On the Road, o filme

Havia postado no Facebook:

Assisti em sessão especial, a convite da revista Época, a ‘On the Road’ de Walter Salles, em companhia de Roberto Bicelli, Camila Hungria e Raul Fiker. Querem que publique em meu blog o que achei do filme?
 
(A seguir, o e-mail que enviei a Bicelli, Raul, Camila e ao jornalista da Época que nos convidou, Guilherme);
(tive que sair antes, uns 15 minutos, começo atrasou meia hora e eu era banca de uma dissertação)
(Bicelli, Raul, Camila e Guilherme ainda não responderam a meu e-mail, quando responderem, se autorizarem, adiciono aqui)
(obviamente, tudo isto aqui é abertura de um fórum de debates)
(fiz alguns acréscimos 2 horas depois da postagem)
(no dia seguinte: chegaram comentários de Bicelli e Fiker, adiciono-os – antes trecho de uma observação de Gabriel Pinezi, postada aqui, em comentários, que me parece especialmente relevante – espantoso que críticos e  professores universitários difundam, 50 anos depois, os mesmos chavões reveladores de uma leitura pobre, estereotipada e tacanha da obra de Kerouac e de outros beats)
 
Qual foi a duração total do filme?

Saí de lá sentindo-me chapado, empatia ou osmose com tudo o que fumaram e tomaram…

Walter Salles fez bem, principalmente considerando orçamento relativamente baixo – por isso, bastante cenas de interiores, em estúdio, que sai mais barato – mas as externas são bonitas. Velocidade dos automóveis de Cassady, cenas de Kerouac / Paradise caminhando, são0 cinema de qualidade. Sítio de Burroughs está bem. Nos quesitos ritmo e montagem, impecável.

No que deixei de ver, tem a destruição do Cadilaque entre Denver e Chicago (a terceira viagem) e a viagem ao México (a viagem final) com a orgia em um balneário? São dois trechos especialmente engraçados, ria sozinho quando os lia.

Impressão que ele fundiu a segunda e terceira viagem. Não tinha outro jeito.

Gostei de mostrar o Kerouac leitor, Proust, Céline, Joyce. De fato, levavam o volume de Proust nas viagens. Ele falando em ‘canuk’, dialeto franco-canadense com a mãe, correto, e podia ter mais.

Faltou sobre a dimensão filosófico-religiosa – On the Road é busca por Deus, Kerouac insistia. Declarava-se místico. Tensão entre religiosidade e esbórnia confere interesse adicional.

Cenas capitais, nas quais Salles deixou escapar algo:

  1. Logo no começo, os vagabundos no caminhão: faltou um diálogo importante, Kerouac conversa com Mississipi Gene (o vagabundo mais velho) e lhe pergunta se conhecia Montana Slim, outro vagabundo, que Kerouac conhecera ao servir na Marinha, Mississipi Gene de fato o conhecia, interpreto o trecho dizendo que para Kerouac vagabundos eram fonte  da anamnese platônica (está no texto sobre Kerouac que publiquei ano passado na Cult)
  2. Ao ser abandonado por MaryLou no hotel, Kerouac passa fome – a cena em que pega as baganas de cigarro na rua, no livro em vez de fumá-las um por um, põe as sobras de tabaco em seu cachimbo e fuma, acho melhor. Antes, vê de relance MaryLou saindo com o dono de uma boate, virando-se – não sei pq ele não mostrou. Há um trecho de prosa poética, em que ele sente o cheiro da comida de todos os restaurantes de San Francisco – podia sugerir, mostrar os restaurantes, algo assim. Em vez de procurar Cassady em casa, é resgatado por ele no hotel – acho dramaticamente superior.
  3. Quando assistem ao show de Slim Gaillard, o blueseiro que se expressa por glossolalias, palavras inventadas– ao final, ambos vão conversar com ele, Cassady lhe diz que ele é Deus – faltou essa cena.

Atores, o que faz Kerouac / Paradise não convence, Kerouac foi bem documentado, sabemos como era, carimático, esse do filme achei insosso – o que faz Cassady / Moriarty, também, pouco ator para muito personagem. e Ginsberg também está estereotipado, não era tão bicha e foi bem mais louco (e carismático, também). Os outros, OK. A ex-vampira, convincente, embora fisicamente diferente da LouAnne Henderson (MaryLou no livro). Grande Viggo Mortensen, o melhor, sempre, em todos os filmes que faz.

Digam o que acharam. Abraços,

O trecho do comentário de Gabriel Pinezi – vale como denúncia da intemporalidade da caretice e do viés conservador em estudos literários:

Outro dia assisti a uma aula aberta de Yale, ministrada pela professora Amy Hungerford, que via em Neal Cassady e em Kerouac esteriótipos de homens vorazes, brutos, naturalizados, que queriam simplesmente liberar seus desejos carnais, sexuais, por meio de uma aventura, segundo ela, “vazia e sem sentido”… é bastante preocupante como conseguem ignorar os elementos místicos por trás do livro, que a meu ver são os mais explícitos e notáveis.

O que disse Raul Fiker (ou melhor, o que ele me escreveu):

A duração foi longa. Cheguei em casa às 14:10. Não lembro da cena da destruição do cadillac. Sim, tem a orgia no México. Na escolha dos atores a do Dean foi a menos infeliz (fora o Mortensen, é claro). A ambientação é perfeita, a reconstituição de época, perfeita. A música, idem. No todo, gostei.
Abração, Raul

O que comentou – também por e-mail – Roberto Bicelli (comentário bem beat, me parece):

a duração do filme não sei. aparecerá na sinopse, né?
para nós que conhecemos bem o livro e sua saga, sempre estará faltando algo, sempre pode-se pensar em outras abordagens, mas o filme de  walter salles capta bem o espírito da coisa. tem uma fotografia bonita, com os tons terra (road), o figurino é legal- em cenas de rua, da pra ver a diferença de estilo entre os beats e os passantes-, a música abrange os vários estilos que conviviam na época, com a evidente preferencia deles pelo jazz, mas sem esquecer que kerouac, por exemplo, gostava de vic damone, assim como eu gosto do william fourneaux e cauby…
os atores até que se viram bem, kerouac é mais fraco que moriarty, mas este poderia ser um pouco mais anfetamínico. do jeito que está, parece mais um irmão mais velho, contudo, gostei dele: boa estampa, olhos ilumiloucos, sorriso manhoso e tinhoso. faltou speed!
neal cassidy era anfetamínico.
achei que mataram uma cena emblemática: quando cassidy se lança em alta velocidade sobre os carros que atravessam uma ponte…
colocaram meia duzia de carros em cena e, na verdade, era uma fila enorme! se tivesse feito como se deve, daria um frisson extra ao filme; seria algo melhor que velozes e furiosos.
acho que o culto à velocidade de cassidy é mal aproveitado.  vc. fala do desmantelamento da “cady”, que era como minha turma de maconheiros( antes de te conhecer) chamava o cadilaque, isso não aparece no filme.
tb não aparece kerouac se deitando no chão do carro, para escapar do medo que em certo momento teve de estar sentindo a estrada sendo devorada por aquela máquina conduzida de maneira infernal. seria uma puta cena!
as mulheres são gostosas e estão bem, burroughs too.
tenho mais a dizer, mas convenhamos que sempre dou preferência à preguiça.
bjs r.bicelli

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12 responses to this post.

  1. De duas coisas já suspeitava (tendo como uma quase certeza): a falta de aprofundamento na ‘dimensão filosófico-religiosa’ e a atuação do Riley como Kerouac, que achei uma escolha equivocada desde o começo. Estava ansioso para ler algo seu sobre o filme. Abs.

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  2. Posted by Camilo Castillo on 04/07/2012 at 20:08

    Gracias caro willer, espero ver pronto en Chile!

    Resposta

  3. Posted by Camilo Castillo on 04/07/2012 at 20:09

    Gracias caro willer, espero ver pronto en Chile! saludos y abrazo desde el sur del sur

    Leo Lobos

    Resposta

  4. Posted by Gabriel Pinezi on 05/07/2012 at 01:44

    Fiquei preocupado justamente com isso quando vi o trailer e o cartaz do filme: se a dimensão místico-religiosa de Kerouac não seria deixada de lado, para tentar retratá-lo como simplesmente um maluco curtindo uma vida desregrada. Outro dia assisti a uma aula aberta de Yale, ministrada pela professora Amy Hungerford, que via em Neal Cassady e em Kerouac esteriótipos de homens vorazes, brutos, naturalizados, que queriam simplesmente liberar seus desejos carnais, sexuais, por meio de uma aventura, segundo ela, “vazia e sem sentido”… é bastante preocupante como conseguem ignorar os elementos místicos por trás do livro, que a meu ver são os mais explícitos e notáveis. Tive a impressão que Salles iria dar ênfase ao Kerouac “doidão”, confirmando o esteriótipo que permaneceu… preciso assistir agora para confirmar se isso aconteceu.

    Resposta

  5. Grata pelos comentários, vou ver o filme prestando mais atenção às cenas que vc aborda. Bacio.

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  6. Posted by srta T. on 06/07/2012 at 17:34

    deu vontade de reler o livro antes de ver o filme

    beijoabraço

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  7. Curiosa para ver o filme, o livro estou relendo, viva as releituras!

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  8. Willer,

    Bons comentários, necessários.A tendência é que tudo fique a mesma coisa. Então, poderímos aproveitar o momento e por mais Kerouak e mais beats de verdade espalhados em oficinas, desvendar mais o mítico, oportunizá-lo mais profundamente, não seria o momento? (Wi, eres mi brujo predilecto, mira, que banca aquela, não? Que banca!!! Vamos conversar, um dia… Agradeço-te profundamente)

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  9. Queria mostrar-lhe meus escritos esparsos…
    http://www.4pupilas.wordpress.com

    Um abraço!

    Fernando

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  10. Posted by Renata. on 18/07/2012 at 14:15

    Claudio, vi o filme, gostei de muita coisa, mas sai de lá com a impressão que faltou algo… Gostei da trilha e das imagens, morri de rir com as cenas na fazenda e com Viggo Mortensen, a sequencia toda está muito bacana. Mas depois de pensar no que senti falta, acabei concluindo que o que me incomodou foi a leitura do Dean meio travada e do Sal muito insosa, concordo com você plenamente… Sempre entendi o Dean do livro com um tributo a pulsão da vida, o ator se esforçou muito (mais que o que fez o Sal, na minha opinião), mas na hora que ele narra as aventuras na biblioteca para o Sal, por exemplo, ele trava, não sei, acho que deve ser difícil dar essa pulsão e torná-la natural, mas acho que isso daria um toque especial. Assim como senti falta do misticismo e das buscas do Sal…
    uma pena, pois isso contrastou com a qualidade das imagens e as belas sequencias de jazz. Uma coisa que me chamou a atenção, também, é a base do livro é velocidade e fluxo de palavras, a prosa espontânea, mas não dava para ver isso nos personagens, acho que no Pull my Daisy o Kerouac resolveu melhor essa relação. Mas eu acho que o filme têm belas sequencias, faltou mesmo dar um jeito na alucinação, que no caso da obra não é só drogas, mas envolve música, misticismo e pulsão de vida. Sei lá, impressões gerais, mas tomara que ajude a divulgar mais os beats!

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  11. Eu andava lendo On the road e a minha cabeça estava na estrada junto com neal e kerouac…o filme, talvez pela memória tão fresca do livro, me pareceu fraco. confesso que sai agitado, como vc disse, sei lá, “empatia ou osmose com tudo o que fumaram e tomaram…”.
    acho que walter salles cometeu o erro da humanidade: foi bunda-mole. a bunda-molice que assalta o nosso mundo tá bem explícita lá. eu me apaixonei por Neal cassidy 60 anos depois e o filme me mostrou um garotão malandro que vira-e-mexe encontra na esquina de casa. foi o que mais me decepcionou, além da falta da velocidade que no livro te deixa com os cabelos bagunçados…
    não tenho certeza se algo que se encaixe em categorias como “fale mal mas fale de mim”, ou mais como “mostre de mim o que o mundo pode assistir”, seja bom no sentido de divulgar os beats mais próximos de como eles realmente eram e o que eles representaram (realmente esse caráter sagrado-transgressor, não uma boemia que aparece mais desconstraída e easy-going)

    beijos

    Resposta

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