Poesia e misticismo

Provoquei, no Facebook – ao compartilhar uma postagem de trechos de Quatro Quartetos de T. S. Eliot, perguntei se alguém saberia dizer de qual grande místico ele se apropriou, muito liberalmente.

Ninguém respondeu.

Aí vai (trecho de um enorme ensaio meu sobre poesia e misticismo, é claro que pretendo terminá-lo e publicá-lo).

 San Juan de La Cruz, em “Canciones entre el alma y el esposo”:

            Para vir a gostar de tudo

não queiras ter gosto em nada.

            Para vir a saber tudo

não queiras saber algo em nada.

            Para vir a possuir de tudo

não queiras possuir coisa alguma em nada.

            Para vir a ser tudo

não queiras ser algo em nada.

            Para vir ao que não gostas

hás de ir por onde não gostas.

            Para vir ao que não sabes

hás de ir por onde não sabes.

            Para vir a possuir o que não possuis

hás de ir por onde não possuis.

            Para vir ao que não és

hás de ir por onde não és.

T. S. Eliot em Quatro Quartetos:

Tu dirás que estou a repetir

Algo que já disse antes. Di-lo-ei de novo.

Di-lo-ei de novo? Para chegares aí,

Para chegares aonde estás, para saíres de onde não estás,

            Deves seguir por um caminho onde não há extase,

Para chegares ao que não sabes

            Deves seguir por um caminho que é o da ignorância.

Para possuíres o que não possuis

            Deves seguir por um caminho da despossessão.

Para chegares ao que não és

            Deves seguir por um caminho onde não estás.

E o que não sabes é a única coisa que sabes

E o que possuis é o que não possuis

E onde estás é onde não estás.

O trecho é adaptação, quase transcrição do poema de San Juan de la Cruz. Mais ainda, por ser o final de um poema sobre a escuridão: “Ó escuridão escuridão escuridão. Todos entram na escuridão, / Os espaços vazios interestelares, o vazio dentro do vazio […] e negros o Sol e a Lua e o Almanaque de Gotha […] Eu disse à minha alma, está tranqüila e deixa cair sobre ti a escuridão / Que será a escuridão de Deus.” A escuridão em Quatro Quartetos de Eliot corresponde à “noite escura da alma” do místico espanhol. Chegou-se a falar em plágio. Outros considerariam a relação entre Quatro Quartetos e “Canciones entre el alma y el esposo” como intertextualidade, diálogo entre poetas. Importa ou interessa, é claro, que tudo isso é belíssimo. Eliot tornou-se, a meu ver, um reacionário carola – mas escrevia magistralmente.

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One response to this post.

  1. Posted by Ruth on 03/07/2012 at 20:42

    Legal.

    Responder

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