Acaso objetivo: um relato meu

Havia publicado o que vem a seguir entre os comentários a meu próprio post, aqui neste blog. Resolvi, agora, dar-lhe um espaço próprio. E convertê-lo, ao final, em exercício de leitura, ou de criação – não obstante ser tudo verdade. As demais histórias de acaso objetivo, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/05/25/acaso-objetivo/

(Em outra ocasião, anotei que sempre quis ser cronista.)

Julho de 1999.

Passava uma semana ou uns 10 dias em uma fazenda em Mato Grosso, convidado por um amigo, o cineasta João Callegaro. Perto de Xavantina e do Rio das Mortes, quase sopé da Serra do Roncador. Extensões do Centro-Oeste, horizontes luminosos e o perfil tão plástico e poderoso da serra. O Rio das Mortes, que beleza, água bem escura e limpa, atravessando mata virgem. Jacarés e tucunarés. Araras e ariranhas.

É uma terra de lendas e seitas. As famosas inscrições na pedra, os Martírios. Índios e colonos, convivendo – aparentemente, não há cenários de horror como os de Mato Grosso do Sul ou do Bananal, não vi degradação ou miséria extrema. Histórias de xavantes albinos nas cavernas de outra serra na região, fomos lá. Visitamos uma comunidade pós-hippie, simpáticos naturalistas, vivem em uma construção em círculo. Instalados na região, seitas e grupos esotéricos para todos os gostos. Acreditam, alguns, em passagens para o centro da Terra e no retorno do Coronel Fawcett, não fui vê-los, isso de mundo no interior do planeta vem das sociedades do Vril e ordem de Thule, influentes no nazismo, e o antissemitismo já está em Madame Blavatski, que postulou uma raça superior. Ademais, Fawcett não sumiu em uma gruta. Quando estive no Parque do Xingu em 1967, os Kalapalo visitaram o posto, perguntei: “Fawcett…?”, o intérprete apresentou-me o índio velhinho e sorridente que lhe aplicara o golpe final de borduna – se bem que, com os índios, nunca se sabe, apreciam fabular e há também a versão de que foram os Camaiurá e o esqueleto está no fundo da lagoa – de qualquer modo, Orlando Villas-Boas endossou que o explorador inglês havia forçado a mão, tentado obrigar índios a levá-lo a território inimigo (dos Suiá ou Juruna, Xingu abaixo) e por isso foi executado.

Luzes misteriosas e objetos celestes, óvnis e ETs, discos voadores e extraterrestres são tema constante na região, e não só entre esotéricos e adeptos. Um eufórico prefeito de Barra do Garça fez construir pista de pouso para óvnis no alto de um morro, perto dos banhos termais. Parece que todo mundo já viu algo. Domingo, fim de tarde, conversava sobre isso com Callegaro. Contou que era comum enxergarem luzes para os lados da serra. Passeávamos, cruzamos com um empregado da fazenda: “Como é, cadê as bolas de fogo? Tem visto muitas?”, perguntou meu hospedeiro. “Não, essa semana não teve, não vi nenhuma…”, respondeu. Vejam só – subentendido na resposta, as bolas de fogo serem comuns, aparecerem a toda hora.

Já anoitecia. Voltamos à sede da fazenda, amplo casarão térreo. Quando saí do quarto e entre na sala, o televisor estava ligado. Transmitia o Fantástico. Justamente, naquele exato momento, quando passei na frente do aparelho, exibiam um segmento sobre avistamentos de óvnis por tripulantes e passageiros de aviões. Um ministro, não me lembro mais qual, e que havia visto algo acompanhando seu vôo, por um bom trecho. Pilotos e copilotos, vários. Bolas de fogo, charutões luminosos, discos, clarões. O céu povoado de mistérios, de coisas ou entidades desconhecidas. Gente da Aeronáutica rompendo sigilo – relatórios sobre esses encontros existem, mas são reservados.

Não assisto ao Fantástico. Aquela hora daquele domingo, do milhão de pautas do programa, darem aquela. O que conversávamos há pouco estava sendo grifado.

Extraterrestres, ou o que for, visões, energias nossas, coisas da terra, meteoros diferentes, balões, nunca chegaram a me fascinar ou apaixonar. Não sou contra, pode ser que existam, já vi uma luz oscilando sobre a Represa Billings, talvez fosse ilusão de ótica (meteoros, satélites e avião em linha reta podem dar a impressão de ziguezague), mas foi noticiado nos jornais um avistamento de algo no céu na região do ABC naquele fim de semana. As bolas de fogo na região da Serra do Roncador também poderiam ser fogo-fátuo, alguma emanação da terra. Conheço quem encontrou, ou acha que encontrou. Tenho um amigo ufólogo. Misteriosíssimo. Roberto Piva também era – freqüentou grupos, colecionou bibliografia, publicou poema em Ciclones dedicado a Jacques Vallée (o consultor de Contatos imediatos de Spielberg), emprestou-me livro dele (que horror, os episódios de abduções e de mutilações, parece conto de Lovecraft, muito malvados alguns desses alienígenas, prefiro manter distância).

André Breton disse que acaso objetivo é expressão e materialização do desejo; projeção do desejo na realidade. Mas como? O que desejava eu, para merecer essa mensagem? O episódio é estranho pela gratuidade aparente, por eu não ser pesquisador, nem mesmo interessado – tenho bastante histórias estranhas, mas de outra ordem, escrevi um livro em torno do acaso objetivo, Volta. Não procurava nada naquela fazenda, na região, no Roncador, no Araguaia – só queria sair de São Paulo, ver / rever paisagens. Tomar banho nas termas de Barra do Garça, 22 anos depois, isso sim.

Ou então, o desejo não era meu. Algo, alguém ou algum outro, transmitia uma mensagem, até hoje indecifrada. É para eu voltar ao Roncador, a Xavantina? Para escrever a respeito? Para ficar quieto, ver e calar-me?

Se fosse ficcionista, faria a campainha tocar para deparar-me com uma criatura, um extraterrestre à porta, algo assim. Se quisesse replicar Maupassant, terminava o relato aqui. Se pretendesse imitar Ernesto Sabato, a criatura me levaria a tenebrosos mundos subterrâneos, a uma sucessão de experiências horripilantes. Com H. P. Lovecraft, fonte da qual Sabato bebeu, também seria esse trajeto, universo afora. Umberto Eco teria promovido uma perseguição por membros de alguma seita, até eu chegar à gênese de teorias conspiratórias baseadas na adulteração de um trecho de Balsamo de Alexandre Dumas, assim como fez em três de seus livros (Eco é bom, pode repetir-se) . Guimarães Rosa teria posto tudo, fazenda, bois, serra, fins de tarde luminosos, extensões e aparições, dentro do texto, e narrado na primeira pessoa, em tom de relato oral. André Breton não teria escrito ficção – iria até a Serra do Roncador e despejaria bastante prosa poética sobre os paredões de arenito, as inscrições rupestres e o restante. Michel Leiris se instalaria na aldeia xavante e produziria etnografia participativa. Cortázar… – com ele, tudo seria possível, até mesmo um relato direito, chapado, como este. José J. Veiga (belo escritor, esquecido, precisamos resgatá-lo), em alguma das vezes em que conversamos, teria me contato uma série de causos como este.

Que tratamentos isso – esse episódio, insisto, 100% real – receberia de outros narradores?

Anúncios

9 responses to this post.

  1. um tratamento plástico e fantástico entre Gabriel Garcia Marques e kafka.
    as paredes e as esfinges da serra do rocador fazem ressonância dos mistérios.
    cabe, vestais, ovnis, subterrâneos, hippies , ets , e xavantes, tudo envolto na massa bucólica de Barra do Garças como um pastel quente hehehehehehehe

    Resposta

  2. Posted by Lelia on 05/08/2012 at 21:32

    Ôi Claudio, me lembrei que quando comentávamos a imagem “o céu é azul como uma laranja”, no curso sobre surrealismo no M.Língua, vc me olhou e disse: “e hoje vc veio com uma blusa de flores laranja com fundo azul celeste, lembra?

    Resposta

  3. Posted by Eiane Boscatto on 06/08/2012 at 01:13

    Gostei muito e acho que ser poeta é muito mais difícil que ser cronista. Se o que você escreveu não é uma crônica, é quase uma; ou então eu não sei o que é uma crônica. Abraços.

    Resposta

  4. Estive nesta mesma região, Serra do Roncador, Barra do Garça, rio da Mortes que me impressionou porque foi ali que os bandeirantes mataram xavantes aos montes. Rio límpido de história sangrenta. Me impressionei com as histórias dos entes que morariam sob a terra e imaginei seres postados à porta das grutas e nos paredões vermelhos de arenito. Impressionante arquitetura . Ouvi relatos de garimpeiros que fecharam uma mina de ouro porque teriam sentido um vento atravessando paredes quando desciam galerias subterrâneas e perguntavam: “o vento vem de onde?” Sem resposta, sumiram, avisando o dono da mina que nunca mais voltariam porque também ouviram conversas entre paredes. O dono da mina é hoje dono de um hotel fazenda, cujo balcão do bar é feito de pedras com pequenos filetes de ouro, isso eu vi e trouxe para mim um cristal, ao menos um cristal, da terra mágica.

    Estive numa caverna para uma cerimônia da Deusa, a convite da Secretaria de Turismo do MT (rs) que chamou toda imprensa nacional na ocasião para ver o ritual celebrado por uma sensitiva. Os estalactites e as sombras da noite sob a chama das tochas eram por si um cenário teatral magnífico. Diziam que no mesmo dia e hora outros rituais semelhantes aconteciam em pontos estratégicos da Terra: Monte Fuji, Himalia, Andes e..Serra do Roncador. No dia seguinte entrevistei a Deusa à luz do dia, tinha um não sei quê de outro mundo, mas o marido era um ótimo marketeiro. Não curti. Mas adorei o relato da Deusa sobre sua vida passada: nativa prisioneira dos espanhóis na conquista do Peru, tão assustada com a crueldade que até hoje, quando ouve barulhos, esconde-se embaixo das pedras.

    Ouvi falar do coronel Fawcett e seu sumiço, neste lugar tudo some e aparece, evapora e desce…simples assim como quem entra e sai de um ônibus. Li depois os relatos dos Irmãos Villa Boas que souberam da morte de Fawcett a bordoadas pelos índios. Escrevi um caderno inteiro de turismo místico num tempo em que a imprensa não economizava papel. Hoje teríamos algumas notas sobre este mundo fantástico, mas resta este espaço maravilhoso dos blogs e do seu blog, onde podemos falar à vontade das coisas mais absurdas…rs
    Nunca mais voltei à Serra do Roncador, saí num ônibus e ninguém mais me viu nem eu os vi, a urbanidade me engoliu além dos mistérios. Mas se quiser um dia volto contigo ao um mirante, onde tb vi – sim eu vi – as luzes que se levantam e abaixam nos céus da chapada, como faróis das naves pilotadas por ETs. Em nome dos acasos, podemos voltar lá e viajar nas lendas ou, com sorte, a bordo de um disco-voador.

    Grata pelo seu relato magnífico que sacudiu minhas memórias sobre um lugar tão inesperado e…profunda!

    Resposta

  5. O acaso objetivo, segundo Hegel é “o lugar geométrico das coincidências”. Por exemplo, o acúmulo de índices e de coincidências configuraria um encontro feliz ou fatal…

    Resposta

  6. haha…que relato instigante! “…las hay las hay…”

    não duvide.

    Beijos!

    Lu

    Resposta

  7. Posted by solange padilha on 24/06/2014 at 17:45

    a vida nessas lonjuras parece q para sempre sobre os mesmos planos, acidentes ou personagens. Sempre neles se reencontram todas as coisas em todos os tempos por mais q não se acredite ou por mais q os mistérios pareçam já decifrados.

    Resposta

  8. Posted by Renato on 23/08/2015 at 00:17

    Gostaria de receber mais histórias fantásticas

    Resposta

  9. Posted by Tiago Herrera on 29/12/2015 at 14:10

    Relato instigaste e inspirados. Falta só o sr Cláudio passar um mês inteiro lá e escrever um livro…ou um roteiro…ou uma novela !!!

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: