Ainda a lucidez de Ginsberg

Antes: já que fiz circularem links de leituras de poesia de Kerouac e Piva, então agora vejam Allen Ginsberg lendo Kerouac, algo de Mexico City Blues – junto com Bob Dylan, ambos visitando o túmulo de Kerouac em Lowell em 1975, etapa da Rolling Thunder Review: http://www.youtube.com/watch?v=cU3XJDm8R0w ou (legendado em espanhol) http://www.youtube.com/watch?v=UIDJKwXTU04&feature=related .

Havia postado aqui sobre a pontaria certeira de Ginsberg em análises políticas, em https://claudiowiller.wordpress.com/2011/10/24/se-allen-ginsberg-estivesse-vivo-estaria-marchando-em-wall-street/ . E em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/08/um-poema-de-ginsberg/ , mais recente. Agora, transcrevo um trecho de Negócios de família, sobre ambiente e energia alternativa. É de 1974:

“Quanto ao petróleo: seria aconselhável que os EUA desenvolvessem fontes de eletricidade solar, eólica e outras descentralizadas. Toda essa briga pela preservação das fontes de petróleo é uma característica do monopólio capitalista da indústria de petróleo & da aliança militar-industrial dentro de um contexto estático e fixado. Toda essa “crise” está fora do contexto ecológico mesmo. O custo do oleoduto do Alasca seria suficiente para as pesquisas e o desenvolvimento de formas de energia utilizando o sol ou as correntes oceânicas. Se existe crise, a reação de quem demanda mais petróleo é tão neurótica quanto a do viciado que quer mais uma dose. É parte de todo o contexto. (p. 146)

É claro que ele disse o mesmo em muitas outras ocasiões. Comparem com um artigo recente, de Washington Novaes, no Estadão, que tirei de http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,dificil-mas-nao-ha-outro-caminho-,860526,0.htm

“Se os princípios em discussão chegarem à prática, encontrarão panoramas difíceis, como o apontado pelo professor Ricardo Abramovay, da USP, segundo quem “a extração de recursos da superfície terrestre cresceu oito vezes durante o século 20, atingindo um total de 60 bilhões de toneladas anuais, considerando apenas o peso físico de quatro elementos: minérios, materiais de construção, combustíveis fósseis e biomassa” (Eco 21, fevereiro/2012). Insustentável. É o que começam a dizer tantos economistas sobre a finitude dos recursos materiais. Pelo mesmo caminho, diz o Instituto Carbono Brasil (Fabiano Ávila, 30/3), o aumento do PIB dos países emergentes tem ocorrido com “exploração abusiva da biodiversidade e dos recursos minerais”. No caso brasileiro, ao aumento de 34% no PIB entre 1990 e 2008 teria correspondido um queda de 46% no “capital natural” no mesmo período. E acrescenta: “Se todos os fatores sociais, energéticos e manufaturados fossem levados em conta, o ‘crescimento real’ do Brasil seria de apenas 3%”. É a conclusão da Conferência Planeta sob Pressão, realizada em Londres.

Pena que num momento como este nossa presidente da República atribua a “fantasias” as críticas de vários setores à construção de hidrelétricas como Belo Monte e outras amazônicas e diga que essas elucubrações distantes da realidade não serão discutidas na Rio+20. Porque, na sua visão, as críticas partem de quem acredita que o desenvolvimento ocorrerá apenas com energia solar (abundante) e eólica (já a preços competitivos) – até porque, segundo ela, não é possível “estocar vento”.

O ex-ministro professor José Goldemberg já considerou o discurso da presidente “um mau presságio” para a Rio+20. E tem razão. O que se esperava é que, numa conferência como essa, o governo discutisse a matriz energética nacional; estudos como o que produziram a Unicamp e o WWF já em 2006, mostrando que o País pode economizar cerca de 50% da energia que consome – quase 30% com programas de eficiência e conservação de energia (tal como fez no apagão de 2001); 10% reduzindo as inacreditáveis perdas nas linhas de transmissão (próximas de 17%); e mais 10% repotenciando antigos geradores de usinas, a custos muito mais baixos. E que o governo se dispusesse a discutir o plano de expansão de usinas nucleares, no momento em que quase todo o mundo as abandona (porque são perigosas, caras e sem destinação para o lixo nuclear).

Mas não se deve perder a esperança – mesmo porque não há outro caminho.

Outros temas de Ginsberg, minoritários, agora são objeto de discussão ampla – a crítica às políticas de combate ás drogas, por exemplo, agora é dita até por chefes de estado. Mas, na questão ambiental, não o ouviram – não aprenderam – persistem no erro. Até quando? Até devastarem de vez o planeta?

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3 responses to this post.

  1. […] Ginsberg, de 1974, sobre a loucura de persistir no uso de combustíveis fósseis, não-renováveis: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/15/ainda-a-lucidez-de-ginsberg/ Ginsberg, um ecochato da pior espécie. Como ainda é grande a distância entre o que dizem poetas […]

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  2. […] [3] Em Negócios de família, p. 146, coletânea com a correspondência com seu pai, Louis Ginsberg; reproduzi em meu blog, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/15/ainda-a-lucidez-de-ginsberg/ […]

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