Beat e surrealismo, encontros e desencontros

Dois livros deliciosos sobre a Geração Beat. Um, o recente Negócios de Família (editora Peixoto Neto, 2011): a correspondência de Allen e Louis Ginsberg, o filho e o pai, ambos poetas. Achei lindo. Falarei a respeito em minha apresentação na livraria da Travessa – Leblon, no Rio, dia 9 de abril.

O outro, The Beat Hotel de Barry Miles (Grove Press, 2000), sobre as estadas de Ginsberg, Peter Orlovsky, Gregory Corso, William Burroughs, Brion Gysin e mais alguns em Paris, no hotel-pardieiro-muquifo da Rue Gît-le-Coeur. Substancioso. Traduzo um trecho engraçado, sobre encontros e desencontros de beats e surrealistas.

Relações de beat e surrealismo são múltiplas e complexas. Podem dar ensaio. Quando estive em Paris em 1968, compareci a uma reunião dos surrealistas. Acho que conheci o surrealista errado, Vincent Bounoure – discussão forte sobre geração beat, não aceitava. Deveriam ter-me apresentado Jean-Jacques Lebel, que fazia parte na época – e foi um interlocutor, cicerone e tradutor dos beats (tenho a antologia dos beats que ele e Alain Jouffroy prepararam).

Orlovsky já havia retornado. O trio beat era composto naquele momento, em 1958, por Ginsberg, Corso e Burroughs. Aí vai o relato de Miles (toda vez que o releio dou risada, lembro-me de festas parecidas):

 

“A 14 de junho, eles encontraram o poeta dadá Tristan Tzara no Deux Magots. Allen sempre havia achado que seus Manifestos Dadá eram boa poesia, e apreciava particularmente a linha “Dada é um micróbio virgem”. Tzara os convidou a seu apartamento, onde mostrou a Allen e Gregory uma longa e vituperativa carta de denúncia para ele, de Antonin Artaud, acusando-o de ser um zelador de museu e arquivista e não um verdadeiro poeta dadá. A carta estava marcada com cuspe e queimaduras de cigarro, manchada com algum sangue e esperma de Artaud e havia sido enviada do asilo de Rodez, onde Artaud estava internado.

No dia seguinte, haviam sido convidados por Jean-Jacques Lebel para comparecer a uma festa surrealista em casa de seu pai na Avenue Président Wilson, perto do Trocadero. Seu pai, Robert Lebel, trabalhava então em Sur Marcel Duchamp, que estava para ser publicado no ano seguinte em Paris pela Trianon Press, e foi um amigo próximo de Duchamp e de todos os surrealistas. Jean-Jacques lembra-se vivamente da ocasião:

Duchamp veio a Paris e meu pai disse, “Vamos dar uma festa para ele, estilo americano, convide alguns amigos”. Assim, convidamos Duchamp, Man Ray e suas mulheres, todos os dadaístas sobreviventes, Max Ernst e sua mulher, Breton e sua mulher, Bejamin Péret, o grande Péret. Todas aquelas pessoas que ainda estavam fantasticamente vivas. Então meu pai disse: “É claro que você virá?” Eu disse, “Ouça, eu queria trazer alguns amigos americanos.” Então meu pai disse: “Quem são eles?” Nunca tinha ouvido falar, é claro. “Bem, eles são grandes poetas, escritores e poetas muito grandes.” E minha mãe disse: “Não é aquele maluco que vomita em todo lugar?” Ela havia vindo a minha casa uma vez, para visitar-me como as mães costumam fazer, e lá estava Gregory vomitando em todo lugar. Eu disse: “Não, não, não! Claro que não!” Quando você é garoto, não conta seus segredos aos pais. É claro que era Gregory. William e Gregory e Allen. Então eu disse a minha mãe, que era uma senhora muito burguesa: “Escute. Você convida seus amigos e eu convido os meus e tenho certeza que se darão bem.” Porque eu ansiava pela ocasião de juntá-los, porque minha obsessão, toda a minha vida, havia sido juntar pessoas que amo. Juntar essas pessoas que não se conheciam e criar uma espécie de mistura híbrida é criar novas culturas, é realmente fazer um evento-dinamite. Assim, eu soube que seria importante juntar essas duas gerações.

Allen era o único que estava realmente interessado, pois ele estava lendo The Dada Poets and Painters [Os poetas e pintores dadá] de Robert Motherwell. Estava com o livro em seu quarto. Então, eu disse a Allen: “E aí, você gostaria de encontrar alguns dos caras? Você gosta desse cara, Péret?” Ele disse: “Péret é um grade poeta, eu só li um poema dele em um pequeno magazine literário, mas ele é grande”. “Que tal Man Ray?” “Man Ray? Meu sonho é me encontrar com Man Ray.” “Que tal Duchamp?” Ele disse: “Duchamp? Duchamp? Tentei encontrá-lo em Nova York mas não consegui”. Então eu disse: “Vou mostrar o quanto te amo, cara, eu o estou convidando semana que vem em casa dos meus pais”. Então ele pôs uma gravata e uma camisa branca. Pôs sua roupa lavada. Disse a Gregory: “Ouça, cara, pelo menos tente, penteie seu cabelo e não beba”, é claro que se você dizia a Gregory para não beber, ele bebia cinco vezes mais. Fui com eles porque tínhamos que cruzar Paris e tomamos dois táxis. E a primeira coisa que o porra do Gregory fez foi vomitar na escadaria. Eu disse: “Uma das noites históricas da minha vida e eu vou me lembrar dela por Gregory vomitando, ó Cristo!” Então eu tive que lavar o vômito nas escadas porque não queria que a concièrge o fizesse – assim, problemas estúpidos como esse.

Entramos, umas cinquenta pessoas estavam lá, todo mundo em pé. Comecei a apresentar as pessoas, e Duchamp, Péret e Man Ray estavam lá. A mulher de Breton estava lá, mas Breton não veio aquela noite porque estava com gripe e de cama. André Pieyre de Mandiargues, o grande escritor, estava lá, e uns pintores fantásticos como Jean-Paul Riopelle estavam lá. Amigos, amigos. E eu fiz as apresentações e, evidentemente, ninguém tinha ouvido falar em Allen Ginsberg ou Gregory Corso ou William Burroughs porque seus livros ainda não haviam sido traduzidos, ainda não haviam sido publicados. Então, foi assim: “Como vai você?” Mas não foi “Muito prazer em conhecê-lo”, porque ainda não sabiam quem eram. Então, o que fizeram foi tomar um porre. E ao final, quando as pessoas começaram a ir embora, eu os vejo indo na direção de Duchamp. Gregory de mãos dadas com Allen. Duchamp estava sentado em uma cadeira, falando com as pessoas. A primeira coisa que o maldito Allen fez foi ajoelhar-se e começar a beijar os joelhos de Duchamp. Achando que fazia algo surrealista. E Duchamp ficou tão embaraçado. Tão embaraçado! Allen estava completamente bêbado, e ele nunca ficava completamente bêbado. Havia feito uma mistura de uísque e vinho tinto. Estava tentando fazer algo que achava ser dadaísta. Porém a cosia mais embaraçosa ainda estava por vir. Gregory havia achado na cozinha uma tesoura, e cortou a gravata de Duchamp. Uma coisa tão besta, infantil. Conhecendo Gregory e Allen, é amoroso, é tentar ser humilde, é tentar dizer “Nós somos crianças, nós somos loucos, nós o admiramos.” Foi uma coisa amorosa.

Meu pai veio e disse: “Ah, seus amigos, hein? Onde você catou esses clochards?” Ele não chegou a dizer isso, mas seus olhos diziam. Eu estava chateado. Lá estavam gênios dos dois lados, sabe? Foi bobagem ficar chateado, porque na verdade Duchamp amou os caras e Man Ray amou os caras. Toda vez que os via, me diziam: “Onde estão seus beatniks americanos? Amo esses beatniks. Eles são completamente bêbados, mas são infantis, são maravilhosos, tenho certeza de que são grandes poetas.” De fato, Duchamp falava um inglês excelente, mas eles estavam bêbados demais para falar. Como você pode falar com um bêbado que está caindo pelo chão?

Allen contou a Peter como beijou Duchamp e o havia feito beijar Bill; como ele e Gregory se jogaram no chão e pediram a benção, assim como já haviam feito com Auden, puxando a barra de suas calças, ao que Duchamp objetou que era apenas humano; e como, quando Duchamp tentou ir embora, foram atrás engatinhando entre as pernas dos convidados bem-vestidos. Não mencionou que Gregory havia cortado a gravata de Duchamp. Tiveram sorte de Breton, tão formal, não estar presente.

Jean-Jacques prosseguiu: “Dois dias depois, Allen disse, ‘Acho que ferramos tudo’, e eu disse, ‘Esqueça, não faz mal.’ Eu disse, ‘Quero que você encontre Breton, então dei-lhe o endereço de Breton e Allen lhe escreveu, dizendo que gostaria de visitá-lo. Ajudei-o a traduzir a carta para o francês. Breton sabia dele através de mim, então escreveu uma resposta a Allen em um cartão postal. Breton tinha uma letra manuscrita extremamente refinada, clássica, em um francês literário, e respondeu a Allen dizendo: ‘Obrigado por sua nota, J-J. me contou sobre você, por favor venha em tal dia e tal hora, aqui está meu endereço.’ Mas Allen não conseguiu ler a letra manuscrita. E eu havia viajado para a Itália, e ele nunca foi. E assim encontrei Breton quando voltei, e ele disse, ‘Bem, seu amigo americano, ele não é muito educado.’ Eu disse, ‘O que você quer dizer?’ Ele respondeu, ‘Bem, eu lhe mandei um convite e ele nunca me respondeu e nunca veio.’ Fui falar com Allen, disse: ‘Ele lhe mandou um convite, por que você não foi?’ Ele disse, ‘Recebi uma coisa esquisita, você pode me traduzir?’ E assim ele perdeu a ocasião. Fiquei tão mal, pois queria que aquelas duas grandes mentes se encontrassem.”

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12 responses to this post.

  1. Muito bom! Mais!

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  2. […] Compondo essa programação, apresento-me dia 9 de abril; tratarei da poesia e da atualidade do pensamento político de Ginsberg, prosseguindo o que publiquei em https://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-wall-street/ . Farei comparações de Negócios de família com outro belo livro sobre a Geração Beat: Beat Hotel de Barry Miles, que já comentei em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/17/beat-e-surrealismo-encontros-e-desencontros/ […]

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  3. Posted by rua1 on 28/03/2012 at 23:54

    Fantástico encontro. Obrigado por traduzir um pouco pra nós, fiquei com um gostinho de quero mais.

    Grande abraço.

    Responder

  4. Grande encontro! Obrigado por traduzir, deu vontade de ler mais.

    Grande abraço.

    Responder

  5. Posted by henrique costa costa on 29/03/2012 at 20:14

    muito bom Willer …obrigado por fazer da arte literaria a nossa arma poetica …sempre com boas dicas

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  6. Posted by Malu on 29/03/2012 at 20:47

    Adorei!
    Malu

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  7. Posted by Teresa Cristina do nascimento Bendini on 31/03/2012 at 16:44

    Olá Professor! Vou comprar o livro. Não sei nada sobre Literatura Beat. Estou entrando em contato agora. Acabei de ler seu livro “Geração Beat”. Interessante! Parece que essa Literatura deseja resgatar dentro de nós, um tempo primordial, primórdios em que a linguagem inexistia. O que levava aqueles povos sem escrita a dançar, emitir sons melodiosos, pintar, também os iniciava em poesia. Talvez a poesia Beat seja a voz, a linguagem daqueles sentimentos e sensações.Temos dentro de nós aquelas lembranças. Parece que eu consigo recuperá-las quando tento entender aquele momento. Grande abraço

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  8. Posted by Teresa Cristina do nascimento Bendini on 01/04/2012 at 12:28

    Obrigada professor
    Se me permitir algumas divagações ou devaneios….
    Ocorreu-me agora que essa poesia “petrificada”, esquecida ou perdida também esteja contida numa “Gnose” que eu entendi como sendo um conhecimento avesso ou o inverso do conhecimento permitido ou reconhecido. Ao contrário deste (com características repressoras) a Gnose serviria com antídoto eliminando resquícios dessa repressão. Parece que buscavam resgatar a fala mais livre, uma literatura primordial, ainda sem o ranço de qualquer moral. Ou seja, todo conhecimento é repressor se levar a produção de códigos de conduta. Uma literatura livre disso, seria mais rica, mais providencial?
    Gostaria que o senhor comentasse isso no debate em sala. (Caso seja pertinente)
    Interessante pensar em: Idade da Pedra, como sendo a Idade em que só as pedras eram testemunhas, ou Idade Cosmológica. O Cosmos por testemunha. Acabei de ler um poema da filósofa Viviane Mosé. Em seu livro de poesias: Pensamento Chão, ela diz que pedras são palavras calcificadas, poemas sem vazão. Talvez dentro de nós essa poesia também esteja presente e resista mas em formato petrificado e seu curso milagrosamente possa des..petrificar nossa mais latente e originária vocação, nos levando para uma literatura também primordial…mente rica.

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  9. Gosto, e aprendo muito em suas aulas
    professor Claudio Willer,obrigado por temas tão motivadores

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  10. […] do próprio Ginsberg) e o delicioso The Beat Hotel, que já citei e comentei aqui, neste blog: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/17/beat-e-surrealismo-encontros-e-desencontros/   Assunto é o que não […]

    Responder

  11. […] da fracassada tentativa de encontro de Ginsberg e Breton na época, já comentada aqui, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/17/beat-e-surrealismo-encontros-e-desencontros/ . Mas são poéticas distintas – Ginsberg foi um objetivista, e todas as imagens resumem […]

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