Monteiro Lobato, censura e analfabetismo funcional

Perto de 70% dos brasileiros são analfabetos funcionais, mostram pesquisas. Travam diante de textos mais complexos.

Censura é um modo de analfabetismo funcional. Leitura linear, em uma só direção, com antolhos.

Censores sempre consagram o analfabetismo funcional.

Discussão da vez, de hoje, conforme noticiado: no Supremo, a ação contra o ‘racismo’ em Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato. Está em:

http://noticias.terra.com.br/educacao/noticias/0,,OI6145038-EI8266,00-STF+vai+discutir+polemica+em+obra+de+Monteiro+Lobato.html

Concordo com Alcir, Noemi e demais especialistas consultados na matéria da Folha: se submeterem obras literárias a esse crivo, não sobrará quase nada. Aplicar desse modo a correção política é passar um trator sobre conteúdos.

Ah, sim! E houve aquele outro caso, de Dalton Trevisan retirado dos vestibulares da Federal de Viçosa. Ponto a favor de Dalton. logo será a vez de Rubem Fonseca, de João Antonio, de….

Parecem aquele outro episódio, dos dicionários obrigados a retirar acepções da palavra ‘cigano’, que já comentei aqui:

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/28/as-palavras-proibidas/

Tal judicialização de questões do campo da linguagem e da literatura é um retrocesso bestial. Ao baterem desse jeito à porta dos tribunais, vão atropelando o conhecimento, desprezando quem estudou. Donos da verdade, querem impor-se na marra a especialistas sérios, instrumentalizando o judiciário e fazendo todo mundo perder tempo. Isso das expressões usadas para referir-se à Tia Nastácia: qualquer pedagogo minimamente preparado tira isso de letra, resolve – ajudará a compreender a questão, em vez de ampliá-la através de imposições autoritárias. Como se algum esbirro racista precisasse ler Monteiro Lobato. Querem combater racismo? Então mostrem a verdade, é tão simples (mas tão difícil de entender, para alguns) Como fez Umberto Eco, ao provar que os Protocolos dos Sábios do Sião eram cópia de um trecho de Balsamo, a biografia ficcionalizada de Cagliostro por Alexandre Dumas, apenas trocando os maçons (igualmente difamados, no caso) por judeus.

Praga da judicialização de questões literárias é prima-irmã da outra, a interferência em biografias e pesquisas. Ou são a mesma? Estão se tornando tipicamente brasileiras. Por causa de nossos 70% de analfabetos funcionais.

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16 responses to this post.

  1. simplesmente perfeito seu post!

    há uma “caça às bruxas” em nome do “politicamente correto”. na verdade, um eufemismo para analfabetismo funcional. só mesmo analfabetos buscam essa polidez obsessiva e tão rígida das ideias e da linguagem.
    pessoas que gostam e sabem pensar sempre vão além da leitura literal e linear.
    é muito mais cômodo fazer uma leitura simplista e rotular pessoas e ideias segundo regras arbitrárias e retrógradas.

    abrir é preciso! mentes almas e,…

    deixo minha contribuição a interpretação dinâmica e poética dos fatos!

    Beijos!

    Lu

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  2. Caro Willer, essa é uma explícita demonstração de desvio de foco. Os que defendem essas anomalias estão orientando, de maneira violenta, a discussão sobre o racismo para outros campos. espaços que não atendem as discussões verdadeiramente sérias sobre a questão.
    É mais fácil censurar Monteiro Lobato que aceitar que o problema do Brasil é muito mais de caráter social que racial.
    Quanto a questão da Tia Anastácia, concordo plenamente com o sr., não é preciso ser um especilista no assunto para expor os contextos da produção de Lobato. Se o Brasil tem 70% de analfabetos funcionais é porque esses governos de discursos reformistas ( nota-se que são apenas discursos) não resolvem problemas estruturais como a educação, por exemplo. É, mais uma vez, uma exibição gratuita da hipocrisia dos três poderes.

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  3. Posted by Máh Luporini on 11/09/2012 at 22:01

    É preciso ‘retalhar’ as mentes arcaicas dos alfabetos funcionais, mais fácil uma leitura simplista do que um texto complexo, como você bem abordou, willer. e assim prossegue a censura que hoje mudou de nome, e pensar que tantos morreram, foram presos, torturados por absolutamente nada. Estamos sendo vigiados!

    Beijos,

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  4. Posted by pedro borges on 11/09/2012 at 22:10

    uma coisa é perceber nos textos, na biografia, nas ideias de lobato, um racismo bem nítido; outra é sair proibindo: que fique tudo muito claro e disponível para ser problematizado, para se refletir a respeito – e talvez, quem sabe, para mudar de opinião.

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  5. esqueci de deixar o endereço do blog, onde há um texto sobre lobato e ziraldo, escrito sem uma boa revisada ou editada: http://balaiodopedrao.blogspot.com.br/2011/03/ziraldo-lobato-e-o-racismo-sem-odio.html

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  6. Posted by GILBERTO OLIVEIRA on 11/09/2012 at 22:28

    É mais uma besteira para desviar a atenção do povo, das eleições fraudulentas que se pratica no Brasil, com urna eletrônica e voto obrigatório. E vai aparecer mais besteiras ainda.

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  7. Posted by Daniel Gambín on 11/09/2012 at 23:49

    “De sexo, religião e futebol não se fala”
    Esta frase conta com o apoio da maioria dos brasileiros.
    A censura é sustentada por maiorias.
    Só legislações avançadas que defendam direitos universais, defendam minorias e protejam e promovam a cultura conseguem ajudar a sociedade.
    É necessário ter legistas ilustrados e não deixar as leis a sorte dos apenas eleitos.
    Democracias da mediocridade condenam a população ao patamar inferior da cultura humana, tirando dos indivíduos o seu essencial.
    O ruim dos analfabetos funcionais é a falta de horizonte o sonho pequeno a falta de fé no ser humano. O infame dos alfabetizados inteligentes que atuam em política para se aproveitar das diferencias é a opção de não abrir horizontes e a mesma,porem previa, falta de fé no ser humano.

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  8. Outro dia a vendedora de um sebo me disse que achava um absurdo deixarem publicar um livro como o Fausto, do Goethe, por conta do personagem central ter negociado a alma com o demônio. Sinceramente, para mim, não há diferença nenhuma entre esta balconista e a nova onda da crítica literária moralizante. Não sabem diferenciar crítica social de julgamento moral. O problema não está no analfabetismo funcional apenas: essas posturas policiais partem dos próprios acadêmicos.

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  9. essa história já me assombrou. e tem aquele papo de banir o guimarães rosa por contada norma culta. o sono da loucura produz monstros.

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  10. Sim, Cláudio querido, você foi muito feliz neste post. Claríssimo, didádico, perfeito!
    Ah, Deus, querem “policiar” a arte, estamos onde? Querem intervir e retificar obras literárias consagradas …? Que essas ondas de estultices tenham prazo de validade e logo possam de esvair de vez do pensamento que sequer aprendeu a pensar. Abraço amigo

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  11. Claudio, desculpe discordar. Um menino mulato de 10 anos que se depara com seus antepassados sendo caricaturizados e imbecilizados na escola nunca vai assumir sua negritude. O que implica que, caso esse mesmo menino um dia saia da condição de desfavorecido, ele nunca se interesse em romper essa estratificação econômico-racial do Brasil. As caçadas de Pedrinho continua a ser um ótimo livro, mas hoje deve ser lido por adolescentes, sob a ótica que você sugeriu. Ou que seja alterado o texto, qual é o problema? Vai doer, ou sacrificar as qualidades literárias, se trocarmos um eventual “-DISSE A MACACA DE CARVÃO” por “- DISSE A TIA ANASTÁCIA”?

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    • Pode discordar. Mas meu argumento é que essa discussão não é judicial, porém educacional.

      Resposta

      • Mas você acha que os pedagogos da escolas públicas estão “minimamente preparados”? Se estivessem, estaria com você. A ação judicial está protegendo as pessoas da fragilidade do nosso sistema de ensino.

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