Um poema de Ginsberg

Para a sessão de amanhã (ou de hoje? ou de ontem? – depende de quando abrirem este blog) na Livraria da Travessa no Rio sobre Allen Ginsberg e a Geração Beat, resolvi traduzir seu “Kral Mahales”. Pretendo lê-lo. Esse poema de 1965 relata sua expulsão da Tchecoslováquia após ser coroado “rei de maio” (kral mahales no idioma tcheco) por uma multidão, promover escândalos e liderar manifestações. Faz uma profissão de fé de heterodoxia e pluralismo religioso e de inconformismo absoluto. O poema foi escrito no avião que o levava de Praga a Londres.

Talvez não seja ainda a versão definitiva da tradução. Mantive maiúsculas em substantivos – acho que Ginsberg usou maiúsculas a mais, em um anacronismo proposital, remetendo ao modo como William Blake, seu inspirador, grafava. (os recursos limitados deste blog não permitem seguir a versificação de Ginsberg, com recuo após a -primeira linha – mas, felizmente, preservaram minhas duas notas de rodapé) (tenham uma boa leitura) (reparem, nos ‘tags’ ao lado, que há mais textos sobre Ginsberg neste blog)

Allen Ginsberg

KRAL MAHALES

E os comunistas nada têm a oferecer a não ser bochechas gordas e óculos e policiais mentirosos

e os Capitalistas oferecem Napalm e dinheiro em malas verdes para os Nus,

e os Comunistas criaram indústrias pesadas mas seus corações também estão pesados

e os lindos engenheiros estão todos mortos, os técnicos secretos conspiram para seu próprio glamour

no Futuro, no Futuro, mas agora bebem vodca e lamentam pelas Forças de Segurança

e os capitalistas bebem gim e uísque em aviões mas deixam os milhões marrons da Índia morrer de fome

e quando os cus dos Comunistas e Capitalistas se enroscam o homem Justo é preso ou roubado ou decapitado,

mas não como Kabir[1], e a tosse de cigarro do Justo sobre as nuvens ao clarão do sol é um brinde à saúde do céu azul .

Pois Eu fui preso três vezes em Praga, uma vez por cantar bêbado na rua Narodni,

outra vez derrubado a socos na calçada da meia-noite por um agente bigodudo que berrava BOUZERANT[2]

e outra vez por perder meus cadernos de notas de opiniões incomuns sexo política sonhos

e eu fui expulso de Havana de avião por detetives de uniforme verde

e eu fui expulso de Praga de avião por detetives em ternos de executivos tcheco-eslovacos

Jogadores de baralho de Cézanne, os dois caras esquisitos que entraram no quarto de Joseph K. pela manhã

e também entraram em meu quarto, e comeram à minha mesa, e examinaram meus rascunhos,

e me seguiram dia e noite das casas de amantes aos cafés do Centrum –

E eu sou o Rei de Maio, que é o poder da juventude sexual,

e eu sou o Rei de Maio, que é o engenho na eloquência e ação e amor,

e eu sou o Rei de Maio que é o cabelo comprido de Adão e o Pelo de meu próprio corpo

e eu sou o Rei de Maio, que é Kral Mahales na língua tcheco-eslovaca,

e eu sou o Rei de Maio, que é a velha poesia Humana, e 100.000 pessoas escolheram meu nome,

e eu sou o Rei de Maio, e em poucos minutos eu pousarei no Aeroporto de Londres,

e eu sou o Rei de maio, naturalmente, pois tenho origem Eslava e sou um Judeu Budista

que cultua o Sagrado Coração de Cristo o corpo azul de Krishna as costas retas de Ram

as contas de Xangô o Nigeriano cantando Shiva Shiva de um modo que inventei,

e o Rei de Maio é uma honraria da Europa Medieval, minha no século 20

apesar das naves espaciais e a Máquina do Tempo, pois ouvi a voz de Blake em uma visão,

e repito essa voz. E eu sou o Rei de Maio que dorme com adolescentes dando risadas.

E eu sou o Rei de Maio, e que eu seja expulso do meu Reino com Honra, como antigamente,

Para mostrar a diferença entre o Reino de César e o Reino do Homem de Maio –

e eu sou o Rei de Maio porque eu toquei minha testa com meu dedo saudando

uma luminosa garota gorda de mãos trêmulas que disse “um momento Mr. Ginsberg”

antes que um moço e gordo Agente à Paisana se postasse entre nossos corpos – Eu estava indo embora para a Inglaterra –

e eu sou o Rei de Maio, retonando para ver Bunhill Fields e para caminhar em Hampstead Heath,

e eu sou o Rei de Maio, em um jato gigantesco tocando o aeroporto de Albion tremendo de medo

e o aeroplano ruge para pousar no concreto cinza, sacode-se & expele ar,

e roda devagar até parar sob as nuvens com uma parte do céu azul ainda visível.

E embora eu seja o Rei de Maio, os Marxistas bateram em mim na rua, seguraram-me a noite toda na Delegacia de Polícia, seguiram-me pela Praga da Primavera, detiveram-me em segredo e me deportaram de meu reino em um avião.

E assim eu escrevi este poema no assento de um jato em meio ao Céu.


[1] Poeta místico da Índia, 1440-1518. Cito da Wikipédia: “Existe uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas, dizendo que tanto hindus quanto muçulmanos brigavam pelos seus restos mortais, os hindus desejando cremá-los conforme a sua tradição e os muçulmanos querendo enterrá-los, seguindo os seus costumes. Quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as muçulmanas e um buquê de suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca mais foi encontrado.”

[2] Algo como “bicha” ou “veado” no idioma tcheco.

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10 responses to this post.

  1. Obrigado Willer! por nos permitir esta leitura.

    Abraços poéticos,

    Luiz D Salles

    Resposta

  2. Que bom ver este poema em português!!! Havia um vídeo no You Tube em que aparecia primeiro um rapaz lendo esse poema na versão tcheca e depois o próprio Ginsberg lendo em inglês. Há algumas histórias pitorescas sobre um diário dele que a polícia tcheca teria confiscado e depois divulgado seu conteúdo. Vc conhece, Claudio? Eu acho que tenho uma referência a isso aqui no meu pc. Um certo episódio da vassoura é particularmente muito engraçado…
    Chico

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  3. Willer! Obrigada! Foi um imenso prazer ouvi-lo (e vê-lo) e puder rememorar com o ouvido interno, agora, tua bela voz interpretando AG em seu “Deus de Maio”. abraço fraterno. Josefina N. Mello @josiemello

    Resposta

  4. […] poema “Kral Mahales” que traduzi, postei em  https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/     e li aquela noite, o poeta Assis de Mello me enviou um link  interessantíssimo, Youtube, […]

    Resposta

  5. […] . E em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/ , mais recente. Agora, transcrevo um trecho de Negócios de família, sobre ambiente e energia […]

    Resposta

  6. […] Minha tradução de “Kral Majales”, seu poema sobre a expulsão da Tchecoslováquia em 1965, com observações sobre sua religiosidade plural, não-institucional: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/ […]

    Resposta

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