Cinema e Geração Beat: artigos

Publiquei em Cronópios dois artigos sobre cinema e Geração Beat.

Um deles, de março de 2011, e que já havia saído na revista Reserva Cultural:

http://www.cronopios.com.br/site/critica.asp?id=5456

Outro, novo, de agora, sobre esses recentes Na estrada e Uivo.

http://www.cronopios.com.br/site/critica.asp?id=5458

Acho que convém ler primeiro um, depois o outro. Ou vice-versa. De qualquer modo, há um fio condutor entre ambos.

Falarei mais sobre beats, cinema, On the Road e temas afins na próxima sexta-feira, dia 3 de agosto, em uma reunião na Gibiteria da Praça Benedito Calixto, junto com o autor de quadrinhos João Pinheiro. Divulgarei release.

Em tempo (postado no dia seguinte): Comentário de Gabriel Pinezi acrescenta, reforça minha argumentação – por isso, acrescento-o ao corpo deste ‘post (vejam também, na sequência, o comentáriod e João Pinheiro, que adaptou Kerouac para quadrinhos)’:

Ao assistir “Uivo”, de Rob Epstein, também fiquei com a impressão de que os personagens eram estáticos e sorridentes demais… Ginsberg me pareceu sempre, pelas leituras, uma pessoa bastante ativa, bem menos recatado do que aquele Ginsberg do filme, fazendo chá e “jogando conversa fora”.

Fico feliz de ter contribuído com meu comentário sobre a crítica literária. Para quem quiser assistir às aulas de Amy Hungerford sobre Kerouac e comprovar por si mesmo, pode encontrá-las nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=4kgGrgF3JhQ

A respeito da faceta mística/religiosa de Kerouac: é realmente impressionante que isto não apareça no filme de Salles, sendo que não só George Shearing e Slim Gaillard são descritos como Deus, mas também o próprio Neal Cassady / Dean Moriarty, figura central do romance. Três passagens que marquei:

“Entre miríades de partículas de radiação celestial, tive de me esforçar para distinguir a fisionomia de Dean, e ele parecia Deus!” (p.345, na edição de bolso da L&PM)

“Ali estava um BEAT – a raiz, a alma da beatitude. Quais seriam seus profundos conhecimentos? Ele estava tentando me dizer, com todas as suas forças, o que ele estava sabendo, e era exatamente isso que eles invejavam em mim, a posição que ocupava ao lado dele, defendendo-o e sorvendo sua sabedoria como outrora eles haviam tentado fazer.” (p.241)

“Dean, que possuía a energia vibrante de uma nova espécie de santo americano” (p.61)

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8 responses to this post.

  1. Ao assistir “Uivo”, de Rob Epstein, também fiquei com a impressão de que os personagens eram estáticos e sorridentes demais… Ginsberg me pareceu sempre, pelas leituras, uma pessoa bastante ativa, bem menos recatado do que aquele Ginsberg do filme, fazendo chá e “jogando conversa fora”.

    Fico feliz de ter contribuído com meu comentário sobre a crítica literária. Para quem quiser assistir às aulas de Amy Hungerford sobre Kerouac e comprovar por si mesmo, pode encontrá-las nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=4kgGrgF3JhQ

    A respeito da faceta mística/religiosa de Kerouac: é realmente impressionante que isto não apareça no filme de Salles, sendo que não só George Shearing e Slim Gaillard são descritos como Deus, mas também o próprio Neal Cassady / Dean Moriarty, figura central do romance. Três passagens que marquei:

    “Entre miríades de partículas de radiação celestial, tive de me esforçar para distinguir a fisionomia de Dean, e ele parecia Deus!” (p.345, na edição de bolso da L&PM)

    “Ali estava um BEAT – a raiz, a alma da beatitude. Quais seriam seus profundos conhecimentos? Ele estava tentando me dizer, com todas as suas forças, o que ele estava sabendo, e era exatamente isso que eles invejavam em mim, a posição que ocupava ao lado dele, defendendo-o e sorvendo sua sabedoria como outrora eles haviam tentado fazer.” (p.241)

    “Dean, que possuía a energia vibrante de uma nova espécie de santo americano” (p.61)

    Resposta

  2. acrescentei ao corpo do ‘post’

    Resposta

  3. Olá, Willer. Como vai?

    Também senti que o filme mostrou uma viagem esvaziada de espiritualidade. As visões de Kerouac pela estrada sempre me pareceram muito cristãs e sua busca foi sempre a busca pela transcendência, como ele escreveu nesta passagem:

    “E por um instante alcancei o estágio do êxtase que sempre quis atingir, que é a passagem completa através do tempo cronológico num mergulhar em direção às sombras intemporais, e iluminação na completa desolação do reino mortal e a sensação da morte mordiscando meus calcanhares e me impelindo para a frente como um fantasma perseguindo seus próprios calcanhares, e eu mesmo correndo em busca de uma tábua de salvação de onde todos os anjos alçaram voo em direção ao vácuo sagrado do vazio primordial, o fulgor potente e inconcebível reluzindo na radiante Essência da Mente, incontáveis terras-lótus desabrochando na mágica tepidez do céu.” (On the road, p. 217, da edição L&PM Pocket)

    Também vejo uma analogia entre o trecho famoso do On the road:

    “[…] para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaah!”

    e um trecho do último livro da bíblia cristã, Apocalipse, capítulo 3, versículo 15 e 16: “Conheço tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te de minha boca[…]”

    No mais, concordo com você quanto à atuação do Sam Riley ter ficado muito aquém da altura do personagem. Assim como Garrett Hedlund, como Dean.

    Um abraço.

    Resposta

  4. Posted by roberto bicelli on 01/08/2012 at 01:44

    ninguém, que eu saiba, disse que o filme é ruim, exceto alguns que comentaram o filme antes mesmo de vê-lo, numa absoluta desonestidade intelectual ( e foram muitos).
    felizmente, willer fala bem das qualidades do filme e aponta o que sentiu como ausência ou falha.
    quanto a mim:
    ao ver o filme pela primeira vez, sem legendas, apesar da familiaridade com o texto, perdi alguma coisa, mas gostei bastante do filme.
    pareceu-me que quem conhece e ama demais o livro já viu esse filme tantas vezes na imaginação que cineasta algum conseguiria satisfazê-lo.
    cada um de nós (óbvio) tiraria ou acrescentaria cenas e faria, claro, outro filme…
    dos brasileiros, babenco é o maior conhecedor da beat e seguramente faria um ótimo filme, bem diferente deste.

    na segunda vez, captei o fio condutor seguido por walter salles: o da sensibilidade…
    o filme, que não pretende manter-se num tom superlativo, anfetamínico, tem no roteiro quase tudo que importa no livro. percebe-se, que, para contentar os amantes da obra, ele deveria desdobrar-se em três partes, como no “o poderoso chefão”.

    ao assisti-lo, ontem, pela terceira vez, percebi o que vcs dizem (com visão arguta) e também que algumas das coisas que reivindicam estão no filme: sal revisita a cada intervalo dramático o túmulo da família, católico e espiritualista que era.
    bull (vigo) em certo momento vira-se para sal e diz “agora vcs querem transformá-lo em deus?” assim, grossa e sutilmente. ou seja, eles deificavam dean.
    acontece que essa busca da beatitude pela chamada beat generation era muito presente e eles deificavam parker, slin gaillard, os vagabundos, o caralho dos avós, o ano novo, a vida! hedonistas que eram.

    quando vi o filme pela primeira vez, não aceitei muito bem a linha de interpretação conferida a dean, embora tenha gostado muito da expressão meio louca, meio debochada e muito sensível dele. conheci na vida muita gente assim e, se eu disser que nosso amigo celso f. tinha muito dele, fiker, willer e outros me darão parcial ou total razão.
    me incomodava tb uma certa postura de irmão mais velho da personagem dean, mas ao reler a obra- pela quinta vez- e ao acompanhar os diálogos do filme- vi que era isso mesmo, ele era explicitamente um irmão mais velho.
    acredito / tb/ que kerouac e ginsberg são captados bem no início, quando esboçavam suas depois longas carreiras como escritores e personagens públicos.
    é como escrever a vida de jesus menino e pregá-lo na cruz.
    no filme as coisas estão ainda meio incipientes. kerouac budista, católico de novo e de sempre, conservador ao extremo, bêbado contumaz, gordo e sempre genial vai aparecendo ao correr dos anos.
    no filme ginsberg reage ao que ele diz ser a primeira experiencia de convivência com outro homem. além disso, até os mais “macho men” de todos nós tem xiliques de quando em vez rsss.
    em suma, e para não dormir mais ainda sobre este teclado: esse filme vai ficar muito melhor com o tempo e merece ser visto no mínimo 3 vezes.

    Resposta

  5. Posted by Máh Luporini on 13/08/2012 at 20:39

    Querido Willer,

    Confesso que a primeira impressão que tive não gostei, esperava mais. As primeiras cenas me deram sono, Walter Salles demonstra a sensibilidade de cada beat, seus devaneios, suas ausências. Gostei da interpretação de Dean, mais a que melhorar, ficou abaixo do personagem. aquela coisa meia louca, sarcástica. Cada um interpreta da sua maneira, tiraria cenas e colocaria outras. Não sou conhecedora da beat, sou uma poeta leitora curiosa com vontade de ler e aprender, apenas. Quando li ‘On The Road’ pela primeira vez as buscas de Kerouac na estrada sempre me pareceram transcendentais e o filme não me passou essa impressão. Senti essa ausência. Vou rever o filme em breve, merece ser visto umas duas ou três vezes para pegar a conexão de Salles. Reler o livro, não se se deveria fazer tal comparação entre livro e filme, sou crítica nesse ponto. Quem não viu, assistam e leiam o livro. Gostei do filme, para mim só faltou aquela espiritualidade em que Kerouac nos passa a ler “On The Road”.

    Resposta

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