Ecochatos versus ecocéticos

Voltava do Rio de Janeiro – não me lembro exatamente quando, mas foi entre 1975 e 1980. A meu lado no avião, um canadense britânico. Engenheiro especializado em filtros, disse-me que vinha ao Brasil para cuidar de instalações de limpeza da água em indústrias. “Input or output?”, perguntei-lhe. “Input, only input”, respondeu-me. Seus clientes só estavam interessados na qualidade da água que entrava, que iriam usar, e não naquela que despejavam. Observei que, se todos cuidassem da água que saía, do “output”, não precisariam gastar com a filtragem da que recebiam, do “input”. Concordou.

Seria a Champion Papel e Celulose, em Mogi Mirim, SP, um de seus clientes? Em 1987, o vazamento em um tanque de resíduos dessa indústria contaminou o Rio Mogi de ponta a ponta: provocou mortandade de peixes, despovoou o rio, levou anos para recuperar. Parecido com o caso mais recente, da mineradora em Muriaé, MG na temporada de chuvas e alagamentos do ano passado: o rompimento de uma de suas barragens contaminou toda a extensão de Muriaé até a foz do Rio Paraíba, prejudicou o abastecimento de água em todas as cidades no caminho. Esses, entre tantas outros conseqüências de empresas filtrarem o que entra sem cuidarem do que sai.

Da cobertura jornalística da Rio + 20, recortei e postei no Facebook este trecho de Luiz Felipe Pondé, publicado ontem, domingo, dia 17: “Qualquer solução para a “energia limpa” virá do mercado e jamais de burocratas e seus pontos e vírgulas”. O artigo é sobre “burocratas verdes”. Sexta, dia 15, Pondé havia publicado uma crônica contra “ecochatos”, reclamando da “vocação autoritária dos verdes em geral, assim como seu caráter ideológico travestido de evidência”. Casos como esses que citei, da Ripasa e de Muriaé (e há tantos outros), fundamentam a opinião contrária: ambientalistas deveriam ser muito mais chatos; “burocratas verdes”, de órgãos públicos e entidades não-governamentais, deveriam ser muito mais ativos.

Pondé é professor de Teologia na PUC-SP, referência sólida em sua área – textos que li dele sobre religiões e misticismo têm qualidade. Por isso, provocam estranheza seus artigos na Folha de SP com evidentes erros lógicos e de informação (outra hora, trato de uns textos incríveis dele sobre canibalismo). As crônicas que citei são uma espécie de contraponto, nesse jornal, à cobertura da Rio + 20. Uma cobertura pobre, burocrática, aguada. Bem melhor a do Estadão que, tradicionalmente, examina bem os temas ambientais – subscrevo tudo o que um de seus articulistas, Washington Novais, tem publicado.

Um bom serviço à cobertura da Rio + 20 foi dado pela última edição da revista Veja (para quem ainda não percebeu, leio jornais e revistas como sociólogo: interessa-me o que é noticiado, e não acho que veículos de imprensa devam ser um espelho do que penso – se fosse assim, só leria jornais anarquistas e bons periódicos literários….). Além de matérias de qualidade sobre a intersecção de ecologia e demografia, sobre água, aquecimento global, Amazônia, o modo bem sucedido como os índios suruís administram sua reserva florestal, a preocupante situação dos oceanos (o tema que mais deveria ser levado a sério na pauta ambiental), traz uma excelente amostra do pensamento conservador, anti-ambientalista, ao entrevistar um “ecocético”, o jornalista inglês James Delingpole.

O título da matéria: “A conspiração dos verdes”. Delingpole é contra a busca de “energias alternativas”. Ataca “a grande mentira do aquecimento global antropogênico”: não há provas, argumenta, de que gás carbônico e outros poluentes na atmosfera provoquem aquecimento. O título de seu livro lançado no Brasil é repugnante: Os melancias – o termo usado pela repressão para perseguir liberais, que seriam vermelhos por dentro, comunas disfarçados ou inocentes úteis a serviço dos soviéticos. A fundamentação do ceticismo de Delingpole é estritamente política: militância ambientalista é ameaça à economia de mercado, ao capitalismo. Isso é observado com precisão por Nelson Ascher na resenha de Os melancias: o título, diz, “se refere aos militantes mais exaltados que, verdes por fora mas vermelhos por dentro, alegam defender baleias e florestas, índios e geleiras, mas desejam mesmo acabar com o capitalismo, tal como a esquerda revolucionária tradicional”.

Quem achou o pensamento de Pondé pouco claro poderá entendê-lo através de Delingpole e Ascher. Ainda bem que o ambientalismo tem apoio majoritário da sociedade. A quem ficou sem água para beber ou tomar banho entre Muriaé e Barra de São João , no episódio que relatei, não interessa se o controle da poluição é bandeira do velho comunismo ou de um capitalismo mais moderno. Querem água, e não preleções políticas. Formadora de opinião em favor da proteção ao ambiente: a TV Globo. Não por ser uma organização voltada para a destruição da economia de mercado, mas por desastres ambientais, a exemplo daqueles de Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, das cidades serranas e do Norte fluminense, etc, serem notícia, fatos jornalisticamente relevantes, assim como o exame de suas causas e consequências. 

A argumentação dos ecocéticos não só é irresponsável, mas criminosa. Suponhamos que o dia esteja nublado e a previsão do tempo dê que vai chover. Mas isso não comprova, categoricamente, que choverá – apenas informa que há uma probabilidade de vir a chuvarada. Um hipotético climacético ou meteorolocético justificaria, então, sair sem o guarda chuva, já que nuvens e previsões do tempo não são conclusivas. É o raciocínio dos ecocéticos, sobre a falta de prova conclusiva de que o aquecimento global é provocado pelo aumento da poluição. Seguindo-os, estaríamos a descoberto ao sobrevir uma catástrofe. O bom ceticismo, aquele fundamentado no verdadeiro pensamento científico, recomenda o contrário: prevenir-se para o  pior. Não é catastrofismo, porém bom senso. O assim chamado ecocético é alguém irracional, fóbico, paranóico. Nem leva em conta qualquer um dos benefícios – à vida no planeta, à vida marinha em especial, à saúde, à economia – do controle da poluição e da redução da degradação ambiental.

Em 1972, convidei um amigo, o agrônomo, paisagista e ambientalista Rodolfo Geiser, para dar uma palestra sobre ecologia na Psicologia da USP, onde eu lecionava. Deu o exemplo do barranco à beira da estrada, que vai acabar desmoronando, para mostrar que os estragos ambientais sempre provocam prejuízo, sempre são da ordem do barato que sai caro. Fatos lhe deram razão. Daí haver empresários envolvidos na militância ambiental – alguns, sérios, sem saber que são “melancias”, agentes disfarçados ou inocentes úteis a serviço de ideologias estranhas. Há também os oportunistas, como o banco que fez propaganda dizendo que preserva ambiente porque não manda mais extratos impressos.

Se eu fosse chefe de estado, não assinava esse documento final da Rio + 20. Onde já se viu, não quererem aprovar um fundo para ajudar países pobres na preservação e recomposição ambiental. Entre um mau acordo e um impasse, prefiro o impasse. Passada a conferência, dia 28 de junho, quinta-feira, será lançada uma nova edição da revista Celuzlose. Nela, a versão ampliada do meu artigo sobre poetas e a natureza. Minha visão é estética e minha abordagem é filosófica – mas qualidade estética e refinamento filosófico enriquecem a vida, melhoram o ambiente. E, de William Blake a Allen Ginsberg e Roberto Piva, poetas avisaram. Sabiam o que iria acontecer. Já publiquei aqui o trecho de Ginsberg, de 1974, sobre a loucura de persistir no uso de combustíveis fósseis, não-renováveis: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/15/ainda-a-lucidez-de-ginsberg/ Ginsberg, um ecochato da pior espécie. Como ainda é grande a distância entre o que dizem poetas e o que assinam chefes de estado.

EM TEMPO – (postado no dia seguinte) – Só podia dar nisso:

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/1106909-texto-da-rio20-e-fracasso-colossal-criticam-ongs.shtml

Uma vergonha.

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9 responses to this post.

  1. Posted by Sílvia on 18/06/2012 at 22:36

    ECONSCIENTIZAÇÃO! Incrível Willer!

    Responder

  2. Excelente artigo. Exemplificou bem a questão. Também prefiro o impasse a um mau acordo, que daria a impressão de estarmos no caminho certo.

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  3. Os ecochatos são extremamente úteis para a militância “verde”. Mesmo porque toda unanimidade é burra. Eles podem não ter, por formação pessoal, o conhecimento ou poder de argumentação dos “ecossupimpas” (cientistas, especialistas em direito ambiental etc), mas eles intervém, fazem as coisas acontecerem… são algo análogos como as operárias do formigueiro. Acho-os simpáticos e fundamentais.
    Desconhecia esse livro “Os Melancias” e o seu autor, mas, com perdão pelo trocadilhos, esse Delingpole parece um Delinquente do pior tipo…

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  4. Posted by Eliane Boscatto on 19/06/2012 at 01:04

    Gostei muito do seu artigo. Eu falei em um comentário de outra postagem sua, que li um livro do Pondé e não gostei. O livro se chama “Guia politicamente incorreto da Filosofia”, eu diria que é uma auto ajuda ao contrário, nem sei porque li, eu não gosto de auto ajuda a não ser quando vai pelo caminho da sátira. Foi o primeiro livro que li dele e sinceramente não tenho vontade de ler nenhum outro, coisa que ele pouco se importaria pois diz em seu livro que só precisa dos idiotas dos leitores para comprar seus livros, pena que eu não sabia antes. Até concordei com algumas coisas que ele escreveu, porém poucas. Antigamente, na época da ditadura militar, qualquer pessoa que fosse contra o governo, era logo rotulada de “comunista”. Hoje, segundo o senhor Pondé, todos aqueles que ele chama de “politicamente corretos” são na verdade uns “esquerdistas” metidos a besta querendo posar de “bonzinhos”. Como você diz, ainda bem que a proteção ambiental tem o apoio da maioria da sociedade, será que são todos uns “esquerdistas” metidos a besta?…rsrs
    O Sr.Pondé diz ainda em seu livro que a maioria dos mortais são todos ignorantes, pensam que sabem alguma coisa e não sabem que não sabem nada. Bom, ele deve ser um dos poucos que sabem muito e fala por todos.
    Eu sempre gostei muito de filosofia e continuarei gostando, mas não da dele.
    Abraços.

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  5. Excelente artigo, caro willer. Esses ecochatos meditos a ‘politicamente correto’ me dão nojo. fico também com o impasse. Grande abraço!

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  6. Posted by Sílvia on 19/06/2012 at 14:35

    Oi, querido. Aqui é Sílvia e Tainá. Pode apagar meu comentário se quiser. Era só pra testar a sua Censura, militante.

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  7. Ótimo artigo, mestre Willer. A observação sobre o que dizem os poetas poetas e o que o estado corrobora em relação ao tema é perfeita, lúcida.

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  8. Boa. Mas a Ripasa ficava em Limeira, divisa com Americana (do lado de lá do Rio Piracicaba, dizíamos). Em Mogi, fica a Champion. João Franzin

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