Hilda Hilst para censores, 1

(depois da série “Rimbaud para censores”)

“- Não percebes, Samsara [….]

Que há uma luz que nasce da blasfêmia

E amortece na pena?”

(Hilda Hilst, em Amavisse)

“… e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida” (Hilda Hilst, em A obscena senhora D)

As duas epígrafes, para quem me mandou uma “cause” de Facebook pela retirada de “blasfêmias contra o Sagrado Nome de Cristo no youtube” (o que querem,vetar “Like a Virgin” da Madonna? outra vez…?). Claro que isolei, bloqueei quem enviou, assim como os que me mandaram ‘causes’ contra suposta pornografia na rede social etc. Já me disseram para não tomar conhecimento. Mas faço questão de combatê-los, pois acho que são expressão de movimentos organizados, empenhados em promover retrocessos no que conseguimos de liberdade de expressão.

Quanto à obra de Hilda Hilst, há quem separe aquela parte na dicção sublime e a outra obscena. Não – dualismo em Hilda é busca da unidade, e os dois modos, do sublime e do abjeto, buscam dizer o inominável. Completam-se, genialmente.

Por isso, de A obscena senhora D, um trecho especialmente edificante:

olha Hillé a face de Deus

onde onde?

olha o abismo e vê

eu vejo nada

debruça-te mais agora

só névoa e fundura

é isso. adora-O. Condensa névoa e fundura e constrói uma cara. Res facta, aquieta-te.

E agora vejamos as frases corretas para quando eu abrir a janela à sociedade da vila:

o podre cu de vocês

vossas inimagináveis pestilências

bocas fétidas de escarro e estupidez

gordas bundas esperando a vez. de quê? de cagar nas panelas

sovacos de excremento

buraco de verme no oco dos dentes

o pau do porco

a buceta da vaca

a pata do teu filho cutucando o ranho

as putas cadelas

imundos vadios mijando no escuro

o pó o pinto do socó o esterco o medo, olha a cançãozinha dela, olha o rabo da víbora, olha a morte comendo o zóio dela, olha o sem sorte, olha o es-queleto lambendo o dedo

o sapo engolindo o dado

o dado no cu do lago, olha, lá no fundo

olha o abismo e vê

eu vejo o homem. 

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6 responses to this post.

  1. Isso que é poder, hein Professor! criei senha no wordpress apenas para lhe deixar meu afetuoso abraço.

    Belíssimo post! Salve, Hildinha! magnífica!

    Beijos, Claudio!

    Responder

  2. Vi uma entrevista dela onde afirmava que O Caderno Rosa de Lori Lamby era um lixo , bem ao gosto dos editores. Mas mesmo ela dizendo, não considero aquilo um lixo…gosto da Lori e suas safadezas, e aquele fim inusitado de ser tudo ficção, imaginação…li o livro de uma vez só , acho que num dia. É que HH escreve tão bem que mesmo seus protestos “mal escritos” são literatura. E que saltos ela dá, de um poema escatológico como este aos encantos de Do Desejo. E é a mesma autora, exercitando a unidade como vc bem diz..

    Responder

  3. Posted by Tânia Maria Ferreira de Castro on 14/11/2012 at 21:04

    Hoje tive a sorte de assistir na TV sua entrevista via SESC, sobre Hilda Hilst. Que Brasil cruel literaturalmente falando… Na trajetória de meus estudos desde o primário até a Universidade pública, NUNCA ela foi incluida como referência de estudos. Eu a descobri já adulta em crônicas de jornais e posteriormente pela internet….
    parabéns por sua fidelidade a valores tão especiais quanto HH!
    Tania

    Responder

  4. Infelizmente ainda não li nenhuma obra da Hilda Hilst. Mas que coisa perfeita do caralho esse trecho aí, hein. Não posso perder mais tempo.

    Responder

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