Posso falar um pouco de como esse tipo de conflito é dificil nos EUA, onde a democracia é tao burocraticamente inquisitorial & hardcore que para defendermos o direito de liberdade de expressao é necessario falarmos em jargao apropriado, quase num xadrez com o Mastermind, quando na verdade desejariamos era mandar tudo à merda & alucinar em poesia anti-racionalista, mas nesse caso nao funciona, pois ELES nao aceitam o que nao pertence ao discurso & retorica por eles mesmos instituidos para pilarizarem suas leis: Eles sempre jogam o Poeta-libertàrio contra si mesmo; sao tao xaropes que nao aceitam provocaçoes, e sempre levam tudo no primeiro grau. Haja paciência para lidar com esses neuroticos de cabeça dura…

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  6. estamos diante de um estado policial e facista!
    a propósito, nessa “notícia” não temos uma segunda fonte, um outro lado, uma opinião que nos possibilite o exercício crítico.

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  7. É o coração que deve se purificar, não os dicionários!

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