Acaso objetivo

Em tempo – postado a 27/05: pedi a participantes de oficinas e cursos que enviassem relatos de acaso objetivo – estão nos comentários. Quero mais.

Da entrevista que o poeta e estudioso Chiu Yi Chih está fazendo comigo para a revista eletrônica Zunaí, resolvi destacar este trecho (vai dar uma entrevista especialmente substanciosa, Chiu me leu bem e há perguntas que são ensaios):

14) Você conta experiências de “acaso objetivo” reportando-se às suas vivências e leituras no seu maravilhoso livro Volta, e de fato aconteceu comigo quando estava fazendo sua oficina em 2008. Você nos indicava várias leituras, dentre as quais, Nadja de André Breton, e logo depois eu vi três vezes esse nome Nadja em intervalos muito próximos: o primeiro num pára-brisa de caminhão quando estava numa estrada indo da minha casa para o centro de Embu das Artes, o segundo numa placa de sinalização na periferia do Embu e o terceiro numa loja de roupa aqui em São Paulo. São esses acontecimentos de sincronicidade onde as fronteiras do sonho e da realidade se comunicam que despertavam a imaginação dos poetas surrealistas como André Breton. Quando estamos em processo de criação, é como se abrisse uma brecha na realidade. Gostaria que falasse sobre essa ruptura dos limites no seu processo de escrita.

(falarei….)

(em tempo – acrescentei depois) – aquele episódio matricial de acaso objetivo, já relatado em várias entrevistas, a mais recente em Os dentes da memória – transcrevo do meu ensaio sobre acaso objetivo em O Surrealismo, ed. Perspectiva:

“O episódio é relatado por Roberto Piva no vídeo Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti: a 26 de setembro de 1966, por volta das 16 h, Piva e Roberto Bicelli caminhavam pela Avenida Rio Branco no trecho final, próximo ao viaduto sobre os trilhos, em São Paulo. Viram passar a toda velocidade um caminhão carregado de móveis e utensílios, encimados por um armário cuja porta, impelida pelo sacolejar do veículo, abria e fechava, batendo com força. Do móvel saía, esvoaçando, conduzido pelo vento, um longo lençol branco. Apontando para o conjunto insólito, Bicelli exclamou: É o fantasma de André Breton! Nem Bicelli, ao identificar desse modo a sacolejante mudança ao surrealista, nem Piva, lembraram-se, na hora, desta frase meio solta no primeiro Manifesto do Surrealismo, em um parágrafo intitulado “Contra a morte”: “Não vos esqueçais de formular adequadamente vossas disposições testamentárias: eu, por exemplo, peço que me transportem ao cemitério num caminhão de mudança”. No dia seguinte, leram nos jornais a notícia do falecimento de Breton naquela data e hora, às 16 h. de 26 de setembro de 1966. O acaso objetivo assim prestava uma oblíqua homenagem ao seu formulador.


[1] Produção da SP Filmes disponível em vídeo, exibido na TV Cultura de São Paulo e TV Educativa.

[2] André Breton, Manifestos do Surrealismo, tradução de Jorge Forbes, prefácio de Claudio Willer, Editora Brasiliense, 1985; ou André Breton, Manifestos do Surrealismo, tradução de Sérgio Pachá, Nau editora, Rio de Janeiro, 2001; esta, mais completa, segue André Breton – Manifestes du Surréalisme, Jean Jacques Pauvert éditeur, Paris, 1962, incluindo a Lettre aux Voyantes e Poisson Soluble, ausentes das edições Gallimard e Brasiliense.

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46 responses to this post.

  1. Posted by Vince on 26/05/2012 at 11:08

    tenho pelo menos um lista de acasos-objetivos estimulados pelos cursos & oficinas de Cláudio Willer que participei.

    O mais recente:

    Saindo de uma das aulas sobre os poetas da natureza, onde havia sido mencionado o tigre de Blake, eu estava no coletivo a ler um ensaio sobre Jorge Luis Borges e, como se a aula quisesse se estender sobre a noite que ninava o vagão em que eu estava, saltou sobre meus olhos o nome de Cláudio Willer, citado como estudioso do assuntos tratados no ensaio. Alguns segundos depois eu me dei conta que uma mulher, encostada na porta do lado direito, usava um vestido branco com uma estampa com linha pretas cujo padrão formava um frondoso tigre!!!

    O mais antigo:

    Estava no shopping bourbon esperando minha guria que se atrasou. Entrei na Liv. Cultura para passar o tempo e fui a seção de música, pois estava procurando algum bom livro sobre jazz, do tipo introdutório, explicativo, guia de iniciantes… Logo dei de cara com um livro negro de capa dura onde se lia ‘THE BEATS’ tirei ele da estante e não consegui largá-lo. Obviamente fora colocado na estante errada por algum atendente, pois embora tivesse algumas páginas dedicadas ao Jazz, era sobre a geração Beat. Eu já tinha lido ON THE ROAD e conhecia alguma coisa do Burroughs, mas um misto de inocência e ignorância havia sempre me distanciado de uma identificação e aprofundamento em Kerouac & cia. Enfim, o livro não voltou mais para a estante.
    No dia seguinte, matando tempo no trabalho, estava pesquisando algum curso (eu tinha acabado de concluir minha graduação e queria preencher minhas noites) aleatoriamente via google. E o primeiro que me salta aos olhos ‘GERAÇÃO BEAT’ em uma biblioteca em Pinheiros… Liguei e me inscrevi na hora. O curso que acontecia as quintas foi um marco divisório na minha vida em diversos sentidos e considero que começou na estranha exposição daquele livro sobre os Beats na seção de Jazz da Liv. Cultura.

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    • Outro incidente mais espantoso e inédito: aos dezesseis anos enviei ao concurso de Poesia Falada: Categoria Jovem (Biblioteca Mário de Andrade) meu poema Menino Orfeu escrito após a leitura de Lautréamont, na tradução de Claudio Willer, e durante a oficina de poesia e xamanismo do Piva….fui selecionado e apareci com Irael para fazer a performance no palco…e vejo na platéia como júri, Cláudio Willer e mais outros dois júris…para realizar a premiação…não é acaso objetivo?

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      • Um dos fatos mais impressionantes ocorridos ao longo do processo de criação artística no LOZ-2962 STUDIO foi a estranha aparição de uma imagem numa foto tirada pelo meu amigo escultor Irael Luziano no ITAÚ CULTURAL, quando estávamos passeando em frente ao trabalho do artista Scott Draves na exposição Emoção Art.ficial 6.0 da Bienal Internacional de Arte e Tecnologia. Na foto abaixo, estou no fundo de uma tela onde se combinam linhas de diversas cores em movimentos aleatórios processados por vários computadores espalhados pelo mundo que captam as ondas do universo. Esse trabalho multidimensional projeta infinitas imagens em permanente mutação. Ora, a sincronicidade ou acaso objetivo que evidencia esse aspecto da subjetivação é que aparece uma figura no canto superior direito da foto: sobressai-se numa nuvem verde um rosto chinês com cabelos longos e olhos puxados. O rosto de traços nitidamente orientais compõe-se de sobrancelhas grossas, testa grande, nariz e boca numa atitude serena. Um pouco mais à direita, sua cabeça verde é atravessada por um feixe de linhas roxas. Irael percebeu este ACASO OBJETIVO e me mostrou a foto. Em sua presença fulgurante, tal entidade simbólica que recorda uma espécie de velho sábio oriental se relaciona diretamente com os trabalhos do LOZ-2962 STUDIO, sobretudo porque estávamos mergulhados num dos vetores da nossa pesquisa, ou seja, naquela problematização das diferenças sócio-culturais (Oriente/Ocidente). Além disso, aquela entidade, remeteu-nos à interação Homem-Máquina-Mundo e às interconexões do arcaico/contemporâneo de modo extremamente peculiar, reconfirmando o conceito da metacorporeidade no que diz respeito àquele trecho publicado na REVISTA FILOSOFIA, onde explicitamente eu dizia que “buscamos a potencialização desses vetores de modo a produzir relações transversais/plurívocas entre Brasil-China-Taiwan, tornado possíveis a heterogênese dos agenciamentos e a interação dos múltiplos mundos”. É tão singular que aquela figura tenha se revelado no exato momento em que a foto congela em quadro a multiplicidade de linhas moventes que não paravam de se expandir em sua infinita variação (no recorte abaixo, vemos em destaque esse rosto insólito). Veja o relato com a foto no meu blog http://philomundus.blogspot.com.br/p/sculptures.html e também http://philomundus.blogspot.com.br/p/contact.html

      • Willer e amigos…aconteceu então outra sincronicidade nesses últimos dias. O escultor Irael me mostrou uma notícia publicada na FOLHA DE SÃO PAULO, em que os cientistas revelam que a cerâmica mais antiga foi descoberta na CHINA, na região de Xianrendong. Irael e eu ficamos estarrecidos quando vimos tal notícia porque justamente estamos pesquisando o elemento do barro na realização das esculturas, e mais do que isso, no entrecruzamento da interação Homem-Máquina-Mundo e no agenciamento dos múltiplos mundos (China-Taiwan-Brasil), as desterritorializações traçando o mapa das conexões. O link é esse http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1112283-cientistas-acham-ceramica-mais-antiga-do-mundo-na-china.shtml

        O mais impressionante é que algumas associações podem ser feitas, o material com que estamos fazendo as esculturas para questionar a interação homem-máquina e as hibridizações do arcaico-contemporâneo, além do que a notícia foi exatamente publicada no dia 29/06/2012 coincidindo com os números 29 – 6 – 2 do LOZ-2962 STUDIO (China-Taiwan-Brasil). Nossas esculturas giram em torno da Metacorporeidade, conceito criado por mim para agenciar estas inúmeras interconexões.

      • Outro acaso objetivo: saiu uma matéria na Revista NATIONAL GEOGRAFIC intitulada Tesouros da China que já se encontra nas bancas. Os arqueólogos observam que, na dinastia do imperador Quin Shi Huang Di, as estátuas de terracota que representam os corpos dos guerreiros chineses haviam sido originalmente esculpidas e “coloridas” com o uso de pigmentos de diversas cores. Conforme o texto da revista: “As cores – tons de vermelho, verde, azul e púrpura – variam de um guerreiro para outro, mas os especialistas ainda não encontraram uma conexão entre cor e função ou posto militar. E há toques inusitados, como mangas de camisa contrastantes. Em seguida veio a descoberta mais curiosa de todas: uma das figuras tem o rosto pintado de verde. Talvez a intenção fosse assustar o inimigo, mas não se pode descartar a possibilidade de que a tonalidade tenha um motivo artístico.” A matéria toda está nesse link http://viajeaqui.abril.com.br/materias/tesouros-da-china?pw=1. Ora, a sincronia é justamente “o rosto pintado de verde” ter aparecido na exposição do Itaú Cultural, aquele rosto chinês configurado na tela da obra de Scott Draves conforme o relato anterior. O curioso é que também a nossa escultura Inflacionária Travessia traz no seu lado esquerdo uma forma curvilínea que se assemelha a uma arma ou instrumento de guerra, e essa estrutura está pintada de verde. As nossas esculturas são de terracota e recebem cores variadas. Além disso, o meu próprio poema em prosa (com o mesmo título) que acompanha esta escultura postado no meu blog http://philomundus.blogspot.com.br/2012/05/num-terrivel-disparo-que-se-extravia-ao.html, diz que “não sendo raro esse mergulho invertido de quem se resgata numa ruminação de aéreas armaduras quando talvez seja possível se embrenhar por entre ramagens daquela engrenagem enrodilhada de vozes esparsas assim como se agarram os tremores de tubérculos lanosos sob a inflorescência quase inofensiva de deuses amortecidos no meio de oscilações porosas a ponto de se descolar entre ranhuras e ervas e várzeas aquele esqueleto irrespirável por onde a traqueia encavalada se suspende junto aos ruídos de um mensageiro amarrado às inclinadas sedimentações do laboratório engessado” – de fato, remetendo, por meio do signo das armaduras, do esqueleto e do laboratório ao texto da National Geografic que revela a descoberta de um fosso com “armaduras cerimoniais feitas de peças de calcário esculpidas”

  2. Naquela época eu estava mergulhada no universo de Lewis Carroll para fazer minhas ilustrações de Alice.

    Eu morava em Brasília, no Lago Sul na QI 11 – conjunto 09 – casa 17. Tudo começou com algumas cartas para a Alice. Mais tarde vieram as visitas para jantar com a Alice, ou não seria um chá mais apropriado? Entre o sonho e a realidade, eu suspeitava de um complô do universo que me lançava para dentro das histórias que eu lia. Até que um dia recebemos um enorme carregamento de coca-cola, para quem? Alice, claro. Na minha imaginação alucinatória as garrafas todas diziam “beba-me, beba-me” ! Intrigada, eu desvendei parte do enigma. A Alice, uma Alice de verdade, tinha um restaurante, sabe aonde? Na QI 11 – conjunto 09 – casa 17, só que no Lago Norte, entende? (Lembre que Brasília tem o desenho de um avião, uma cidade quase simétrica…) Eu morava no SHIS (Setor Habitacional Individual Sul) e ela no SHIN (Setor Habitacional Individual Norte), o resto do endereço era idêntico. Por isso tanto troca troca.

    Me mudei de Brasília e a Alice mudou de endereço. “Alice não mora mais aqui.” Já em São Paulo, rodei, rodei e rodei para encontrar um apartamento para morar. Mais de duzentos, sem exagero. Foi quando me apaixonei a primeira vista por um recanto encantado, lar de milmaravilhas. E eis que sou novamente surpreendida pela ex-proprietária do apartamento. Como será que ela se chamava? Alice? Não, Branca Regina! Quem já leu “Alice através do Espelho” conhece a Rainha Branca, meu personagem predileto nessa estória. Com ela aprendi muitas coisas como treinar todo dia para acreditar em coisas impossíveis. “As vezes acontece de eu acreditar em seis coisas impossíveis antes mesmo do café da manhã!” disse a Rainha.

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  3. Posted by MAURO D`ADDIO on 26/05/2012 at 14:01

    Tal tema me fascina, diversas vezes já me considerei confrontado com este tipo de situação, uma porém me chamou especial atenção. Em 2009 dirigi um curta-metragem chamado “A Menina do Mar”, rodado em Ubatuba, o mar e a mata fizeram do pequeno filme um épico pessoal, para atuar em sintonia com sol, maré, chuvas e outras mazelas de Gaya tive de apelar à fé e os meses que passei envolvido neste processo foram árduos e cheios de pequenas experiências um tanto intensas. Insisti em filmar um velho rabequeiro caiçara, ele estava surdo e doente, foi muito difícil filmar sua cena, deu um trabalho imenso tirar ele de casa e botar ele tocando rabeca na praia, porém na hora de filmar a cena tudo parecia tão mágico que chorei enquanto a câmera registrava o velho rabequeiro a tocar, detalhe, nunca havia chorado filmando, cabe registrar tambeem que ele era um destes artistas populares, pobres e esquecidos, sem sequer um registro de seu trabalho. Meses depois eu organizava a estréia do filme em Ubatuba, no pequeno cinema local, no centro da cidade. Entramos em contato com a família de Seu Ricardo, o mestre rabequeiro, e disseram que ele estava muito doente internado por alguns dias.
    Cerca de duas semanas depois o filme estreiava na cidade, 18 horas, no cineminha do lado oposto à Santa casa, onde até então nosso rabequeiro estava internado por todos estes dias. Sessão lotada, criançada na platéia, o filme é infanto-juvenil, seu Ricardo rabequeiro encheu a tela da sala escura, tocando sua rabeca. Ao fim da sessão sua filha me foi apresentada, pessoa humilde, muito emocionada, logo perguntei de seu pai, ela tentou dizer que ele estava bem mas o choro irrompeu e ela saiu correndo do cinema.
    Uma hora depois me ligam dizendo que ele falecera, naquele mesmo dia e no registro de óbito, estava lá, 18 horas, mesmo horário de início da sessão de estréia do filme, além do detalhe sórdido de que o cinema era exatamente na frente da Santa Casa onde ele faleceu, no lado oposto da rua. O Cinema tem algo de mágico mesmo, o mestre rabequeiro estava tão vivo e pleno na tela, tocando para uma geração que esqueceu seu passado caiçara, mas entre nós já não estava. Não sou espírita mas dessa vez acreditei que o velho rabequeiro deixou a cama, cruzou a rua com sua rabequinha e foi ao cinema!

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  4. Tendo lido livros demais, grande parte dos arcanos maiores dentre os autores surrealistas não me era estranha, bem como a maioria de seus textos luminares, e já me servia deles (com moderação) como inspiração em meu fazer poético. Como poeta que se pretende muito hodierno, eu assumia esta influência, sem jamais, no entanto, autoproclamar-me um surrealista. Servia-me de seus métodos e processos criativos para criar meus poemas, mas não mais do que para criar meus próprios processos, quando, em agosto de 2011, logo após o desengavetamento de meu primeiro livro para a publicação em Portugal do poemário Livro Ruído (Eucleia Editora), ingressei no curso “Surrealismo: Rebelião, Expressão e Criação”, no Museu da Língua Portuguesa. Magistralmente ministrado por Claudio Willer, um dos poucos artistas vivos que aprecio e um dos poucos intelectuais em quem confio – por já o haver lido e ouvido, então, algumas vezes, mas menos do que o suficiente, e por ter, até ali, percebido que ele, além de saber escrever, sabia também ler.

    Uma tarde, no âmbito das discussões sobre André Breton, como complemento ao que Willer acabara de dizer sobre acaso objetivo (e flânerie e disponibilidade e escrita automática), foi-nos proposto que atravessássemos a rua e os portões do Parque da Luz, no intuito de buscar a visão do “peixe solúvel”. E foi o que fiz, logo em seguida, de posse de caderno e caneta e fones de ouvido, perfazendo o trajeto circular em sentido horário (tomada a entrada principal como 6 horas), anotando o que notava.

    Eu não sabia que sabia, por acaso, que havia um peixe vermelho de nome Garibaldi, assim chamado em homenagem ao revolucionário italiano de camisa vermelha, por cujo busto imponente eu seria encarado nesse giro, solucionando minha pescaria. Tampouco podia ainda interpretar que o texto automático que produzi ao fim, revisado três dias depois, e que reproduzo a seguir, previa – por razões que não quero aqui enumerar – o fortuito encontro com uma estranha, primeira leitora do tal texto, pela qual reciprocamente me apaixonei à primeira vista, e que é hoje a mulher da minha vida. Poesia e vida. Demasiado objetivo o acaso.

    * * *

    inf(lux)o

    para Claudio Willer

    “Sweet sweet sweet sweet bulbs grow in m’ latest garden
    […] Come talk freely in the garden of m’ lady“
    CAPTAIN BEEFHEART

    saio do museu da minha língua
    quando disso ouvi meu pensamento
    dissolutamente e dissolutamente
    a ascender os pulmões com pirulitos de câncer
    nos foguinhos azuis de bumba-meu-blues
    em meus fones de canção e olvido
    com que cruzo o rush com a avenida na garganta seca
    de uma idade relativa a doar
    aos pobres que abundam e podres moribundam
    antes d’eu penetrar no público dédalo da provocação
    o Jardim da Luz e vírgula
    a me reiniciar na verdade do Já alascincodelatarde
    quando me corto em particípio sentido horário
    a tentar pescar com minha vara de água
    naquela velha agádoizó o que os dois olhos não agarram
    já aquela se volatilizou do brusco buraco do silêncio
    que estes meus furolhos lacrimais alamedram
    entre as árvores altissonantes do vento gerúndio
    das fagulhas-farpas que nos farrapos são caos e efeito
    a encenar um incêndio teatral de trovões e fosfenas
    quando me vira a cara o busto-fantasma do risorgimento
    que me faz farra ou pilha
    como o peixe solúvel que é este Garibaldi
    coroando o paisagismo nouveau d’outras fontes
    se com isso tutti importas giratórias da recepção
    na ágora ou nuca da sua cabeça
    bronzeada de fraternidade
    quandonde as aléias sem azaléias
    me voam raso e/ou taxiam tortuosamentindo
    rumo à gruta-agrura artificial
    que já a curto prazo se avista cansada
    de ser buraco de se descer horizontológico
    quando o sol se põe atrás da estação no inferno
    ao objetivocaso mais grotesco
    do que o que nos grita essa gruta bocarrazão
    Deméters por segundo sombra
    donde o cimo tem uma altura-queda
    para o ar marchetado de aves rupestres
    criançando as brincadeiras
    par A.k.a. Bar com o juízo de Deuzebu
    entre as putas velhas mais gordas do que o clamor louco
    enraizadas no mundo d’arcana décima sétima hora-treva
    da árvore cujo fruto é ainda outra árvore
    que dá frutos em miração do caminho
    do parquinho de sexofone
    semeado de preservativos da véspera
    cujos velhosábios peripasseios de Tirésias
    e más companhias ilimitadas
    das estatuazinhas aos quatro ventos musicantes
    que senti nelas a guarda e a túnica baixa
    que as oito leminiscatam cardinalícias ao arcano redor
    do verde-Cézanne mais central e tão depressionista
    de carpas e cágados e tudo que nada a girarodar
    nos dez ligados chafarizes na hora e na vez
    do chá inglês fazer risos antes que eu me esqueça
    ante os alvos tesões em branco em cada pau incircunciso
    doente de ouro ou romances de copo e espodo(mancia)
    nos quais delira cada uma das verves
    das retaguardas artísticas ao passar
    no alto capitaneando o coração de carne
    por sobre a mágica banda no coreto
    das aposentadorias anacoretas fazendo e feito dominó
    quando da passagem do psicotrópico de capricórnio
    soterrados por estas minhas folhas
    no último anil da abóbada celeste
    esporeando o meio-pau dos suicidas
    que castraram a própria lida noutro buraco
    e eu a cavá-lo por um reino troco de pé e demão
    ao verouvir num au revoir de pássaros
    o rubromoinho de can-cansaço
    da jovem mulher rara a se aproximar de mim
    e ela minha truta se quer ar agonizar
    camponesa do Pari que é
    a me replicar cada ditirambo
    do principal clown-dio da poesia brasileira
    que vejo bem ali n’adjacência alucinante da cicatriz de X
    que ela tem na brecha da face visível
    que me desmascara e até dá algum barato no labirinto
    quando às seis os apitos da segurança tentam avisar
    este par que fecha

    Davi Araújo
    17 agosto 2011

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  5. Posted by SAIDE KAHTOUNI on 27/05/2012 at 20:01

    A leitura de A VOLTA nos anos 90 me conduziu de volta aos meus tempos pós- adolescentes quando, estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, circulava pelos mesmos vários lugares traçados no mapa cultural willeriano da década de 80 ali descrito.
    A organização de um evento batizado “ Diálogos” na Universidade em que eu lecionava em 2006 me faz procurar este autor, para dialogar conosco no curso de Arquitetura, sobre a cidade, pois, além da sua obra, que me encantava, ele havia sido colega de minha mãe na secretaria de cultura durante muitos anos, memória que, sem dúvida, facilitava a nossa aproximação, pois era acompanhada por ela, desde muito pequena na idade, que eu freqüentava os eventos e rodas Cult paulistanas., tendo também lançado meu primeiro e único livro de poemas em 1985.
    Ao telefone, Willer se lembrou de mim imediatamente e marcamos a nossa mesa-redonda antecipada por um encontro rápido em seu bureau para situar melhor nossos posicionamentos e detalhes da organização. Ali muitas lembranças e coincidências rapidamente se esboçaram.
    Paralelamente, um colega professor, amante do cinema, organizava dentro desta trilogia de mesas dos Diálogos, uma mesa para a qual articulava a presença de um cineasta e escolheu, sem sabermos previamente, o Ugo Giorgetti para estar nessa outra mesa, mesa que antecipava a nossa com Claudio. Desta forma, ele passou a pesquisar e assistir seus filmes, tendo escolhido um filme chamado “O Príncipe” para exibição no auditório da faculdade, lá na Móoca. O filme, assistido antes do evento, me chamou a atenção, e recebi, então a sua cópia que estava locada emprestada, para vê-lo em casa, com prazo para devolução.
    Foi aí que me surpreendi, com a presença de um curta-metragem anexado, tipo amostra grátis, colocado na mesma fita: era um documentário maravilhoso sobre os quatro escritores meio beats paulistanos: Willer, Piva, Mautner e …………”Uma outra cidade”, feito pelo Ugo Georgetti.
    Contavam eles, em seus depoimentos filmados, exatamente o episódio do acaso objetivo sobre a morte de Breton, que Willer relembra em seu recente post. Fiquei estarrecida e, assim, pedi que reservassem um tempo e equipamentos para passarmos também este DVD em nossa mesa de discussão, pois ali lembravam de São Paulo nos anos 50 e 60, da Galeria metrópole e de tantos lugares e estórias urbanos. Piva me chamava muito a atenção….
    No dia da mesa-redonda, fui cedo buscar Willer em sua residência e fomos conversando um pouco mais sobre as coincidências. Comentei com ele que eu havia estado na noite do sarau cultural no Municipal, na Feira Cultural, década de 70, quando o protesto do poeta urinando invadiu o palco. E ele me lembrava que narrava o episódio em detalhes em A volta e que havia também vivido a cena. Reservava a ele a surpresa do documentário com Piva e os outros poetas paulistanos, que ele acompanhou com prazer, na exibição que precedeu sua palestra conosco.
    Foi assim que me interessei pelos seus cursos e oficina sobre surrealismo na Casa das Rosas em 2007. Naquele ano, voltei a escrever mais e até participei da organização do nosso sarau de maio na Casa das Rosas, com grandes leituras e poesias de todos que lá estiveram. Mas ainda não conhecia Piva, o grande Piva, a que Claudio sempre se referia. Até que fui avisada de que haveria um lançamento de seu livro “Os anéis de Saturno” , lá na Rua Augusta, numa segunda-feira.
    – Claudio, logo na segunda-feira? Me atrevi a reclamar, pois era sabido que faço parte de um grupo de cura e reikianos que se reúnem exatamente às segundas-feiras, contemplando gratuitamente dezenas de pessoas todas as semanas, entre 19 e 22 horas comas consultas e aplicações. Seria impossível?
    Tentei obter uma autorização para me ausentar e a resposta foi a seguinte: não poderá faltar em função deste evento pois as pessoas estão precisando de vc lá na reunião, e vc sabe disso. Mas está registrado que pediu a permissão e isso é fundamental.
    Naquela noite, de forma mágica, e não há outro adjetivo, tudo funcionou da mesma maneira com o mesmo número de pessoas atendendo e sendo atendidas, mas o tempo do relógio parecia não Caminhar a cada vez que eu olhava para a parede, onde estava ele. Sim, o tempo parou e ao findar dos atendimentos eram apenas 8:45h!!!! Fato inédito, pois até hoje isso nunca mais aconteceu.
    Saí de lá correndo e exultante, com meu carrinho pela paulista alcançando em minutos o local da Augusta. E lá estava Piva…. Claudio já havia partido, mas o poeta-mago ali estava cercado de umas curandeiras que trocavam informações e receitas na fila de autógrafos e comas quais conversei rapidamente. Me senti na continuidade dos trabalhos de cura e assim conheci Piva, a quem vi uma única vez. Esta.
    Seu livro, intensamente místico e encantador, passa uma sublime crença na natureza e suas forças de xamanismo e cura. A poesia ali se encontra com o celeste, pelos anéis de saturno e muito mais.
    Até hoje lembro deste episódio e da somatória de acasos que nos unem, os poetas da vida e das suas dimensões reais e surreais.

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  6. desde o início, houve.
    conheci Willer, num encontrão, na pasmaceira da faculdade,
    enquanto lia livro do próprio;
    reencontraria anos depois, ao fazer primeiro curso dele;
    reveria Chiu, colega de colégio, por sua causa, noutra oficina;
    e tem mais, muitos mais acasos objetivos
    — não os recordo agora —
    mas digo só mais dois numa das últimas que deu no Sesc Pompeia:
    reencontrar amiga feita em Minas Gerais por intermédio de Guimarães Rosa;
    e a mágica das parcerias poéticas, o que gerou até romance…

    abaixo, relato de agosto de 2010 no blog do grupo de poesia do qual faço parte:

    O COLETIVO PARADOXO Paulo não se furta de contar duas ou três histórias que teve com o autor. A primeira foi alguns bons anos atrás, nas dependências da Letras, quando descobri que lia o mesmo autor que uma antiga colega de turma. Ela, “Volta”; eu, “Anotações para um Apocalipse”. A curiosidade aumentou com uma nova descoberta: ambos queriam contar ao outro sobre a leitura que faziam empolgados na semana, o que aconteceu apenas naquela sexta-feira, no final das aulas, na frente da faculdade. Enquanto trocávamos figurinhas dos textos e manifestos, que cheguei até a xerocar, identificado com o ponto de vista lá apresentado, ficamos intrigados com um senhor que surgiu entre as escadas internas do prédio da Letras, muito parecido com a pequena foto que havia na contracapa do livro “Volta”. Mas não era a mesma pessoa? Fomos atrás daquele vulto familiar um tanto envergonhados com nossa indiscrição e, ao virarmos um dos corredores da faculdade que levavam às salas dos professores, ele se vira aos dois estudantes curiosos e pergunta o que queríamos, talvez outra coisa que a minha memória tratou de apagar. Queríamos confirmar se ele era Claudio Willer, que líamos ao longo daquele semana, o que o fez ficar espantado, já que não imagina que alguém ainda o lia naqueles dias. Selamos o acaso objetivo daquele encontro com um tímido pedido de autógrafo no xerox do manifesto que havia tirado horas antes do seu “Anotações para um Apocalipse”, pois os livros que consultávamos eram de bibliotecas.

    Anos mais tarde, reencontraria o autor mais uma vez de maneira profética, num curso sugerido por um dos COLETIVOS PARADOXO (aliás, foi quem inventou tal expressão certeira), Luis. Na época em que o gentil poeta autografava um xerox de um manifesto seu, convidou-nos para um curso de Surrealismo não lembro onde, com um valor salgado para o momento, mas a oportunidade retornaria no Museu da Língua Portuguesa, no curso “Surrealismo: Poesia e Rebelião”.

    (http://poenocine.blogspot.com.br/2010/08/lancamento-do-livro-um-obscuro-encanto.html)

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  7. Minha versão do que relatou Paulo Sposati Ortiz:
    Em 2002, matriculei-me em um doutorado direto em Letras na USP. Em uma das primeiras vindas à Letras, cruzei, no corredor, com um casal de aluninhos – um aluninho e uma aluninha. Nas mãos de cada um, bastante xerocópias. O rapaz me perguntou se eu era Claudio Willer. Disse que estavam, ambos, me pesquisando, haviam acabado de xerocopiar livros meus na biblioteca da FFLCH – era Dias Circulares? – pois não conseguiam achá-los em outro lugar. Perguntou se eu não me incomodaria de autografar a xerocópia. Autografei. Gostei do episódio, tomei-o como indício de que meu reingresso na USP seria bom, produtivo, traria ótimos resultados – como de fato ocorreu. Paulo Sposati Ortiz – o rapaz das xerocópias – reapareceria em 2007/2008, em cursos e oficinas comigo. Vem colaborando ativamente: além de escrever boa poesia, estimulando a criação poética, uma incrível safra de poemas coletivos.

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  8. vários casos para contar, mas a maioria envolve o nome de terceiros e não quero ser indiscreto – vou me limitar a estes dois – 1) no início de 1978 eu havia produzido um primeiro caderno de poesia e uma das pessoas a quem presenteei deu-me em troca um outro livrinho recém-lançado, do ulisses tavares, q trazia em suas últimas páginas poemas de outros autores – se não me engano, leila miccolis, nicolas behr, entre outros – guardei o livro na bolsa para ler depois – naquela noite adormeci sob efeito de haxixe e sonhei que alguém me dizia: ‘os olhos dos gatos guardam a lembrança de tudo, mas você precisa aprender a enterrar seus olhos no chão da floresta, porque eles são agitados demais’ (?) – raramente me lembro de sonhos – no dia seguinte, logo cedo, abri o livro que estava na bolsa e me deparei, nas últimas páginas, com um poema de willer que dizia: ‘acomode / este seu grande olho selvagem / olho memória de gato selvagem / memória de chão e de selva / lagoa de alucinações’ – este poema seria publicado em 1981 em ‘jardins das provocações’. 2 ) no inverno de 1979 (ou 1980?) andava pelo centro velho de s. paulo com dois colegas de faculdade – fazíamos história na usp – e falávamos de mircea eliade, rené guenon, cabala, astrologia e essas coisas – um deles havia calculado minha carta astrológica e disse, arriscando uma interpretação: ‘você precisa publicar suas coisas antes que seu mundo acabe’ – paramos em uma livraria siciliano por um motivo qualquer e eu fiquei na porta, terminando o cigarro, quando um livro na prateleira me chamou a atenção – um livro quadrado, com uma capa vermelha e preta – peguei, chamava-se ‘dias circulares’ – abri e li: ‘incorpora-te e escreve antes que o mundo acabe / hora crescendo em círculos / estética abstrata / odor bizâncio / ecos testemunhais // horas do horóscopo / sombras noturnas do medo / de anteontem / […] a memória do tempo conta tudo / a simples lapidar verdade / inconsciente’

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    • ótimo! não sabia dessas histórias – depois dizem que poesia tem que ter ‘mensagem’… -poesia é mensagem

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    • Relatos impressionantes sobre acasos objetivos e põe objetividade nisso…rs. É como antecipar o tempo e os acontecimentos num primeiro lance que depois se completa em mais um…e os sentidos se abrem…bjs!

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  9. Posted by Srta T. on 28/05/2012 at 18:04

    Meados de outubro/novembro de 2011, ocasião em que lia “Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna”. Enquanto lia, fazia anotações, rabiscos, que mais tarde formariam um argumento para uma dissertação de mestrado que circundasse o espaço literário do autor brasiliense (Ezio Flavio Bazzo) que notavelmente era Baudelariano, Rimbaudiano e principalmente Lautreamontiano. Associei que já havia entrado em contato com alguns textos de Willer, regidos pela mesma necessidade, muitos anos antes (mais de 10?), principalmente na Revista Agulha, e também traduções/poemas de Ginsberg e Artaud, além de artigos que traziam incríveis aberturas a respeito da poética da Hilda Hilst. Mesmo em contato durante anos com o autor, fato que não tinha associado ainda nome à pessoa e fui em busca do Willer no Google. Quando entrei neste blog vi seu convite para a oficina de criação Poética e Literatura Erótica, que por sinal aconteceria à duas quadras da minha casa, no b_arco, que por sinal só poderia ter ocorrido neste ano, já que no anterior estava em morando em Brasília. As inscrições tinham sido prorrogadas e assim consegui participar da oficina. Puro acaso objetivo tê-lo encontrado a uma curva de minha casa aonde estava embrenhadas em escritos e interessada em instalar uma nova dimensão em meus dias, de transformação, revanche, aproximação de realidades distantes, imagens poéticas/proféticas… É claramente óbvio para mim que eu deveria tê-lo encontrado nesta vida, era como se algo tivesse puxando meu cérebro para o alto, era como se estivessem retirando o peso da minha cabeça que seguia por aí até então meio dissociada à la João Baptista. Afinidade, interlocução, entre outras necessidades que julgo primárias para seguir lúcida, destemida e ativa.

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    • Srta. T. lendo seu relato fiquei surpresa ao encontrar o nome de Ezo Flávio Bazzo, o conheci em Londrina, no início dos anos 80, escrevia, tinha um modo de vida alternativo e convivemos durante pouco tempo. depois nunca mais, nunca mais mesmo, soube dele. E eis que hj, num acaso total (rs) encontro seu nome aqui… que me despertou lembranças que estariam perdidas não fosse seu relato. Enfim, achei um bom sinal ter notícias de uma pessoa que , de outra forma, estaria perdida no tempo, pois confesso que dele nem me lembrava mais, apesar de seu reconhecido talento. Gracias e um abço!

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      • Posted by srta T. on 13/07/2012 at 12:20

        Que massa, Célia! Para mim, o Bazzo é uma das figuras brasilienses mais interessantes e obscuras e notórias.

        Além dos livros editados por ele mesmo e vendidos em pequenas livrarias ou em bares brasilienses pelo Faraó (curioso personagem), “onlinemente” o Bazzo tá bem ativo no Murro das Lamentações (eziobazzo.blogspot.com.br), caso se interesse.

        Abraço procê.

    • Srt. T. Por favor, mande um abraço pro Ezo, diga meu nome: Célia Musilli, se ele não se lembrar (faz tanto tempo), por favor diga-lhe que eu fazia Yoga na casa da Lena Mariano, onde ele tb morava, e que tomamos pelo menos um porre de vinho na Adega Brasil, em Londrina…rs. Bjs.

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  10. Um comentário meu ao comentário de Rubens Zárate, que revela algo sobre poesia e comunicação – são trechos de minha narrativa em prosa Volta (Iluminuras 1996 e reedições):
    Alguns escritores sentem a descoberta de uma obra sua em um sebo como derrota, sinal de indiferença dos leitores a torná-los descartáveis. Também pode ser motivo de satisfação, por permitir reaver um exemplar da edição esgotada. Ou de espanto, como o que eu sentia diante de um sinal igual às provas recebidas pelos xamãs, os bruxos tribais, mostrando que sua disciplina, os prolongados jejuns, os dias de permanência no gelo siberiano ou no calor de uma sauna lhes deram o domínio sobre o tempo, o poder de transitar entre o mundo dos vivos e dos mortos. Indício da revelação do místico ao erguer-se a ponta do véu, dando acesso a um grau superior do conhecimento. Do nigromante, ao invocar e fazer aparecer diante de si um anjo, demônio ou espírito de um morto.

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  11. Mais:
    Esse não havia sido o único acaso envolvendo textos meus. Lembrei-me, ou fui lembrado por você que meus livros, várias vezes, haviam trazido seus leitores à minha presença: poetas, pessoas interessadas em imagens e surrealismo. Desde breves encontros até amizades, muita coisa havia nascido daí. A relação entre o escritor e seus leitores não é inteiramente neutra e impessoal, como se o livro circulasse em um arquipélago de anonimatos, multidão indiferenciada de sombras sem nome e sem rosto, ninguém capaz de romper o isolamento e solidão diante do resultado da criação. Talvez por essa coisa meio provinciana que é a vida cultural, o circuito restrito onde transitam livros de poesia – outros poetas, amigos do autor, conhecidos, alguns curiosos, e pouco, bem pouco do que se convencionou chamar de mercado editorial – desde a época da Feira de Poesia e Arte leitores destacavam-se da sombra, parecendo responder-me, ajudando-me a ver o que havia feito, permitindo que eu me enxergasse. O Outro projetando-se da galeria de espelhos, engendrando figuras como a de Soninha.
    Mas não era apenas isso, o desejo dos viventes ou a vontade dos mortos, o que nos aproximava e nos ligava, cruzando os fios de um enredo onde nos tornávamos personagens de histórias das quais o livro já não era mais o repositório, porém, por sua vez, um agente a intervir na ação. Haveria qualquer coisa como uma energia armazenada no próprio livro, suas emanações a envolver-nos, a mim e a seus leitores – leitores dele ou meus? afinal, a quem pertencia o texto? quem sou? autor ou personagem do já escrito?

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  12. Um breve relato sobre o acaso objetivo

    Assumo meu vício de leitora, adoro descobrir novos sebos e adentrar os labirintos das estantes com que me agarram e me conduzem a um lugar jamais visto. Foi assim que tomei conhecimento da poesia de Claudio Willer. Quando o li pela primeira vez teu livro “Jardins da Provocação” editado e publicado pela Massao Ohno me apaixonei e pensei comigo, “putz, tenho que conhece-lo pessoalmente” e assim o foi. Sempre que posso vou á Sampa participar de eventos culturais, em setembro de 2011 fui assistir a apresentação de poesia na “Casa das Rosas”, encontrar amigos, parentes, etc. Lá, ainda meio tímida sentei atrás de Willer, e o mais “surreal” que foi é que eu não sabia quem era, nem tive tempo e coragem de falar com o mesmo. Depois de uma semana, o encontrei no facebook e lhe mandando uma mensagem para me aceitar como amiga a rede social e partilhar alguns de meus poemas. Começamos o bate papo via e-mail, e conheci Willer no real, sai ndo do imaginário através do programa “Viagem Literária” que o mesmo veio participar de um bate papo na pacata e bucólica Monteiro Lobato, SP. Foi ótimo esse encontro, esses acasos que a vida nos proporciona.

    Ps: esqueci de mencionar que este encontro aconteceu depois de 31 anos, o livro “Jardins da Provocação”, que menciono no texto estava com um autográfo de Willer, de 1981 para meu pai Dailor Varela( já falecido). Na época, eu tinha 01 ano.

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  13. e mais – q fazia o ‘dias circulares’ entre os best-sellers de uma livraria comercial como aquela? na época, eu só encontrava seus livros na kairós e outras pequenas livrarias alternativas.

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  14. Posted by Eduardo on 29/05/2012 at 12:41

    Recomendo:

    “Voy a quedarme aquí todo el tiempo que haga falta. Estoy esperando la casualidad de mi vida, la más grande, y eso que las he tenido de muchas clases.
    Si.
    Podría contar mi vida uniendo casualidades.”

    Los amantes del circulo polar

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  15. Posted by deco on 29/05/2012 at 18:51

    um caso, com acaso

    em gullar (com acaso, menina e alguns tantos)

    O homem branco acomoda-se na poltrona. A sala faz uma longa inspiração ao seu entrar. Ele olha, agradece o boa noite, responde, sorri sem dentes de tão educado. Apressa-se a menina a confortá-lo e ele parece gostar, mas então vem, invasiva, a tecnologia a lhe roubar o som, a criar ecos onde não precisa. Ele desgosta sem pudor: debocha, reclama, proclama. Ela tenta, ela arruma, ela charme, ela encanta, então deixa. O senhor tem todos os créditos – diz que vai na garganta e todos concordam. Então começa. E eu volto, instantaneamente, à maior experiência poética da minha vida e quase que não me aguento de vontade de abraçá-lo, mas me deixo quieto em meu sofá. Ainda era antes dos vinte quando soube daqueles versos: “turvo turvo a turva mão do sopro contra o muro” ainda hoje o talvez único verso que saiba de cor, bem mais que os meus. E foi numa noite tal essa, com algum vinho e total solidão, me pus a andar em pés descalços pela casa solitária com o livro amarelo em uma das mãos e o copo tinto em outra: li todo o sujo em voz alta, quase em grito, e então tive certeza: essa vida tem certas curvas que precisamos experimentar. A poesia fez, faz, deu, sentido em mim desde então. E ver aquele velho sobre a poltrona verde a dizer tais, como: “a arte só vale porque é uma coisa rara”, ou “só o que não se sabe é poesia” (então lembrei de barros) e “o poeta dá uma noticia ao mundo”, ou “a arte existe porque a realidade não basta”, ou “a arte não precisa explicação, é e pronto”, fez com que eu sofresse de infância. Houve então um quando em que o poeta falou do acaso, do acaso que há na vida “não está nada escrito, a vida é uma invenção. Pode dar certo ou pode dar errado: uma sequencia de acasos, um negócio meio aleatório”, seguiu dizendo que a vida vai se formando da relação do acaso com a necessidade e que “fazer poema é fazer do acaso uma necessidade. Assim é o quadro, assim é a arte, assim é a vida. E, a cada palavra no poema o acaso, ou o imponderável, fica mais restrito”. Sim Ferreira, assim é a vida, parece que além de versos o senhor acerta filosofias. Mas o silencio se fez branco por profundo quando ele, por algum acaso, por algum querer explicar como dança o verso ao questionado por algum matemático, citou Drummond num verso que agora colo do meu antologia: “Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio” e isso com uma moça ao fundo que por trás dos óculos deixou cair um sorriso e fechou os olhos e então, antes de tomar nota, deve ter lembrado uma tarde de maio, ou de abril, ou de junho, que passou com quem ama ou com quem quer amar ou com quem amou e por um breve ou um verso deixou a sala e flutuou longe para onde mora o azul. Pois tive o azar ou a sorte ou a sina somente de pegar aquele momento menina e então todo o resto da noite ficou mais quieto ou mais triste ou mais fundo porque tive em um segundo o silencio de um poeta e o planar de uma menina e então devo confessar que deixei de ser o mesmo pelo resto da noite. E se agora tento, com meu cabernet, voltar àquele silêncio, àquela tarde de maio de Durmmond por Gullar por ela por mim ainda em penúltima noite de abril é só por que de uma forma qualquer aquilo me fará bem por esse maio, junho ou quem sabe. Qual era o seu nome? Preciso perguntar a Ferreira. Havia um nome na lousa. Será que nomes em lousa são como os nomes em gaveta e perdem-se na profusão das coisas acontecidas? Não, creio que não: um nome em lousa se vai muito mais rápido e quieto que um nome em gaveta: na velocidade de uma próxima aula, enquanto o outro nem na “profusão das coisas acontecidas… noites riscadas à giz.” Mas antes, ou durante o estar daquele nome ali brilhando e daquela moça ali entre sorrisos e poemas o poeta disse sobre as artes e disse sobre os seus espantos, de doze em doze, uma dose de espanto e então um livro e que o espanto vem de um jasmim que o surrou ao atravessar a rua ou vem de um osso contra outro osso ou do toque na perna da companheira ou do ver a menina caminhando e sorrindo leve e cruzando as pernas e riscando a lápis e olhando longe e ajeitando o óculos ou de um punhado de grama no meio de praça ou de uma pedra perdida na infância. “O que deflagra o poema é um fato que nos tira do equilíbrio”. É o espanto que causa poema, que causa vida e alimenta e tenta e quase sempre consegue. E parece que a vida vai de espanto em espanto, de verso e(in)m verso, de poema em poema, e cada vez ficamos maiores, maiores ao ponto de poder dizer “uma sala no fundo do chão” e isso fazer completo sentido. O branco poeta chega a um tal ponto de grandeza que cada frase sua faz um verso mesmo sem que ele o saiba ou o queira realmente e os de cá tomam nota para poderem se espantar no abrir do caderno que ficará perdido por séculos ou semanas, ao lado de naras, veras, livias, gabrielas, em alguma gaveta entreaberta da lida.

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  16. Posted by Evandro Rota on 30/05/2012 at 13:03

    É comum estás coincidências acontecerem comigo. Existe uma frase de Nelson Rodrigues que diz: “Deus está nas coincidências”, e eu tenho estes fenômenos como momentos de transcendência da nossa realidade.
    Muitas vezes concentrado em canções que componho, andando pelas ruas, ouço as pessoas falarem sobre o mesmo tema da canção que estou trabalhando, de maneira que consigo extrair muitas ideias destas conversas paralelas.

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  17. Posted by Berta Oliveira on 05/06/2012 at 14:21

    Entre muitas coincidências e convergências não são poucos esses acasos pra lá de objetivos. Uma maioria quase insignificante para a maioria dos mortais, mas que enchem de prazer o cotidiano de quem os percebem. Deixo na lista mais um dos causos fúnebres:

    Um dia comum acordei cantando. Achei que fosse efeito do dia ensolarado que se anunciava já desde cedo. Era uma música da minha infância que falava de jangadeiros. Descendo pro café da manhã e ainda cantarolando pedi ajuda à minha mãe para identificar o autor. Era Dorival Caymmi. Ficamos as duas a cantar suas músicas entre chás e pães. Após um dia normal de trabalho, de noite ligamos a tv, algo um pouco raro na nossa rotina comum.

    E de repente Fátima Bernardes anuncia : morreu nessa madrugada nosso querido compositor Dorival Caymmi. Nos arrepiamos as duas no mesmo instante.

    Mistérios entre morte e vida, esses laços desconhecidos que tecem nosso tempo e nossas relações. Espaços, espasmos, passos, compassos e o que mais couber.

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  18. nossaaa! que maravilha tantos casos.também tenho muitos sobre o que prefiro chamar de sincronicidade, aquele estado no qual deveriamos viver, mas perdemos e , quando acontece, nos espantamos. acabar de escrever uma materia sobre Villa Lobos , ligar o radio e – qual a enorme margem de probabilidades?- ouvir Trenzinho Caipira.Aparecerem borboletas quando alguma coisa boa acontece ou vai acontecer. E o Piva, de quem me aproximei nos ultimos meses de vida, e depois mudei minha tese de doutorado. Além disso, estava lendo “Mala na mão&…” quando vejo lá um trecho do Shodoka, o canto do Satori imediato, – o texto sagrado essencial do Zen.
    Estava na minha cabeceira, não popr acaso, claro,eu relia, ganhei em 1994 de um amigo, jornalista policial, por incrivel que pareça, quem me apresentou o budismo. Ari de Moraes, o Napoleao, já havia morrido. O texto: “No meio do eternamente sereno/nada de questões ociosas”.

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  19. Posted by Máh Luporini on 07/06/2012 at 21:11

    Engraçado como tudo isso aconteceu, estou a escrever meu segundo livro de poemas já uns 2 anos, e no início ele era divivido em três partes, a última seria ‘poemas reciclados’ uma releitura do meu primeiro livro ‘ausências’, depois de várias opiniões, releituras e mexidas, resolvi excluir a última parte, e não tinha mais nada guardado em relação ao mesmo. Dias atrás, um amigo que eu tinha mandando meu livro por e-mail, logo que eu escrevi, para fazer um breve depoimento sobre meu trabalho, ao qual quando fui buscar a surpresa ele tinha imprimido o livro todo e a última parte também.
    E estava querendo publicar a última parte, só que como eu não tinha mais nada guardado deixei para lá. Agora me aparace novamente. Vou publica-lo.

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  20. Nadja, de onde? Da mística maçônica irlandesa? Está também em Beckett, ou é engano meu? Sou cheio delas, pode ser Najda. O Deus a colocar em contato a mente com o cosmos, através de um chapéu. Foi em “Eu não!”… Pode ser. Um amigo tentou informações, chegou na Inglaterra, mas não conseguiu entrar na sociedade mística irlandesa. Já havia me esquecido; agora vem o Chiu com a palavra Nadja em caminhão (em trânsito), em placas (indicação de destino) e loja (local de troca). Sigamos os rastros…

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  21. só para corrigir: sou cheio deles.

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  22. Posted by Carlos Pinheiro on 08/06/2012 at 15:58

    Willer, ontem recebi a mensagem tua sobre o tema deste post e da noite de ontem para hoje tive um sonho curto contigo. Lá vai: Eu me encontrei sentado num banco no interior de um ônibus qualquer. De repente, você passou pelo corredor juntamente com outro cara mais jovem do que você. Ele era gordo tal qual um americano adorador de hamburgueres. Só que não lembro qual dos dois me viu e disse o
    meu nome para o outro. Em seguida, um da dupla ainda perguntou com um certo desdém para o outro do tipo: “quem é mesmo está pessoa?”. Novamente, o meu nome falado por um dos personagens.

    Quando examinei ambos, notei que você pareciam o Indiana Jones. Trajavam aquelas roupas cheios de cantil, facão, cordas, etc. Tive a impressão que vocês seguiriam para alguma aventura qualquer.

    Um forte abraço.

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  23. Posted by Eliane Boscatto on 15/06/2012 at 12:15

    Olha, eu não sei se meu relato tem a ver com a proposta , mas vou ser o mais franca possível.
    Sempre ouvi falar em surrealismo, mas não sabia bem o que era, sabia apenas que fazia parte do mundo da literatura e meu mundo era outro, aquele mundo chato e sem graça do “ganha pão diário” que não me deixava tempo para mais nada, tinha até parado de ler.
    Sempre gostei de escrever, pelo menos tirava boas notas em redação na escola, mas nunca tinha me atrevido a escrever poesia, achava muito difícil e ainda acho, porém gostava de poesia, embora tenha parado de ler poesia havia muito tempo.
    Fui, digamos, me familiarizar com o surrealismo quando fiz a primeira oficina com o Willer e então, me arriscar a escrever poesia. Sem entrar no mérito de ter tido algum sucesso ou não no meu intento, percebi aí que gostava mais de poemas que associavam o homem com a natureza. Mas no início achava que isso não tinha nada a ver com o surrealismo e relutei bastante em divulgar minhas tentativas para o grupo, até fazer a segunda oficina com o Willer sobre “os poetas da natureza”. Fiquei feliz em saber que tinha sim tudo a ver , que Hilda Hilst fazia parte desse mundo e me encantei entre outros, com Lautréamont, até o nome dele é gostoso de pronunciar. Ainda tenho muito que ler e aprender sobre o surrealismo, onde a dualidade das coisas que para mim é tão atraente, está tão presente (a rima foi sem querer).

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  24. Todos os relatos são impressionantes e primorosos, fiquei encantada com sua leitura. Especialmente com o episódio citado pelo Willer sobre o “fantasma de André Breton “aparecer” nas ruas de São Paulo num caminhão de mudança,como um aviso de sua morte, tendo por testemunhas Roberto Bicelli e Roberto Piva. Isto é um filme ou merece se transformar em um, a começar pela imagem impressionante do lençol ao vento…Signo fantasmagórico por excelência. De arrepiar….

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  25. Em outro lugar, anotei que sempre quis ser cronista.
    Julho de 1999.
    Passei uma semana ou uns 10 dias em uma fazenda em Mato Grosso, convidado por um amigo, o cineasta João Callegaro. Perto de Xavantina e do Rio das Mortes, quase sopé da Serra do Roncador. Extensões do Centro-Oeste, aqueles horizontes luminosos e o perfil tão plástico e poderoso da serra. O Rio das Mortes, que beleza, água escura bem limpa, atravessando mata virgem.
    É uma terra de lendas e seitas. As famosas inscrições na pedra, os Martírios. Índios e colonos, convivendo – nenhum cenário de horror como os de Mato Grosso do Sul ou do Bananal, não vi degradação ou miséria extrema. Histórias de xavantes albinos em outra serra na região, fomos lá. Visitamos uma comunidade pós-hippie, simpáticos naturalistas, construção em círculo. Instalados ou acampados na região, seitas e grupos esotéricos para todos os gostos. Inclusive os ligados à Sociedade Teosófica e à Eubiose – acreditam em passagens para o centro da Terra e nas histórias sobre o retorno do Coronel Fawcett, não fui vê-los, isso de mundo no interior do planeta vem das sociedades do Vril e ordem de Thule, influentes no nazismo, e o antissemitismo já está em Madame Blavatski, que postulou uma raça superior. Ademais, Fawcett não sumiu em uma gruta. Quando estive no Parque do Xingu em 1967, os Kalapalo visitaram o posto, perguntei: “Fawcett…?”, o intérprete apresentou-me o índio velhinho que lhe aplicou o golpe final de borduna – se bem que, com os índios, nunca se sabe, apreciam fabular e há também a versão de que foram os Camaiurá e o esqueleto está no fundo da lagoa – de qualquer modo, Orlando Villas-Boas endossou que o explorador inglês havia forçado a mão, tentado obrigar índios a levá-lo a território inimigo (dos Suiá ou Juruna, Xingu abaixo) e por isso foi executado.
    Luzes misteriosas e objetos celestes, óvnis e ETs, discos voadores e extraterrestres são tema constante na região, e não só entre esotéricos e adeptos. Um eufórico prefeito de Barra do Garça fez construir pista de pouso para óvnis no alto de um morro, perto dos banhos termais. Parece que todo mundo já viu algo. Domingo, fim de tarde, conversava sobre isso com Callegaro. Comentou que era comum pessoas enxergarem luzes para os lados da serra. Cruzamos com um empregado da fazenda: “Como é, e as bolas de fogo? Você tem visto muitas?”, perguntou meu hospedeiro. “Não, essa semana não apareceram, não vi nenhuma…”, respondeu. Vejam só – subentendido na resposta, aparecerem a toda hora.
    Depois dessa conversa, voltamos à sede da fazenda, extenso casarão térreo. Quando saí do quarto e entre na sala, o televisor estava ligado. Transmitia o Fantástico. Justamente, naquele exato momento, quando passei em frente, vejam só, mostrava um segmento sobre avistamentos de óvnis por tripulantes e passageiros de aviões. Um ministro, não me lembro mais qual, que havia visto algo acompanhando seu vôo, por um bom trecho. Pilotos e copilotos, vários. Bolas de fogo, charutões luminosos, discos. Gente da Aeronáutica rompendo sigilo – relatórios sobre esses encontros existem, mas são reservados.
    Não assisto ao Fantástico. Aquela hora daquele domingo, do milhão de pautas do programa, darem aquela. O que conversávamos há pouco estava sendo grifado.
    Extraterrestres (ou o que for, visões, energias nossas, coisas da terra, meteoros diferentes, balões), nunca chegaram a me fascinar ou apaixonar. Não sou contra, pode ser que existam, já vi uma luz oscilando sobre a Represa Billings, talvez fosse ilusão de ótica (meteoros, satélites e avião em linha reta podem dar a impressão de ziguezague), mas foi noticiado nos jornais um avistamento na região do ABC naquele fim de semana. As bolas de fogo na região da Serra do Roncador também podem ser fogo-fátuo, alguma emanação da terra. Tenho um amigo ufólogo. Misteriosíssimo. Roberto Piva também era – freqüentou grupos, colecionou bibliografia, publicou poema em Ciclones dedicado a Jacques Vallée (o consultor de Contatos imediatos de Spielberg), emprestou-me livro dele (que horror, os episódios de abduções e de mutilações, parece conto de Lovecraft, muito malvados alguns desses alienígenas).
    André Breton disse que acaso objetivo é expressão e materialização de um desejo, projeção do desejo na realidade. Mas como? O que desejava eu, para merecer essa mensagem? O episódio é estranho pela gratuidade aparente, por eu não ser pesquisador, nem mesmo interessado – tenho bastante histórias estranhas, mas de outra ordem, escrevi um livro em torno do acaso objetivo, Volta. Não procurava nada naquela fazenda, na região, no Roncador, no Araguaia – só queria sair, ver / rever paisagens. Tomar banho nas termas de Barra do Garça, 23 anos depois, isso sim.
    Ou então, o desejo não era meu. Algo, alguém ou algum outro, transmitia uma mensagem, até hoje indecifrada. É para eu voltar ao Roncador, a Xavantina? Se fosse ficcionista, terminava este relato com a campainha da porta tocando e um extraterrestre chegando aqui de repente, algo assim.

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  26. O “acaso objetivo” me remete à literatura fantástica, cuja margem de erro do resultado, para falar na linguagem decadente das ciências, cuja epistemologia não se resolve hoje em dia, e à sua imbricação, linha tênua e “casualidade” com o texto literário do surrealismo. Não sei se já foi dito por alguém, mas tenho a impressão de que enquanto Borges foi fantástico ou surrealista nos símbolos, Cortázar teria sido surrealista no cotidiano, ou de forma objetiva. Quem teria sido surrealista e como um escritor teria sido surrealista recebem respostas no “Manifestos do Surrealismo”, do Breton, com prefácio do Willer (e adoro a classificação de que Victor Hugo teria sido surrealista quando não tivesse sido bobo; e que Baudelaire teria sido surrealista na moral – Ed. Brasiliense, São Paulo: 1985, p. 59). Uma série de “acasos objetivos” podem ser encontrados nos textos do Cortázar, com a literatura fantástica inserida no cotidiano humano e da sociedade. Segue um exemplo abaixo, para não dizer que não falei de argentinos sem me esquecer de falar dos gatos – como disse Da Vinci, “o menor felino é uma obra-prima”.

    DEL SENTIMIENTO DE LO FANTÁSTICO

    Esta mañana Teodoro W. Adorno hizo una cosa de gato: en mitad de un apasionado discurso, se quedó inmóvil y rígido mirando fijamente un punto del aire en el que para mí no había nada que ver hasta la pared donde cuelga la jaula del obispo de Evreux, que jamás ha despertado el interés de Teodoro. Cualquier señora inglesa hubiera dicho que el gato estaba mirando un fantasma matinal, los más auténticos y verificables, y que el paso dela rigidez inicial a un lento movimiento de la cabeza de izquierda a derecha, terminando en la línea de visión de la puerta, demostraba de sobra que el fantasma acabara de marcharse, probablemente incomodado por esa detección implacable. (…)

    Julio Cortázar – La vuelta al día en ochenta mundos – Tomo I – Siglo Veintiuno Editores

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  27. Sobre seu último relato acima, vide comentários. Talvez hoje Breton afirmaria um pouco diferente a sua assertiva e indagação. Sim, o acaso objetivo poderia ser expressão e materialização de um desejo, porém – não como projeção do desejo “na” realidade. Se é objetivo e materializado, trata-se, pois, da própria criação da realidade. Quem já teve um gato conhece o fenômeno natural e verificável, objetivamente real, sobre o qual Cortázar relata. Projeção ou representação da realidade representaria, ao meu ver, o conceito superado de “mimesis”, porque a “poyesis”, ou o texto literário, como autônomo em sua existência – porque não saberíamos dizer peremptoriamente, e nem poderíamos tanto, como e se um texto ou o escritor existiria, mas certamente saberíamos dizer como o texto nos afeta – não representaria a realidade, mas,sim, criaria realidades; e resolvo a proposição, para mim, socorrendo-me com o auxílio da fenomenologia…

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  28. Elizabeth Lorenzotti

    Porque estou escrevendo uma tese de doutorado em Letras sobre poetas paulistas nos anos 1960, especialmente Piva e Lindolf Bell, fui atrás do “26 poetas hoje”, antologia organizada por Heloisa Buarque de Hollanda em 1976.

    Eu tinha esse livro, mas há anos mandei para um poeta carioca que consta da antologia.
    No fim do ano passado fui ao Rio e ele me devolveu. Na sua estante, vários livros autografados pelo Piva.
    Já bem despedaçado, leio uma dedicatória:”Para Bia, não me pergunte por que, com uma planícei de sonhos verdes e arrepiados no entardecer. Amore/Ricardo Redisch/6/80″.

    Eu me lembro de ter comprado esse livro em um sebo. Eu me lembrava vagamente de uma dedicatória.
    Só não sabia que, anos depois, conheceria, no lançamento de um livro, o próprio autor, que foi amigo do Piva e não mora mais no Brasil.

    Somente no Rio,meses depois daquele lançamento, relendo essa dedicatória, me dei conta.
    Ah essas sincronicidades em torno da poesia, que maravilha!

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  29. De Marcelo Marcus Fonseca – enviado por e-mail, publicado no blog do Teatro do Incêndio e acrescentado por mim aos comentários, assim fechando-os:
    Dioniso Psicopompo
    Contemplo por um instante a imagem do meu Orixá. Passo a vista rapidamente nos últimos dias e vejo do que o acaso objetivo é capaz. Quarta recebo uma música, quinta encontro um amigo que também é amigo do rapaz que me mandou a música. Quinta nos encontramos os três por acaso. O rapaz da música, Bruno, diz que quer me dar uma imagem do meu Orixá e pergunta onde me entrega. Respondo que é no meu lugar sagrado: em cena. Combino com o outro moço uma visita a sua casa na sexta feira, antes do espetáculo.
    Na viajem até o terreiro, eu e minha companheira nos perdemos 3 vezes em estradas diferentes, estradas que eu nunca tinha visto. Sem perder o humor, o dia era de sol, o mato em volta. O trajeto que deveria durar 30 minutos até o lago de Oxum dura mais de duas horas. Quando chegamos tudo fazia sentido no lugar.
    Na volta o transito da marginal não fazia diferença e a pressa sumiu. Até sono, em dia normal de excitação rumo a peça.
    Na porta do teatro aparece o rapaz com a imagem de Osoguian enrolada em um pano e banhada e peço pra ver só em cena. Ele não quer que eu diga seu nome em cena, porque acha que está ali com um propósito maior. Usa as cores de Exu, o Mercúrio, a ligação entre o material e o espiritual, a ponte entre os mundos.
    Peço a minha companheira de estrada pra anunciar a imagem ofertada a mim e a meu personagem. E mudo pra sempre o final da peça. Onde entregávamos para a cidade seu luto de volta, Back to Black, passamos a entregar comunhão depois de tudo que é dito, depois de um mergulho nas agressões a poesia que essa metrópole causa, como disse o meu amigo Braz “é esse lixo todo empurrando a poesia para a margem”. Público e elenco sentiram que a calma se estabeleceu. E descobri que precisávamos ter passado pela violência contra nós mesmos antes para aparecer seu contrário, nosso desejo de harmonia.
    Nem sempre isso é possível. Fazemos coisas por necessidades circunstanciais que desagradam nossos afetos, enquanto tentamos achar saídas para que as coisas se endireitem a médio prazo. Nem sempre tudo é possível. Aliás, o que é possível nem sempre é o que queremos. Mas tentamos. É um exercício tremendo aceitar. E saber guerrear quando preciso.
    Não mudei o final da peça. O Acaso mudou. Era pra ser só uma cerimonia de entrega de uma imagem em um dia e depois tudo voltaria ao normal. Não foi assim: a sensação de todos não deixou dúvidas que o caminho certo era incorporar essa nova visão ao projeto que nos engoliu ha mais de um ano. Ao final da peça Dioniso deixa sua herança a partir de hoje para toda pessoa que participar do ritual. Ao invés de de volta ao luto, de volta a vinha. É o Dioniso Psicopompo, que se impôs pelo recado mandado pela natureza, por uma tradição que vem de mais de 10500 anos, pelas águas, pela terra, pelas conchas. Pela sensibilidade de pessoas que pouco conhecemos. Axé Motumbá!

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  30. Posted by Ana Cristina Joaquim on 02/12/2012 at 18:47

    Querido Claudio!!

    Por ocasião dos emails que trocamos, estive a frequentar os acasos relatados no seu
    blog e – tenho de fazer uma confissão- diante de um deles em particular, aquele, em que o Chiu Yi Chih dizia ter visto a palavra Nadja com alguma frequência após a leitura do homônimo de Breton (leitura, ele dizia, motivada por um curso seu), nutri grande desconfiança. Pensei com má fé: “esse relato está mais para uma criação objetiva…”.

    Eis que… nesta segunda-feira, 26/11/2012, sentada na sala de espera do consultório ginecológico, ao folhear uma revista de moda, me deparo com a publicidade de uma marca de roupas ou de um desfile de moda (já não me lembro bem): ‘NADJA’, assim mesmo grafada, em caixa alta. A desconfiança, embora um tanto abalada, se mantinha ainda, manifestada no seguinte pensamento: “Olha só… Nadja não deve ser uma palavra… assim… tão incomum…”.

    Ainda isso (para o meu completo espanto): nesta quarta-feira, 28/11/2012, numa conversa com uma amiga sobre a possibilidade de uma cerveja neste sábado, eu disse: “Vamos ligar para a Nat!”, ao que ela perguntou: “Nadja? Quem é Nadja, não conheço!!”… eu expliquei, então, ser uma musa bretoniana, bem como expliquei – ao mesmo tempo que me convenci de- os acasos em que essa palavra me enredou nos últimos dias…!!! Poxa, viu. Não foi sem alguma insistência que eu mergulhei nesse processo de objetivação dos acasos, certamente, disparados pelo nosso diálogo do último fim de semana…
    Beijos, beijos.
    Ana

    Responder

  31. Vou relatar o exemplo mais significativo de Acaso Objetivo que vivenciei recentemente. Relato em partes:

    1. Há uns dois meses sonhei com um elefante num festival indiano. O sonho me inspirou a crônica “Sonhar com elefante”, publicada na Folha de Londrina em 19/08/2012..

    2. Dei enorme valor ao símbolo na ocasião do sonho, era muito instigante chegar tão perto daquele animal todo enfeitado. Passado o tempo, esqueci completamente o assunto.

    3 . Esta semana postei no Facebook o poema Xamânico.

    4. Por causa do poema, Alex Hémonos – que vive no México e eu nem conhecia – comunicou-se comigo, me convidando a participar do projeto Memories – World Festival of Poetry que consiste na realização de festivais em “santuários poéticos” de vários países do mundo, lugares que geralmente são sítios arqueológicos ou locais históricos. Além disso, os poetas são publicados numa antologia, eles já fizeram dois livros assim.

    5. Em agradecimento ao convite do Alex, postei um pequeno texto no Facebook falando do projeto com uma foto de Gregory Colbert de uma mulher com um elefante. Mas nem me ocorreu a ligação com o sonho.

    6. Minutos depois, Alex me escreve inbox para dizer que a foto o tocou profundamente, porque havia dedicado a mim e a outras pessoas – incluindo Claudio Willer – um post na página em que ele divulga os projetos. A foto que ele postou é exatamente a de uma mulher com um elefante tendo, portanto, o mesmo tema da foto que escolhi.

    7. Mais: eles se preparam para fazer em 2014 um festival em Jaipur (Índia) numa cerimônia que consiste em declamar poemas para os elefantes. Me convidou para participar, às minhas próprias custas, claro. Não sei se consigo ir, mas até aqui o episódio já valeu. É por demais intrigante esta série de acontecimentos e se não estivessem acontecendo comigo mesma, nem sei se acreditaria em tantos acasos.
    Só posso achar que há no universo uma conexão à qual somos realmente ligados.

    Se vou participar do festival de poesia em Jaipur não sei, mas posso afirmar que estive lá em sonho há uns dois meses e dois anos antes dele acontecer efetivamente…rs

    Responder

  32. thanks for this interesting contribution, obrigao!

    Responder

  33. Acaso objetivo entre Breton, Piva e eu:

    No dia 19/06/13 ás 08h57 da manhã, esta que vos escreve estava saindo de casa com meu marido Marcio Calixto para trabalhar, quando ao passar pela rua Canuto do Val (onde o poeta Roberto Piva morou) no bairro de Santa Cecília passa por nós um caminhão de mudança com a marca ‘Breton’. Bela conexão para começar o dia,
    Breton actual é uma loja de decoração criada em 1967 e tem sua loja dentro do D&D Shopping, na chacará Itaim em São Paulo-SP.

    Segue o link do site:

    http://www.breton.com.br/site2013_/produtos.php

    Abraços, mestre!

    Responder

  34. Posted by cmusilli on 23/02/2015 at 18:45

    No dia 14 de fevereiro de 2015 fui a uma Mostra de Performances realizada pela Companhia Taanteatro em sua sede rural. Na verdade, era a apresentação do resultado de uma oficina de dança que o grupo havia feito. No meio da Mostra, estava na plateia quando uma bailarina que interpretava um pássaro parou na minha frente e deixou cair no meu colo uma pedra que ela carregava na boca. Imediatamente, pensei que a pedra se chamaria “o ovo de Paloma” pois este era o nome da artista. Aquilo teve um sentido especial porque desde criança coleciono pedras, tenho várias que recolhi ao longo do tempo e que são muito significativas por se ligarem a lugares onde estive ou porque me atraíram de alguma forma.

    Alguns dias depois de ganhar “o ovo de Paloma”, estava lendo O Surrealismo, de Sarane Alexandrian, e cheguei ao capítulo onde ele fala da importância dos objetos para os surrealistas, a partir de várias categorias que vão desde o Objeto Encontrado até o Objeto Fantasma. Entre os Objetos Naturais, ele diz que as pedras são as que têm mais significado, a ponto de Breton organizar passeios em grupo para encontrá-las. Breton afirma num de seus textos: “As pedras – as pedras duras por excelência – continuam a falar àqueles que querem ouvi-las. Dirigem, a cada um, uma linguagem à sua medida: através do que ele sabe, elas ensinam-lhe aquilo que ele deseja saber.”
    Esta série de acontecimentos teve para mim um enorme significado por me lembrar da minha da infância e da minha coleção de pedras. No mesmo dia, procurei duas pedras importantes da minha coleção: uma pedra da lua, leitosa e cintilante, que abre prismas de cores variadas conforme a incidência da luz, e uma pedra ferrosa que tem a marca de um fóssil, uma concha, que encontrei no mirante da Chapada dos Guimarães (MT) há 18 anos. Além das pedras, lembrei-me tb da sua “coleção de acasos objetivos” e por isso trouxe mais essa história aqui.

    Responder

  35. Eu havia comprado um livro pela Amazon intitulado “Women of the Beat Generation”, escrito por Brenda Knight. Ainda não sabia que o Willer estava escrevendo seu “Geração Beat”, mas fiz um xerox do meu para lhe enviar. Mas esse xerox, por desorganização minha, ficou em minha sala na universidade por uns dois meses, até que uma amiga residente na California mandou-me, de presente, um exemplar desse mesmo livro, sem saber que eu já o tinha. Então enviei um livro “de verdade” para o Willer, ao invés do xerox. Consta que ele já tinha mandado seu manuscrito para a editora, mas pediu-o de volta para citá-lo. Creio que isso seja um exemplo de acaso objetivo que se fez objeto. Si, yo creo em brujas.

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