“Na estrada”: o debate continua

Os comentários que chegaram a este blog, sobre meus artigos tratando de geração beat e cinema, me pareceram tão interessantes que resolvi fazer uma nova postagem com eles. O filme de Salles vai melhorar com o tempo, como afirma Bicelli? Opinem. Prosseguiremos ao vivo, na sexta-feira dia 3, na gibiteria de Pinheiros.

Lembrando, beat e cinema está em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/07/27/cinema-e-geracao-beat-artigos/ e a gibiteria está em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/07/29/noite-beat-na-gibiteria/

  1. Publicado por Gabriel Pinezi em 28/07/2012 às 03:24

Ao assistir “Uivo”, de Rob Epstein, também fiquei com a impressão de que os personagens eram estáticos e sorridentes demais… Ginsberg me pareceu sempre, pelas leituras, uma pessoa bastante ativa, bem menos recatado do que aquele Ginsberg do filme, fazendo chá e “jogando conversa fora”.

Fico feliz de ter contribuído com meu comentário sobre a crítica literária. Para quem quiser assistir às aulas de Amy Hungerford sobre Kerouac e comprovar por si mesmo, pode encontrá-las nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=4kgGrgF3JhQ

A respeito da faceta mística/religiosa de Kerouac: é realmente impressionante que isto não apareça no filme de Salles, sendo que não só George Shearing e Slim Gaillard são descritos como Deus, mas também o próprio Neal Cassady / Dean Moriarty, figura central do romance. Três passagens que marquei:

“Entre miríades de partículas de radiação celestial, tive de me esforçar para distinguir a fisionomia de Dean, e ele parecia Deus!” (p.345, na edição de bolso da L&PM)

“Ali estava um BEAT – a raiz, a alma da beatitude. Quais seriam seus profundos conhecimentos? Ele estava tentando me dizer, com todas as suas forças, o que ele estava sabendo, e era exatamente isso que eles invejavam em mim, a posição que ocupava ao lado dele, defendendo-o e sorvendo sua sabedoria como outrora eles haviam tentado fazer.” (p.241)

“Dean, que possuía a energia vibrante de uma nova espécie de santo americano” (p.61)

  1. Publicado por João Pinheiro em 29/07/2012 às 13:04

Olá, Willer. Como vai?

Também senti que o filme mostrou uma viagem esvaziada de espiritualidade. As visões de Kerouac pela estrada sempre me pareceram muito cristãs e sua busca foi sempre a busca pela transcendência, como ele escreveu nesta passagem:

“E por um instante alcancei o estágio do êxtase que sempre quis atingir, que é a passagem completa através do tempo cronológico num mergulhar em direção às sombras intemporais, e iluminação na completa desolação do reino mortal e a sensação da morte mordiscando meus calcanhares e me impelindo para a frente como um fantasma perseguindo seus próprios calcanhares, e eu mesmo correndo em busca de uma tábua de salvação de onde todos os anjos alçaram voo em direção ao vácuo sagrado do vazio primordial, o fulgor potente e inconcebível reluzindo na radiante Essência da Mente, incontáveis terras-lótus desabrochando na mágica tepidez do céu.” (On the road, p. 217, da edição L&PM Pocket)

Também vejo uma analogia entre o trecho famoso do On the road:

“[…] para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaah!”

e um trecho do último livro da bíblia cristã, Apocalipse, capítulo 3, versículo 15 e 16: “Conheço tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te de minha boca[…]”

No mais, concordo com você quanto à atuação do Sam Riley ter ficado muito aquém da altura do personagem. Assim como Garrett Hedlund, como Dean.

Um abraço.

  1.  Publicado por Roberto Bicelli em 01/08/2012 às 01:44

ninguém, que eu saiba, disse que o filme é ruim, exceto alguns que comentaram o filme antes mesmo de vê-lo, numa absoluta desonestidade intelectual ( e foram muitos).
felizmente, willer fala bem das qualidades do filme e aponta o que sentiu como ausência ou falha.
quanto a mim:
ao ver o filme pela primeira vez, sem legendas, apesar da familiaridade com o texto, perdi alguma coisa, mas gostei bastante do filme.
pareceu-me que quem conhece e ama demais o livro já viu esse filme tantas vezes na imaginação que cineasta algum conseguiria satisfazê-lo.
cada um de nós (óbvio) tiraria ou acrescentaria cenas e faria, claro, outro filme…
dos brasileiros, babenco é o maior conhecedor da beat e seguramente faria um ótimo filme, bem diferente deste.

na segunda vez, captei o fio condutor seguido por walter salles: o da sensibilidade…
o filme, que não pretende manter-se num tom superlativo, anfetamínico, tem no roteiro quase tudo que importa no livro. percebe-se, que, para contentar os amantes da obra, ele deveria desdobrar-se em três partes, como no “o poderoso chefão”.

ao assisti-lo, ontem, pela terceira vez, percebi o que vcs dizem (com visão arguta) e também que algumas das coisas que reivindicam estão no filme: sal revisita a cada intervalo dramático o túmulo da família, católico e espiritualista que era.
bull (vigo) em certo momento vira-se para sal e diz “agora vcs querem transformá-lo em deus?” assim, grossa e sutilmente. ou seja, eles deificavam dean.
acontece que essa busca da beatitude pela chamada beat generation era muito presente e eles deificavam parker, slin gaillard, os vagabundos, o caralho dos avós, o ano novo, a vida! hedonistas que eram.

quando vi o filme pela primeira vez, não aceitei muito bem a linha de interpretação conferida a dean, embora tenha gostado muito da expressão meio louca, meio debochada e muito sensível dele. conheci na vida muita gente assim e, se eu disser que nosso amigo celso f. tinha muito dele, fiker, willer e outros me darão parcial ou total razão.
me incomodava tb uma certa postura de irmão mais velho da personagem dean, mas ao reler a obra- pela quinta vez- e ao acompanhar os diálogos do filme- vi que era isso mesmo, ele era explicitamente um irmão mais velho.
acredito / tb/ que kerouac e ginsberg são captados bem no início, quando esboçavam suas depois longas carreiras como escritores e personagens públicos.
é como escrever a vida de jesus menino e pregá-lo na cruz.
no filme as coisas estão ainda meio incipientes. kerouac budista, católico de novo e de sempre, conservador ao extremo, bêbado contumaz, gordo e sempre genial vai aparecendo ao correr dos anos.
no filme ginsberg reage ao que ele diz ser a primeira experiencia de convivência com outro homem. além disso, até os mais “macho men” de todos nós tem xiliques de quando em vez rsss.
em suma, e para não dormir mais ainda sobre este teclado: esse filme vai ficar muito melhor com o tempo e merece ser visto no mínimo 3 vezes.

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5 responses to this post.

  1. Ainda não vi. Mas pelo que li até agora aqui e em outros lugares, até que não foi um desastre, apesar do que faltou, obviamente que opções teriam que ser feitas. Walter Salles é um grande cineasta, mas não sei se ele era a pessoa certa e nem se haveria um diretor de cinema ideal (Se o próprio Coppola não quis colocar a mão na massa…) para adaptar um livro como ‘On the Road’.

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    • Mas tirando a necessidade (saudável, acredito) de debater, que muitas vezes resulta em excelentes artigos e reflexões, acho que o principal ponto de ‘On the road’ ter sido levado as telas é a certeza que muita gente que não conhecia, vai ser levada a ler o original e procurar por outros autores da geração beat.

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  2. Posted by roberto bicelli on 03/08/2012 at 12:05

    é isso, vince! e cada pessoa que ler imaginará seu filme.

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  3. Posted by Renata. on 03/08/2012 at 19:56

    tenho acompanhado as discussões e gostado bastante, pois cada vez aparece uma nova perspectiva para pensar sobre o livro e o filme e isso deixa o debate bastante atraente. Como tinha comentado com o Willer eu gostei do filme, em especial da trilha e da fotografia, mas sai do cinema achando que tinha faltado um pouco mais de velocidade e carisma no Sal e Dean, pois nas minhas leituras – ou imaginação – eles eram mais vibrantes… uns dias depois, acabei passando na locadora e me deparei, pela primeira vez com o Il Sorpasso, do Dino Risi de 1962. Nunca tinha visto e arrisquei levar. Fiquei muito impressionada, a sensação foi que encontrei a velocidade e a espontaneidade que achei que tinha ficado meio de lado na versão do Walter Salles. No fim, acabei pensando que o Dean da minha imaginação estava mais próximo da atuação do Vittorio Gassman e a velocidade que eu esperava no filme ficou bem atendida nas cenas de ultrapassagem e naquela buzina… Dai fiquei pensando: o Kerouac renovou a narrativa de estrada, influenciou o cinema de diferentes formas, agora, mais de 50 anos depois o livro está na tela e a gente assiste a partir de tudo isso… sei lá, fiquei com a seguinte impressão: fotografia, a sensibilidade e trilha do Salles são bonitas e interpretação e velocidade do Risi mais alucinantes, no fundo fiquei satisfeita, pois comparando os filmes da para perceber como a beat abre novas perspectivas de narrativas. Bem, são impressões gerais de quem gosta da beat e de cinema, por isso achei que valeria a pena lembrar desse filme e acrescentar ao debate, de todas as formas vou rever o filme! Abraços.

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  4. Oi, Willer. Pensando na questão: cinema X literatura lembrei de um trecho do livro “Esculpir o tempo” do cineasta russo Tarkovski e procurei para postar aqui:

    “Antes de responder a esta pergunta, devo dizer que nem toda a prosa pode ser transferida para a tela.

    Algumas obras possuem uma grande unidade no que diz respeito aos elementos que a constituem, e a imagem literária que nelas se manifesta é original e precisa. Os personagens são de uma profundidade insondável, a composição tem uma extraordinária capacidade de encantamento, e o livro é indivisível. Ao longo de suas páginas, delineia-se a personalidade única e extraordinária do autor. Livros assim são obras-primas, e filmá-los é algo que só pode ocorrer a alguém que, de fato, sinta um grande desprezo pelo cinema e pela prosa de boa qualidade.”

    Resposta

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