Rimbaud para censores, 2

Atendendo a meu pedido na postagem precedente, Leonardo Morais mandou-me “Os stupra”. Rimbaud e sexo selvagem – tem de tudo. Lembrando: esses sonetos circularam só a partir de 1923, divulgados, como não podia deixar de ser, por André Breton e Louis Aragon na revista Littérature. O terceiro dos poemas também foi publicado como “Soneto do buraco do cu” (saiu com esse título, pouco tempo atrás, no jornal Folha de S. Paulo). Sua autoria chegou a ser posta em dúvida. Mas são indiscutivelmente de Rimbaud, embora tenham a mão de Verlaine (que criou bastante poesia obscena) e outro colega. Em um modo mais cifrado, Rimbaud relatou algo semelhante, um furor erótico, na prosa poética “Bottom”, de Iluminações. A tradução é de Ivo Barroso, conforme Arthur Rimbaud – Poesia completa, ed. Topbooks. Espero que Ivo não se incomode com a difusão não-autorizada, mas é por uma boa causa: provocar censores – além de corrigir o que chamei de viés estetizante na divulgação de Rimbaud no meio digital.

  1. OS STUPRA

Outrora os animais cobriam-se em carreira,
As glandes a pingar de sangue e de excremento
Expunham nossos pais o membro corpulento
No vinco da braguilha e no ancho da algibeira.

Na Idade Média, para a fêmea – anjo ou rameira -,
Se impunha o latagão de sólido argumento;
Mesmo um Kléber, com seu culote que amaneira
Talvez demais, devia honrar seu documento.

Ao mamífero mais fogoso o homem igualo:
O tamanho de seu membro espanta-nos, sem
Razão; mas soa uma hora estéril: o cavalo

E o boi refreiam seus instintos; e ninguém
Ousa mais exibir seu orgulhoso falo
Nos bosques onde a infância em chusma se entretém.

***

Nossas nádegas não são as delas. Ao cabo,
Vi várias se aliviando atrás de alguma moita.
E, nesses banhos nus, da meninada afoita
Apreciava o formato e o feitio do rabo.

Mais firme, e, com frequência esmaecido, aflora
Relevos naturais que uma touceira veda
De pêlos; nelas, só na prega encantadora
É que se desabrocha a longa e espessa seda.

De uma engenhosidade e um toque extraordinários
Que só se pode ver nos anjos dos sacrários,
Imita uma bochecha a que um sorriso afunda.

Oh! estar assim, nus, alegres e de bruços,
Voltada a face para essa porção jucunda
E libertos os dois a murmurar soluços?

***

Franzida e obscura flor, como um cravo violeta,
Respira, humimldemente anichado na turva
Relva úmida de amor que segue a doce curva
Das náfegas até ao coração da greta.

Filamentos iguais a lágrimas de leite
Choraram sob o vento ingrato que as descarna
E as impele através de coágulos de marna
Para enfim se perder na rampa do deleite.

Meu sonho tanta vez se achecgou a essa venta;
Do coito material, minha alma ciumenta
Fez dele um lacrimal e um ninho de gemidos.

É a oliva extasiada e a flauta embaladora,
O tubo pelo qual desce o maná de outrora,
Canaã feminil dos mostos escondidos.

[Arthur Rimbaud, “Poesia completa”. Trad. Ivo Barroso.]

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3 responses to this post.

  1. O cu é sempre uma ótima fonte para belos poemas.

    Responder

  2. Um trecho especialmente bonito:

    Filamentos iguais a lágrimas de leite
    Choraram sob o vento ingrato que as descarna
    E as impele através de coágulos de marna
    Para enfim se perder na rampa do deleite.

    Responder

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