Allen Ginsberg, direitos autorais, profissionalismo e pirataria 2

Assisti, ontem à noite, sábado dia 14 no horário das 22 h, à exibição do filme Uivo (Howl) de Robert Epstein, com James Franco e Jon Hamm, pelo Max, canal 79 da Net. Assim como havia acontecido na Mostra de Cinema de São Paulo no final de 2010, é utilizada toda a minha tradução do extenso poema Uivo, de Allen Ginsberg – sem autorização, sem nunca haverem falado comigo e sem os créditos ou qualquer indicação de autoria da tradução. Há mais seis exibições programadas para este mês: próxima quarta-feira às 23 h, sexta-feira dia 20 às 23:55, e outras.

Comprova-se, portanto, o que eu havia denunciado neste blog, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/07/13/allen-ginsberg-direitos-autorais-profissionalismo-e-pirataria/ .

Há mais, porém. As legendas reproduzem inequivocamente a tradução publicada em Uivo e outros poemas, L&PM, adotando soluções que são pessoais, criação minha, desde a primeira frase, onde para I saw the best minds of my generation eu preferi Eu vi os expoentes da minha geração, e não “as melhores cabeças” ou “as melhores mentes”. No entanto, com algumas mudanças: um “caralho” da minha tradução tornou-se um “pênis”; “adoçaram as trepadas” virou “adoçaram as vaginas”; “deixaram-se enrabar” agora é “ofertaram seu ânus”.

Adulteração, portanto, além de plágio e contrafação. Um triplo desrespeito, a meus direitos, à obra que é título e tema do filme e ao espectador.

Legendar desse modo trai a intenção do filme. Uivo (Howl) de Robert Epstein é sobre o processo em 1956 contra a publicação de Howl and other poems, pela City Lights de Lawrence Ferlinghetti. Seu resultado foi, justamente, garantir a circulação de textos em linguagem direta, explícita. As legendas restauram os eufemismos, que Ginsberg critica expressamente na entrevista reproduzida no filme. Esse exibidor promove o culto à hipocrisia.

Normalmente, após a exibição na TV a cabo, vem o crédito da versão brasileira, algo como “Legendas Videolar” ou coisa parecida. Desta vez, nada. Nenhuma referência ou crédito. Fica-se sem saber a qual submundo da legendagem o exibidor/distribuidor recorreu. A julgar pelo modo como traduziram o restante, se não me houvessem pirateado, então o telespectador receberia uma versão do poema cheia de erros.

Isso acontece sempre. Há profusão de erros de tradução nas legendas de filmes que passam na TV. É desrespeito ao assinante, a quem paga – e paga caro – por tal serviço. Aliás, uma concessão pública.

Podia ser pior: o filme passar dublado, e não legendado. É como procedem outras emissoras, para atender, ao que parece, a uma crescente legião de analfabetos monoglotas, em detrimento da informação. Não haveria, então, como conferir.

Enfim, são múltiplas as razões para promover escândalo, além das demais providências que for possível tomar. Não se trata apenas dos meus direitos morais, mas de um desrespeito ao assinante da TV , que paga (bem mais que em outros países) por um serviço precário em sua infraestrutura (falhas na transmissão, confusões na programação, isso acontece a toda hora) e no conteúdo, sistematicamente adulterado.

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9 responses to this post.

  1. Será que pegaram essa legenda em algum site de legendagem amadora? Daqueles que pirateiam séries e filmes antes que saiam aqui? Estranho não estar creditado para que possamos saber os responsáveis por esse absurdo. Não darem crédito e ainda amaciarem sua tradução de um poema do Ginsberg é uma grande falta de respeito, uma ironia indigesta e criminosa.

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    • Pegaram na internet, com certeza, em algum site por sua vez pirata – e fraudaram o exibidor, que deve ter pago como se tivessem feito a tradução em vez de pirateá-la. Ou seja, pirataria multiplicada.

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  2. Posted by ivan carlos regina on 15/07/2012 at 19:00

    Irritante, absurdo, mas não se pode atribuir a esta tradução responsabilidade criminal?
    Isto é plágio…Roubar desta maneira esta tão bela tradução do Claudio Willer…Desabafo do Ivan Carlos Regina

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  3. A questão é saber de onde veio o erro. Se você reconheceu seu texto já na exibição da mostra de São Paulo significa que o distribuidor contratou um tradutor que se apropriou de seu texto. Ou seja, provavelmente foi um colega de tradução que fez o roubo. Lamentável.

    Fiz uma breve pesquisa e, aparentemente, o filme não tem distribuidora no Brasil. Significa que, talvez para o evento da amostra, compraram os direitos do filme, produziram as legendas e as mesmas seguem na venda para exibição em televisão ou em dvd, caso o filme tivesse saído no formato.

    Alguns poucos filmes acabam não tendo o lançamento no país para home video e acabam indo direto do cinema para os canais de cinema pago. Imagino que, normalmente, já comprem a legenda que foi utilizada nos cinemas. Ao menos com os filmes grandes é assim.

    Portanto, o elemento principal a se investigar é a origem dessa legenda. Se for uma legenda oficial e encomendada, foi um erro utilizar sua tradução. Porém, não descarto a possibilidade de ter sido uma legenda feita de maneira caseira – alguém que aproveitou que tinha sua tradução para inseri-la no filme – e quem quer que tenha os direitos do filme no país, em vez de fazer a própria tradução, se apropriou da legenda e a “fez” oficial.

    Seria questão de pesquisar em sites de legenda se alguma tem as mudanças que você estabeleceu para a tradução.

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  4. eu nao vi o filme ,mas as legendas de filmes americanos e ingleses sao sempre pessimas. neste caso, é duplamente lamentavel que tenham adoçado a linguagem crua de ginsberg e roubado a sua inteligente e original tradução. susanna

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  5. Posted by Milton on 23/07/2012 at 20:50

    Claudio, você não acha a chamada “pirataria” uma boa forma de difusão da cultura? Justamente o tópico abordado por sua postagem de 18 de julho, o analfabetismo funcional, não poderia ser erradicado caso a cultura fosse livre? Mais, a vida das pessoas não seria melhor com acesso livre à arte e ao conhecimento? A sociedade não seria melhor, mais poética, mais… livre?
    Não estou dizendo que não devamos remunerar o autor (que é tão importante em uma obra quanto o leitor – lembremos de Leminski: “Só a obra aberta (=desautomatizada, inovadora), engajando, ativamente, a consciência do leitor, no processo de descoberta/criação de sentidos e significados, abrindo-se para sua inteligência, recebendo-a como parceira e co-laboradora, é verdadeiramente democrática.”). Ele deve ser remunerado. Porém, o que acontece é que as editoras abocanham boa parte do valor pelo qual um livro é vendido (sua tradução de “Cantos de Maldoror”, por exemplo, está por R$56; quanto chega até você?). A “pirataria” é uma invenção da indústria cultural para não deixar que o conhecimento deixe de ser escasso e, assim, perca seu “valor” (financeiramente falando, porque o luvro é a única coisa que a indústria cultural preza; a cultura em si não vale nada para ela, se não der lucro). Uma coisa é ganhar dinheiro com o trabalho alheio (o caso que você referiu sobre a legenda), o que é totalmente condenável, já que constitui uma exploração (tal qual fazem as editoras); outra é difundir a cultura sem nenhuma intenção de lucro, simplesmente para abrir as portas da poesia, do romance, do conto para as pessoas, e, claro, desde que se mantenha o nome do autor e do tradutor na obra – o que é essencial.
    É difícil mensurar até que ponto a “pirataria” (desde que seja o segundo caso que citei) faz mal ao autor. Ela, pelo contrário, o deixa em contato com ele. Através de uma tradução sua de Artaud que circula pela internet, entrei em contato com o autor, peguei o mesmo livro em uma biblioteca, comprei uma tradução sua de “Uivo”, de Ginsberg, descobri que você traduziu “Cantos de Maldoror” e tenciono comprar a edição, e, além do mais, descobri a revista Agulha, que me apresentou os universos surrealista & beat através de textos que você escreveu, e, posteriormente, cheguei a este blogue. Será que a “pirataria” é ruim para o autor? Sem ela, eu nunca teria conhecido suas traduções; provavelmente nunca teria sido capaz de ler Ginsberg, já que meu inglês não é dos melhores; nem poderia tentar ler Artaud ou Lautréamont, visto que meu francês é bastante fraco. Se o autor quer ser reconhecido por sua capacidade pelas pessoas, e não ser explorado por editoras, creio que deve procurar outros horizontes. A distribuição com copyright é que faz mal para ele, mas, como é padrão, é difícil de se livrar dela, mesmo para os menos acomodados. A questão é ter vontade de se livrar das amarras do mercado editorial e não se deixar explorar por uma editora, seja qual for. (Aliás, acredito que, se houvesse garantia de que 100% do valor da compra de um livro pela internet fosse para o autor, todos os que hoje são “piratas”, comprariam o livro para ajudar o autor. O problema não é o autor, mas o intermediário, o explorador: a editora.)
    (Só pra finalizar, porque já me alonguei demais e este é o segundo parênteses que abro, deixo uma frase de um conhecido: “Le plagiat est nécessaire. Le progrès l’implique”, Lautréamont)
    Abraço!

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    • Milton: Não … ! De qualquer modo, nesse caso o que me aborreceu não foi o aspecto financeiro (direitos patrimoniais seriam da L&PM, que poderia até mesmo cedê-los) mas o desrespeito, o desaforo de omitirem que tradução é minha.

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  6. No seu caso o plágio é claro. Tanto você, por receber parte percentual da reprodução da obra, como a Editora a quem foram cedidos os direitos autorais, têm legitimidade (interesse) para entrar com ação judicial. Se não informada a tal “versão brasileira”, ou, ainda que dublado (pois para se poder dublar há que ter um texto para alguém ler), acredito que poder-se-ia acionar o veículo canal ou mesmo grupo de TV a cabo, cabendo aos acionados, no mínimo, denunciar os responsáveis pela apropriação indevida. São apenas os comentários de doutrina jurídica que ousam definir o plágio e, no seu caso, conforme relato acima, tratar-se-ia de um plágio integral (para os versos veiculados que seriam iguais ao original) e parcial (para aqueles que teriam sido alterados). A Editora também teria sido lesada e há prejuízo financeiro, igualmente. O melhor seria uma ação conjunta. A todos os interessados, repito o que disse ao Claudio: o ECAD deve ser acionado também, para que medidas em âmbito administrativo também sejam inseridas contra a irresponsabilidade de aventureiros. Claro como água nova brotando na fonte seria o seu caso, Claudio.

    Adicionalmente, àqueles que possam se interessar, escrevo minha opinião. Muita gente fala sobre o conceito de plágio e cita a lei de direitos autorais como fonte. Erro. A lei atual não distingue o plágio, principalmente o artístico e literário. Os tribunais e, em última palavra, o STJ, seriam os organismos legais que estariam dando interpretação para o conceito legal e vago da lei. Sobre o plágio acadêmico e musical, o sentido do conceito estaria sendo mais abordado e tendo definido os limites pelos tribunais. Sobre o literário, percebi que muitas dos processos judiciais não recebem definição do STJ e o resultado final acaba em uma prescrição ou conceito jurídico precedente ao mérito, não se abordando os limites do assunto. Por quê agem assim? Porque no plágio literário há um limite muito tênue e que diz respeito, usualmente, ao chamado plágio conceitual. Reproduzir, no todo, ou em parte, ou alterando palavras é plágio, não há dúvida. O que não pode ser plágio é a idéia, desde que abordada ou transmitida de forma diferente de sua “essência”. Como demonstrar que há um plágio literário e conceitual, abordando a “essência” da idéia de outro, acaba caíndo na pena de um advogado. Como sou advogado e gosto de ler teoria do texto literário (e penso que este é autônomo), eu me sentiria confortável, como advogado de defesa, para explicar, ou contextualizar (ler) a obra do acusado com outra essência para uma mesma idéia utilizada. Não estou falando do caso do Claudio, mas acerca de casos limítrofes. Sheakspeare foi acusado de plágio em Romeu e Julieta, Cervantes (creio) idem, já ouvi falar. Seria muita pretensão correr atrás de direitos autorais quando a ideia é universal e atemporal na história da humanidade e inerente ao açucar dos tempos. Acho que seria por esse viés o sentido que o Milton quis dizer acima. Assim, o chamado plágio “conceitual”, principalmente no que diz respeito ao texto literário, é o único controvertido, e não creio que lei alguma poderia definí-lo. O que seria a tal “essência” da idéia? O que não seria intertextualidade e contexto redefinido de uma ideia, principalmente se o potencial plágio conceitual se refere a obras de autores de diferentes gerações?

    Advertência: não sou profissional da área do direito em que se enquadram os direitos autorais. O comentário acima é apenas uma opinião pessoal e não profissional, o qual teve o propósito de introduzir os leitores à questão plágio x direitos autorais em casos limítrofes, de forma a expandir a ideia contida no assunto publicado e as repercussões dos comentários.

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