Ainda Monteiro Lobato

Claro que gostei de ter centenas de acessos (630 até agora) a minha postagem sobre a discussão de racismo em Caçadas de Pedrinho de Monteiro Lobato, mais a torrente de comentários no Facebook.

Mas não sei se fui bem entendido. Por exemplo, na questão do valor e da ideologia de Monteiro Lobato.

“Jeca Tatu”, sua estréia em livro e principal obra em prosa ‘adulta’, é preconceituosa. Faz uma defesa obscurantista do progresso. Misturou positivismo e idéias adaptadas do evolucionismo, eugenistas, que tiveram conseqüências perversas. É possível, sim, recortar trechos racistas em sua atuação como polemista. Sua intervenção sobre modernismo foi um desastre. Como crítico musical, como bem mostra a biografia por Edgar Cavalheiro, foi confuso e idiossincrático.

Por outro lado, na literatura infantil foi um antes e depois, marco divisor ainda não ultrapassado sob certos aspectos. Criou um mundo mágico, liberou um imaginário brasileiro. Humanizou a criança – é difícil adultos fazerem isso. Retratou e ao mesmo tempo mitificou um ambiente rural, tornando-o paradisíaco. Trouxe a língua falada para o texto escrito – seus personagens falam, transmitem espontaneidade e por isso credibilidade – sem rebaixar o idioma. Ele sabia ouvir, e por isso sabia escrever. Além disso, soube transformar mitos em fábulas de modo magistral.

Foi corajoso. Encarou a repressão getulista. Como empreendedor no campo editorial, foi magnífico, um visionário lúcido. Íntegro e ao mesmo tempo duplo, um progressista e um conservador, ambos extremados, ambos movidos pela paixão.

Escritores são assim: ambivalentes, por vezes paradoxais. Não têm obrigação de se enquadrar na ideologia e escala de valores de todos os seus leitores.

Mostrar ideologia em criações literárias é tarefa para professores, pedagogos, críticos literários. Assim como o é, principalmente, mostrar onde está o valor, qual é a contribuição especificamente literária, quais os motivos para considerar relevante uma obra.

O que não admito, assim como no caso dos ciganos do dicionário, é atravessarem. Transferirem o que, em uma sociedade aberta, naturalmente é tema de debate, para o judiciário. É um modo do autoritarismo. Idem em outros casos – por exemplo, em Vilma Guimarães Rosa versus Alaor Barbosa: as objeções dela à biografia de Guimarães Rosa por Alaor são tipicamente do campo da crítica literária, e não do Direito (li trechos da ação).

O que faz ou deve fazer o juiz? Chamar peritos. Especialistas. Como neste caso, de Monteiro Lobato, opinarão, darão parecer, dirão coisas semelhantes às que estou dizendo aqui e que já estão sendo ditas. Em conseqüência, o processo todo acaba dando uma volta, chegando ao lugar de onde nunca precisaria ter saído, ao campo da crítica literária e disciplinas afins.

Qual a conseqüência da judicialização do debate literário? Alugar, emperrar, tomar tempo do Judiciário e de todo mundo envolvido no caso. Atrasar outras ações, coisas realmente sérias, julgamentos de indenizações, crimes etc. Essa tentativa de burocratizar (mais ainda) o saber devia receber condenações por litigância abusiva.

Há pior – como no caso de algumas biografias: os editores que se intimidaram, retiraram obras, fugiram dos processos.

A reação da sociedade, ou da parcela culta da sociedade, nesse caso de Monteiro Lobato, ajudará a corrigir esses abusos. Contribuirá para restaurar a livre circulação de informações. Extinguirá focos de obscurantismo, mesmo agindo em favor de idéias aparentemente progressistas, politicamente corretas. Algo da herança do Iluminismo, que privilegiava a liberdade de expressão e os avanços no saber, precisa ser preservado.

(alô alô – convites para palestras, estou disponível sobre beats, surrealistas, Piva & friends, Lautréamont & Rimbaud etc – sobre Monteiro Lobato, não – tem gente que entende mais que eu, isso que foi exposto acima é Lobato básico -mas ainda assim não alcançado pela turma do politicamente correto, por nossos analfabetos funcionais)

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12 responses to this post.

  1. Importante.

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  2. Compactuo de sua visão, Willer, sobretudo sobre essas várias facetas do Monteiro. Um personagem muito complexo que merece uma analise apurada.
    Abraços.

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  3. tá cheio de IBOPE, hein, fessô!!! parabéns! você merece!

    Em relação ao seu post, creio que um autor não consegue ficar alheio a suas ideologias no momento da criação. Monteiro Lobato era um grande nacionalista que beirava o ufanismo absurdo. Ele realmente acreditava num ESTADO poderoso e com milhares de tentáculos. Era a crença dele naquela época – início do século XX – por isso não o culpo. naquele momento, não era possível se conceber um mundo tão livre do Estado. E, em certa medida, foi mesmo necessário um estado forte para que pudéssemos consolidar as bases do capitalismo em nosso país. não vou me estender muito, senão retorno às aulas de Economia na PUC. hehe….

    voltando ao Monteiro Lobato, acredito que sua obra foi fundamental para nossa cultura e alguém tão extraordinário, como ele, realmente precisa de peritos e leitores bastante afiados com a história e com a sociologia das ideias. não é mesmo de fácil compreensão.

    amei o post! Beijos!!

    sempre sucesso a ti!

    Lu

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  4. por outro lado, basta um leitor disposto a mergulhar no universo mágico de Monteiro Lobato para sentir seus encantos, sem precisar tantas elucubrações teóricas…rsrs

    uma criança não precisa conhecer tantas ciências para amar e se encantar pelo grande autor em questão.

    Beijos!!!

    senti que faltou esse outro lado da resposta.

    gosto de ganhar dez, professor!!! e com louvor! hehe….

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  5. Pô, Willer, mas o caso aqui não é “O” Monteiro Lobato. As crianças quarta série não vão chegar lá. Nem os pedagogos, porque os adultos desse país não conseguem discutir razoavelmente a questão racial (veja a coisa das cotas).
    Desculpa a chatice aqui, mas acho o assunto muito importante. Não me permito ficar quieto.

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  6. Ricardo, remeto-o ao comentário anterior, de Lou Albergaria, falando em ‘universo mágico da criança’. Tem gente legislando sobre o modo de leitura da criança, sem ter penetrado em seu universo cognitivo. Falo mais sobre isso depois de me deixarem fazer rodas de leitura de ‘As caçadas de Pedrinho’ com crianças e saber o que deu. E combater racismo mexendo em Monteiro Lobato é, obviamente, confundir a parte (e uma parte bemm pequena) com o todo (um todo bem grande…)

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  7. Minha amiga Lou Albergaria, sempre presente.

    Abraço !

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  8. PS – Vim conhecer o seu espaço, depois de comentar no mural da Lou sobre a sua foto e a pseudo-censura (lá assino como Jota Nuno)

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