Erotismo místico, nudez sagrada

Mircea Eliade – Sur l’érotique mystique indienne (L’Herne, Paris, 1997)– traduzo os parágrafos iniciais, que me parecem especialmente belos, prosa poética:

“Toda mulher nua encarna a Natureza, a prakrti. Deve-se, então, olhá-la com a mesma admiração e a mesma isenção que se emprega para considerar o insondável segredo da Natureza, sua capacidade ilimitada de criação. A nudez ritual da yoginî tem um valor místico intrínseco: se, diante da mulher nua, não descobrimos em nosso ser mais profundo a mesma emoção terrificante que sentimos diante da revelação do Mistério cósmico – então não há rito, não há nada a não ser um ato profano, com todas as conseqüências que se sabe (reforço da corrente cármica, etc). A segunda etapa consiste na transformação da Mulher-prakrti em encarnação da Çaktî: a companheira do rito torna-se uma deusa, assim como o yogin deve encarnar o Deus. A iconografia tântrica dos casais divinos (em tibetano: yab-yam, pai-mãe), com inumeráveis “formas” de Buda enlaçadas por sua Çaktî, constitui o modelo exemplar do cerimonial sexual (maithuna). Será notada a imobilidade do Deus: toda a ação está a cargo da Çaktî. (No contexto ióguico, o espírito estático contempla a atividade criadora da prakrti.) Ora, no tantrismo, a imobilidade realizada conjuntamente sobre os três planos do “movimento” – pensamento, respiração, emissão seminal – constitui a meta suprema. Aqui, de novo, trata-se de imitar um modelo divino: o Buda ou Çiva, o Espírito puro, imóvel e sereno no meio do jogo cósmico.

O maithuna serve, em primeiro lugar, para ritmar a respiração e facilitar a concentração: é, portanto, um substituto do prânâyâma e do dhâranâ, ou, antes, seu “suporte”. A yogini é uma jovem instruída pelo guru e cujo corpo é consagrado. A união sexual se transforma em um ritual através do qual o casal humano se torna o casal divino. O prânayâma, o dhâranâ não cosntituem senão os meios pelos quais, durante o maithuna, chega-se à “imobilidade” e à supressão do pensamento, a “suprema grande felicidade”. […]

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8 responses to this post.

  1. Mas vá explicar isso a eles (os censores)… Na verdade, penso que apenas saímos debaixo das batinas negras católicas para cair nos bolsos dos belos (?) ternos dos pastores… Enfim, o tabu em relação ao corpo, à sexualidade etc, continua muito forte, e ainda propagado por esses sistemas. Infelizmente.

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  2. Posted by Ruth on 22/07/2012 at 13:58

    Tem razão, Willer: especialmente belos os parágrafos selecionados. Beijo.

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  3. Uma beleza de texto.

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  4. Muito interessante! Mircea Eliade traz sempre revoluções no pensamento, Willer!

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  5. ótimo texto. Engraçado como a nudez ainda é considerada agressiva em muitos setores da nossa sociedade, incluindo redes-sociais.

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  6. o erotismo místico é mesmo uma evolução suprema. assim como o hieros gamos que é uma prática ancestral em que se alcança o sagrado – realiza-se Deus – através da prática sexual. essa ideia me seduz profundamente.

    o texto do seu post remete-me também às bacantes que buscavam o sagrado feminino de forma plena e absoluta mediante a nudez, o sexo, o vinho… tudo em honra a BACO! OU Dionísio para algumas culturas.
    a sonoridade da palavra BACO especialmente me atrai, bem como o imenso significado que representa.

    Beijos, professor! Que bela tradução!

    Lu

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  7. Posted by Carlos Figueiredo on 23/07/2017 at 12:50

    Esse é o sentimento – de estar diante do próprio mistério, que me enleva – que sempre senti ao ver a mulher nua. Ao desnudar-se ela me consentia uma graça que eu quase não conseguia perscrutar em seu olhar, tornado abismo.

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