O mais recente – e último, espero – libelo contra a censura

O escritor Marcelo Rubens Paiva postou artigo em seu blog repercutindo minhas denúncias de censura no Facebook, em http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/o-que-e-censurado-pelo-face/ . Fez um bom trabalho jornalístico. Foi ao Google, achou, copiou e reproduziu imagens que haviam acarretando suspensões e outros constrangimentos a quem as pôs na rede social. Incluem: a capa de um disco; capas de revistas; o cartaz de divulgação de um filme; a foto de Ingrid Bergman segurando um chicote; material de divulgação de peças teatrais; obras expostas em museus; ilustrações de matérias na grande imprensa; fotos famosas; o obelisco do Ibirapuera….

Nos comentários do blog, aparece gente a favor de uma coisa dessas. Alguns, com o argumento, intelectualmente sublime, de que o Facebook, sendo uma empresa privada, pode fazer o que bem entender. Há também este, que assina como “Naposi Nappo”:

Os revoltosos parecem crianças mimadas, revoltadinhas ao enfrentar um “não pode, vai ficar de castigo”. Me parece um movimento inspirado no maldito “politicamente correto”. Parece que falar em censura é algum pecado. Não é. Parece que defender a liberdade total é alguma virtude. Não é. O FB é frequentado por crianças, que não tem a menor condição biológica de exercer crítica. O FB é frequentado por todo tipo de gente, que vai ter enfiado guela abaixo imagens que, por princípios pessoais que devem ser respeitados, não deseja ver. O FB é site bacaninha de interação social, não um campo de batalha de pretensos artistas ou intelectualóides revoltados. O problema é com IMAGEM. Quem desejar coloca a descrição do que se trata num link externo, sem a maldita IMAGEM, e aquele que desejar ver vai lá. O princípo de que qualquer defesa da “não censura” é, por sí só, virtuoso é mais uma faceta da praga do politicamente correto, que transforma minorias mimadas em ditadores ranhetas. Que saco!!!

Quem será? O estilo irado parece um decalque do Pondé ou do Olavo. Ou de um pregador desgarrado. E sem noção do que diz – põe-se a ditar regras para cima de alguém que viu o horror quando criança e escreveu um livro, “Feliz ano velho”, que, ao ser adotado por jovens, alargou os limites do que podia ou não podia.

Outros também pensam assim, igual ao “Naposi Nappo”.

Pergunto-me onde estavam em 1974, quando trechos de Camões e receitas no Estadão e Jornal da Tarde substituíam as notícias sobre uma epidemia de meningite; em 1977, quando militares exigiram a destituição do editor da Folha de São Paulo, Claudio Abramo; em 1973, quando vi filmes e comprei livros em Buenos Aires porque estavam proibidos no Brasil; em 1971, quando amigos meus foram parar no DOI-Codi, denunciados por vizinhos, por se reunirem para criar uma revista underground. Onde estavam em 1982, quando formamos um comitê contra a censura por causa da proibição de Pra Frente Brasil. Onde estavam em 1988, quando fomos a Brasília levar nossas propostas à Assembléia Constituinte, inclusive, é claro, o fim da censura. Onde estariam em 1967, quando tive que argumentar com um censor para que liberasse apenas com alguns cortes meu espetáculo de poemas da Geração Beat, cruzando, na saída, com um desanimado Plínio Marcos, de quem não liberavam nada, nem leitura de poemas de Drummond. Onde estiveram em 1977, quando fizemos dentro da Faculdade de Direito a leitura de poesias que seria realizada no Largo São Francisco, mas havia sido proibida – pessoalmente – por Armando Falcão. Em 1978, quando publicamos no jornal Versus matérias sobre tortura de presos políticos: editei duas páginas de poemas tematizando a tortura.

O episódio de 1978, do jornal Versus, me valeu uma das minhas fichas no DOPS. Tive a oportunidade de pesquisar-me no Arquivo do Estado, onde esse material do DOPS estava ou está armazenado. As fichas informam pouco – remetem a relatórios que foram destruídos. Mesmo assim, atestam a imbecilidade daqueles agentes. Uma delas, por eu haver feito parte de uma mesa sobre lazer promovida pelo DCE da USP, em 1981. Qualquer coisa, se fosse no DCE da USP, burocraticamente, fichavam. Tanto fazia se o conferencista tratasse de música serial, tecnologia das bicicletas ou lutas camponesas –tascavam ficha, sempre.

Ações bem mais arriscadas – e públicas, algumas – não ganharam ficha. Incompetentes. Devo ter sido registrado por órgãos federais. Mas nunca poderei confirmar, pois os arquivos federais foram destruídos.

Em 1983, Marcos Faerman pediu-me, para a revista Shalom, um artigo analisando um manual de censura, uma apostila com instruções para censores. Conforme aquele manual, o movimento comunista internacional – MCI, abreviavam – queria enfraquecer as nações através da pornografia e da conseqüente liberalização dos costumes. Portanto, impediam o avanço do MCI ao barrarem a imoralidade, a difusão do sexo. Equiparavam comunistas e pornógrafos. Um raciocínio circular, típico das teorias conspiratórias.

Os censores do Facebook são assim. Iguais aos diligentes redatores de fichas inúteis no DOPS, ou dos manuais com instruções delirantes para censores. Não é propriamente a censura que combato – é a imbecilidade. A censura sempre perde, historicamente. Os poemas de Baudelaire censurados em 1857, o do vampiro, por exemplo, hoje figurariam em qualquer livro escolar. Mas a burrice, a estupidez crassa, a ignorância espessa, essas perduram. Desaparecem de um lugar para retornar em outro. Sua mais recente e ostensiva manifestação: a censura no Facebook; e os argumentos daqueles que a defendem.

Minha indignação contra esse tipo de coisa não é apenas moral, porém estética. Uma questão de bom gosto.

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5 responses to this post.

  1. Willer, seu texto é brilhante e cheio de argumentos claros sobre os absurdos da censura. Quanto ao senhor Naposi Nappo nem dá para levar a sério alguém que se esconde através de um provável pseudônimo, diga-se de passagem, tão ridículo quanto suas observações. Politicamente correto como é, ele deveria saber, inclusive, que o FB não é para crianças, está nas regras da rede social que faz vista grossa quando lhe interessa, o que mostra que seus critérios não existem ou não devem ser levados a sério porque são incoerentes. Parabéns pelo seu texto,e meus sinceros elogios à clareza do colunista Marcelo Rubens Paiva que se ocupou de um assunto que vem sendo levantado aos poucos pela mídia lerda ou omissa em muitos casos que saltam aos olhos, como este da censura no FB….um abço.

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  2. Exceletne artigo Willer. E, claro, a censura só existe porque tem respaldo de parte da sociedade, como esses tipos comentaristas

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  3. Posted by Eliane Boscatto on 15/06/2012 at 01:43

    Por coincidência perdi meu tempo lendo o livro desse Luiz Felipe Pondé e fiquei tão indignada com ele que escrevi um texto chamado “reflexões sobre o politicamente correto” que algumas pessoas, por alguns comentários que recebi, não entenderam e o site não divulgou para as redes sociais porque não costumam divulgar artigos opinativos. No texto não cito o nome dele e nem do livro porque sou “politicamente correta”…rsrsrs. Abraços.

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  4. Posted by Daniel Gambín on 15/06/2012 at 02:27

    A censura sempre perde, historicamente, como historicamente a estupidez crassa perdura. No fundo é o eterno confronto entre partidários de liberdades e de repressões. Em esta luta moral, algo que também sempre existirá é o caráter irado do conflito, já que de um lado o outro resulta algo intolerante.
    A defesa das liberdades irrita medíocres e vulgares como a limitação das mesmas altera e exaspera idealistas e defensores da «liberdade».
    Algo me diz que a monarquia francesa caiu porque era defendida apena pelas tropas, em contraposição ao nazismo e ao fascismo que avançaram devido ao apoio popular.
    Em estas disputas entra em jogo a relação de forças e é definido por esse apoio popular.
    Mas em relação à censura, uma diferencia que observo entre censores, como nos fichadores, está em que alguns poucos atuam em busca do poder e outros muitos atuam por convicções moralistas.
    Penso que os censores do Facebook são de estes últimos, assim como intuo que Facebook não controla seus censores e que o que está acontecendo com esta censura está fora do previsto. O que não tenho duvidas é que sempre existirão voluntários para fazer um policiamento moralista e que encontraram em FB uma oportunidade.
    Sem apelo ao bélico, não reagir a censura é ver avançar a moralidade sobre os direitos as liberdades. As legislações vão acompanhando, e são reflito do estado do esterno confronto.
    E o confronto está em todos lados e em todo momento.

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  5. Belissímo artigo, Willer. Esta mentalidade tacanha, suja do ‘politicamente correto’ me enoja. Sociedade hipócrita e esse tal de Naposi Nappo seu comentário não tem substância, um covarde se escondendo atrás de pseudônimos. Beijos!

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