Rimbaud para censores

ARTHUR RIMBAUD

O MAL

 

Enquanto esse cuspir vermelho da metralha

Silva no céu azul o dia inteiro, e logo,

Verdes ou rubros, junto ao Rei que os achincalha,

Tombam os batalhões em massa sob o fogo;

 

Enquanto a insânia horrenda arde num fogaréu

Cem mil homens e os deixa a fumegar, demente,

– Pobres mortos! na relva, ao sol do estio, em teu

Seio, Natura, ó tu que os criaste santamente! …. –

 

– Existe um Deus, que ri nas toalhas dos altares

Num cálice dourado, entre incensos, e nesse

Tranqüilo acalentar de hossanas adormece;

 

E acorda quando as mães, morrendo de pesares,

Choram de angústia, sob o negro xale imenso,

E Lhe dão uma moeda, amarrada no lenço!

 

A tradução é de Ivo Barroso, em Arthur Rimbaud, poesia completa, editora Topbooks.

Motivo desta postagem? Entre outros, pelas intervenções recentes de censores do Facebook, que retiraram um poema de Lou Albergaria, transcrito a seguir, conforme registrado em meu dossiê. A mensagem é a mesma – mas  o de Rimbaud adiciona em blasfêmia. Vamos ver se ousam.

Queria veicular outros dos poemas do Rimbaud satírico, blasfemador e provocador, com tratamentos para a Igreja, Deus, autoridades e bons costumes. Sempre, dedicando as postagens aos censores. “Os aduaneiros”, “Agachamentos”, “Os pobres na igreja”, “As primeiras comunhões” (especialmente), algo de “Os stupra” (“Nossas nádegas não são as delas…” e “Franzida e obscura flor…”, sobre o cu) e, é claro, do “Álbum zútico”. Procurei no Google – há seleções de Rimbaud disponíveis, de boa qualidade, porém estetizantes, deixando de lado esse Rimbaud-porrada, adolescente enfurecido, implacável. Alguém, algum dos rimbaudianos do pedaço, os transcreveria ou passaria um scanner?

 

PALAVRÃO
Lou Albergaria
existem palavrões nessa vida
que deterioram e molestam o Ser
muito mais do que palavrinhas tão
puras e inocentes quanto caralho,
boceta, cona, xana,… Eu poderia ficar
a tarde inteira enumerando-os
e daria para formar uma lista
talvez a mais verdadeira Lista de Schindler.
mas como não quero perder a novela
das seis nem o tesão pela vida
vou me deter em apenas três
que considero os mais cabeludos
de todos os tempos e eras paraglaciais
que arrepiam os pelos até do meu
cancioneiro analfabeto e tão cético:

Estado, Igreja e
Instituições Financeiras.

Que boca suja, meu Deus! Perdão!
Perdão!…
Prometo purificá-la daqui a pouco com as PUTAS.

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4 responses to this post.

  1. OS STUPRA

    Outrora os animais cobriam-se em carreira,
    As glandes a pingar de sangue e de excremento
    Expunham nossos pais o membro corpulento
    No vinco da braguilha e no ancho da algibeira.

    Na Idade Média, para a fêmea – anjo ou rameira -,
    Se impunha o latagão de sólido argumento;
    Mesmo um Kléber, com seu culote que amaneira
    Talvez demais, devia honrar seu documento.

    Ao mamífero mais fogoso o homem igualo:
    O tamanho de seu membro espanta-nos, sem
    Razão; mas soa uma hora estéril: o cavalo

    E o boi refreiam seus instintos; e ninguém
    Ousa mais exibir seu orgulhoso falo
    Nos bosques onde a infância em chusma se entretém.

    ***

    Nossas nádegas não são as delas. Ao cabo,
    Vi várias se aliviando atrás de alguma moita.
    E, nesses banhos nus, da meninada afoita
    Apreciava o formato e o feitio do rabo.

    Mais firme, e, com frequência esmaecido, aflora
    Relevos naturais que uma touceira veda
    De pêlos; nelas, só na prega encantadora
    É que se desabrocha a longa e espessa seda.

    De uma engenhosidade e um toque extraordinários
    Que só se pode ver nos anjos dos sacrários,
    Imita uma bochecha a que um sorriso afunda.

    Oh! estar assim, nus, alegres e de bruços,
    Voltada a face para essa porção jucunda
    E libertos os dois a murmurar soluços?

    ***

    Franzida e obscura flor, como um cravo violeta,
    Respira, humimldemente anichado na turva
    Relva úmida de amor que segue a doce curva
    Das náfegas até ao coração da greta.

    Filamentos iguais a lágrimas de leite
    Choraram sob o vento ingrato que as descarna
    E as impele através de coágulos de marna
    Para enfim se perder na rampa do deleite.

    Meu sonho tanta vez se achecgou a essa venta;
    Do coito material, minha alma ciumenta
    Fez dele um lacrimal e um ninho de gemidos.

    É a oliva extasiada e a flauta embaladora,
    O tubo pelo qual desce o maná de outrora,
    Canaã feminil dos mostos escondidos.

    [Arthur Rimbaud, “Poesia completa”. Trad. Ivo Barroso.]

    Responder

  2. Mágico Rimbaud!

    Responder

  3. Agora, fazendo uma pesquisa sobre meus poemas no google, foi que vi que publicou um deles aqui no seu post. Que honra, professor!!

    são quatro palavras, ops: Estado Igreja e Instituições Financeiras. ufa!! deu até urticária agora. hehe….socorro!!

    Beijos, querido professor!

    P.S. Hoje vou comprar a revista Cult para ler o artigo sobre sua poética. estou ansiosa para ler uma análise sobre o seu encantatório universo que admiro tanto.

    sempre saudades!!

    Lu

    P.S 2: Volte a BH, por favor.

    Responder

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