Philip Lamantia

O CRIME DA POESIA, de Philip Lamantia

Reproduzo aqui, para facilitar divulgação, a tradução que Ikaro Max fez de um texto de Philip Lamantia, o poeta beat-surreal.
por Ikaro Max, sexta, 13 de Abril de 2012 às 02:18 ·
Fabre d’Olivet, prodigioso filólogo do começo do século 19, contradisse a etimologia acadêmica clássica das palavras “poesia” & “poeta” como, respectivamente, “fazer” & “criador”, com isso substituindo a falsa consciência exultante das conotações desse dicionário & “definição” literária que persiste ainda hoje mesmo entre os que se alegam de “vanguarda”. A erudição de Fabre d’Olivet descobriu que a palavra grega para a poesia derivava dos Fenícios & que, traduzida, significava realmente: “o princípio Superior da Linguagem”. Desenvolvendo correspondências com essa chave-central etimológica no grandioso prefácio (“A Essência & Forma da Poesia”) para seu livro, “Os Versos Dourados de Pitágoras”, Fabre d’Olivet assinalou sua profunda concordância com a poética de Sir Francis Bacon, que, do seguinte ponto de vista, pode ser justamente reinvindicado como um precursor do Surrealismo: “A Poesia realmente se refere à Imaginação, o que pode a seu bel-prazer juntar-se o que a Natureza cortou & cortar o que a Natureza uniu & assim fazer jogos ilegais & divórcios das coisas… Ela levanta & ergue a cabeça submetendo o espetáculo das coisas aos desejos da Mente, enquanto que a Razão é curva & entorta a mente em direção da natureza das coisas.” Rejeitando a “habilidade”, o ponto de vista surrealista, respeitando a soberania da Mente, a primazia dos desejos humanos & a exaltação onírica, considera & encontra a verdadeira poesia para ser instrumento de conhecimento, de descoberta, de revelação, & da liberdade humana. A Poesia Autêntica é certamente o mais elevado princípio da linguagem, mas que geralmente tem sido perdido & que o Surrealismo visa restaurar, como diz a fala esclarecedora de André Breton: “A linguagem foi dada ao homem para que ele faça uso surrealista dela”, junto com a afirmação genial de Benjamin Péret, “poesa é a fonte & a coroa de todos os pensamentos”. Os cinqüenta anos de evidência poética surrealista demonstra os passos iniciais para esta desalienação suprema da Humanidade, com sua linguagem, um salto emancipatório em oposição à degradação civilizada & fragmentação da linguagem pela Razão, isto é, linguagem condicionada para servir como objeto estético, submissão à Realidade, chauvinismo nacional(ista), entretenimento, campos de energia neo-formais, estilização, falsaria-de-espelho (espelho-ironia), fala do cotidiano, mistificação pseudo-revolucionária, confissão pessoal, auto-expressão conscienciosa & outras idiotices — que, insisto, pode ser resumida na auto-condenada monstruosidade que foi Ezra Pound, seus emuladores inúteis & o que geralmente passa por poesia & “boa escrita” neste país.

                                                                               ***

Além disso, o objeto do Surrealismo é MORAL. As demandas que podem extrair de você não ficam aquém de uma linguagem furiosa & revolucionária a respeito da linguagem, poesia, amor, ciência, erotismo, política, dependente de uma exaltação imaginativa de materiais inquietantes & renovação potencial de poderes latentes que requerem um grau de purificação dos meios bem como de seus alcances, tão fácil como o dia engolindo a Noite.

Da “City Lights Anthology”, 1974

tradução livre: IkaRo MaxX

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3 responses to this post.

  1. […] Eu já havia postado um texto de Philip Lamantia, o beat-surreal, expondo sua poética. Foi encaminhado por Ikaro Marx:  https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/13/philip-lamantia/ […]

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  2. […] Já havia publicado aqui uma tradução de Philip Lamantia, poeta raro, refinado, por Ikaro Maxx, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/13/philip-lamantia/ […]

    Resposta

  3. Belíssimo Lamantia!

    Vou procurar. Deve estar na antologia Bed of Sphinxes que eu tenho.

    um grande abraço,
    Mauro Jorge

    P.S. Vi também aqui o anúncio do lançamento de Jabès e Ivsic. Grande notícia.
    O Eclair tem traduzido muito surrealismo por aqui. Maravilhosa e muito importante tarefa..

    Resposta

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