Tabagismo e antitabagismo; informação e controle

Repito, antes de qualquer outra coisa: concordo com a proibição de fumar em lugares públicos fechados, com o veto à infame propaganda, com os alertas sobre malefícios etc. Mas sou a favor, muito mais, da informação correta. E contra o histerismo coletivo, ou até mesmo sua sombra.

Havia lançado dúvidas, em outra postagem –https://claudiowiller.wordpress.com/2012/05/12/tabagismo-sete-argumentos/ – sobre os dados relativos ao custo do tabagismo para a saúde pública. Ou seja, de que fumar acarreta despesas que são pagas pela sociedade. Não desenvolvi o argumento por me faltarem números. Ontem, 31/05, Dia Mundial sem Tabaco, os números de que precisava apareceram. Jornais da manhã deram que fumar onera o sistema de saúde pública em 25 bilhões de reais por ano. Nos noticiários da noite, na Globo, um número algo menor: 21 bilhões de reais. E uma informação importante: essa despesa corresponde a 30% do orçamento do SUS.

Agora sim, dá para discutir. E para mostrar o erro lógico dessa informação. Esse número – os 21 bilhões de reais por ano – só estaria correto se não-tabagistas não onerassem a saúde pública de modo algum. Os fumantes que vão parar no atendimento médico por males provocados pelo tabagismo fazem parte de um grupo – idosos, pessoas com mais problemas de saúde etc – mais oneroso para a saúde pública. O procedimento correto: a) calcular o custo dos tabagistas para a saúde pública; b) calcular o custo de uma população equivalente de não-tabagistas para a saúde pública; c) subtrair um valor do outro – essa diferença seria o custo real do tabagismo para a saúde pública, certamente bem menor do que esses 21 bilhões.

Onde quero chegar:

  1. É imoral usar estatísticas de saúde pública para discutir tabagismo. A não ser que se pretenda constituir um tipo ideal, alguém que nunca adoeça e que morra de infarto fulminante, se possível antes dos 70 anos de idade: nesse caso, além do custo zero para o sistema de saúde, também não oneraria a previdência social.
  2. A variável importante a ser levada em conta não é quantitativa, porém qualitativa: o sofrimento, difícil de medir ou traduzir em números. Sofrimento de quem fuma e adoece, sofrimento de quem largou de fumar, sofrimento de quem não fuma e adoece. O grande sofrimento geral de quem tem que recorrer à saúde pública no Brasil – e à privada também: bolsos e saldos bancários também sofrem , e os convênios estão falhando.
  3. Teria que ser gasto muito mais em saúde pública no Brasil: para fumantes, para não fumantes, em programas de prevenção, na melhora de equipamentos e atendimento – assim evitando agravamento de quadros clínicos e tratando logo de quem precisa, para que todos, doentes e profissionais do sistema, percam menos tempo. Investimento: o custo que resulta em redução futura de custos.

Havia comentado, na postagem anterior, que não preciso criar um personagem, o paranoico anti tabagista. Já existe: é o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, que proibiu cigarro em qualquer lugar público, e isso no país onde, até há pouco, fumar cigarros era mais incentivado… (por enquanto não irei a Nova York, não porque fumo, mas por atitude política). Agora, Bloomberg proibiu – vi nos mesmos noticiários – a venda de litrões de refrigerante, para combater a crescente obesidade.

Já se escreveu bastante sobre controle na sociedade moderna, sobre totalitarismo disfarçado. Não preciso repetir. Diria, apenas, que seria bom se alguns governantes demonstrassem mais confiança no ser humano. Se entendessem que a sociedade não é composta somente por idiotas que precisam ser tutelados. A humanidade evolui, aos poucos (mesmo sendo um romântico, também sou iluminista). População de fumantes não caiu de 40% para 15%? Vendas de Coca-cola não se reduziram expressivamente nas últimas duas décadas? Não pararam de servir hamburguer com bacon nos refeitórios escolares? Informação, esforço pedagógico, sim – desde que não seja baseado em estatísticas enganadoras, como essa dos custos do tabagismo. Demagogia do tipo fascista, não – mesmo setorialmente, no tratamento de questões específicas. Chega. Já vimos o suficiente disso.

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5 responses to this post.

  1. Muito bom, concordo Sim, aA sociedade não´é composta somente por idiotas que precisam ser tutelados.Em geral quem está no governo é que precisaria.

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  2. Fecho em gênero, número e grau, Willer. Você verbalizou muitas coisas que sempre pensei e ponderei. Reconheço o quanto é difícil apontar o dedo para esse discurso fascistóide sem passar por fumante inveterado que não liga para a saúde pública… O pior é que, para meu desgosto, como muitas outras coisas aqui no Brasil, o discursinho é copiado ipsis litteris dos Estados Unidos! Essa visão puritana/autocrática da vida tem penetrado a sociedade brasileira de uma maneira horrorosa, especialmente via seitas evangélicas. Sempre achei que o antitabagismo ignora as duas questões fundamentais do problema:

    1) o interesse corporativo (pq permitem que as tabaqueiras aumentem artificialmente os níveis de nicotina do tabaco, para manter seus clientes viciados? por que permitem a inclusão de mais de 400 aditivos ao cigarro? Agora proibiram os “sabores” ditos “infantis” – outra cópia dos EUA, mas é pouco. Quero saber é por que não proíbem a adição de gasolina ao papel do cigarro? Por causa do ISS, claro. Mas há mais caroço nesse angu.) E

    2) a condição humana. Fumar não é apenas um “vício” em nicotina. Há todo um drama envolvido, uma atitude, um jeitão, uma coisa sobre a qual nunca li um só estudo! Eles estudam tudo no vício – o estrago que faz no pulmão, todas as doenças que pode ocasionar, o “custo” para a saúde público, o mal feito aos não fumantes etc etc. Só não estudam PORQUE CARALHO continuamos fumando! É evidente que, pelo menos no meu caso e no caso de outros amigos fumantes, o fumar incorporou-se à persona do fumante e o vício permanece para além da necessidade de nicotina. É a condição humana, porra. Coisa que puritanos/autocráticos não gostam de examinar de perto.

    Perdão, quase escrevi outro artigo aqui… 🙂

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  3. muito bom Leda Beck!

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  4. Posted by Márcia Fernandes on 02/06/2012 at 19:41

    Eu fumo

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