A censura na ABL e em outros lugares

Entendi a causa do recente recrudescimento da censura, em episódios parcialmente registrados e comentados neste blog.

É que em 1969 foi publicada uma entrevista com Leila Diniz no jornal O Pasquim, na qual a atriz usava bastante palavras; um repertório, digamos assim, amplo.

Moralistas são tardígrados. Demoram para reagir. Levaram 43 anos até esboçar uma resposta, uma espécie de contra-ataque. São canhestros, desajeitados, incompetentes: a reação se traduz em episódios risíveis, como esse mais recente da censura a expressões como “buceta’ utilizadas por Jorge Coli em palestra sobre sexo não ser mais o que era na ABL, Academia Brasileira de Letras, no ciclo “Mutações – O futuro não é mais o que era”, organizado por Adauto Novaes, como noticiado em http://oglobo.globo.com/cultura/abl-censura-transmissao-de-palestra-do-ciclo-mutacoes-sobre-sexo-6102247#ixzz26XSGHdno

Por volta de 2002, cheguei a elogiar a Academia pela programação cultural: boas palestras e publicações (como registrado em entrevista para o ‘Provocações’ de Abujamra, disponível no youtube). Se fosse hoje, se me consultassem para dar palestra na ABL, apresentaria uma lista de sugestões perfeitamente compatíveis com o elevado estatuto cultural da Casa de Machado:

  1. Homenagens a Bernardo Guimarães (patrono da Cadeira n. 5 da Academia): O elixir do pajé, expressão da nacionalidade
  2. Homenagens a Bernardo Guimarães (patrono da Cadeira n. 5 da Academia), II: um romântico libertário?
  3. Homenagens a Bernardo Guimarães (patrono da Cadeira n. 5 da Academia), III: poesia licenciosa, resgate de uma tradição.
  4. Literatura comparada: como estabelecer o ‘corpus’ de Gregório de Mattos? (incluindo cotejos com outros autores do período, seguidores e precursores)
  5. Gil Vicente: língua falada, calão e criação literária
  6. Goliardos: liberadores medievais
  7. O valor poético em Os Stupra e outras sátiras de Rimbaud
  8. Simbolismo: o Verlaine oculto
  9. Modernismo: o Apollinaire público e subterrâneo
  10. Hilda Hilst: uma seleta de máximas edificantes.
  11. Hilda Hilst: armadilhas para o leitor ingênuo em O caderno rosa de Lori Lamby
  12. Glauco Mattoso, um tradicionalista
  13. Lirismo, imagens, língua falada e obscenidades em Roberto Piva
  14. Sebastião Nunes, editor e poeta: recuperando uma tradição
  15. Linguagem e corpo em Allen Ginsberg
  16. A censura à poesia, de Baudelaire a nossos dias
  17. Ulisses de James Joyce: alguns trechos sugestivos
  18. James Joyce: o fetichismo nas cartas para Nora Barnacle
  19. D. H. Lawrence: eufemismo e hipocrisia em traduções de O amante de Lady Chatterley
  20. Almoço nu de William Burroughs e a derrocada da censura
  21. De Jean Lorrain a João do Rio: metáforas da perversão?
  22. Pierre Louÿs e a pseudo-epigrafia: uma precursor da pós-modernidade?
  23. Pierre Louÿs: o falso moralismo como sátira em Manual de boas maneiras para meninas
  24. Mestres do humor negro: o Marquês de Sade
  25. Categorias filosóficas de Georges Bataille e seus relatos em prosa
  26. Vladimir Nabokov, além de Lolita: erudição e transgressão
  27. Henry Miller: sua prosa poética, uma lírica da licenciosidade
  28. Uma erótica surrealista: Robert Desnos (incluindo leitura das páginas sobre o “Clube dos bebedores de esperma” de La liberté ou l’amour!)
  29. Louis Aragon: surrealismo e libertinagem em Le con d’Irène (textualmente, ‘A buceta de Irene’)
  30. Octavio Paz e a “dialética da cara e do cu” em Conjunções e disjunções (da série “Homenagens a ganhadores do Premio Nobel de Literatura”)
  31. A lírica selvagem de Joyce Mansour
  32. Judith Teixeira e o modernismo português: o preconceito contra a mulher na poesia
  33. Gilka Machado e o modernismo brasileiro: o preconceito contra a mulher na poesia
  34. Raul Leal: luxúria e sodomia no modernismo português
  35. Fernando Pessoa lido por Mario Cesariny: uma crítica à dissimulação?
  36. De Mario Cesariny a Al Berto: uma linhagem do desregramento na poesia portuguesa?
  37. Herberto Helder, poeta do corpo
  38. Antropologia e História das Religiões: o valor mágico-religioso das blasfêmias, da licenciosidade e da nudez.

Não que esteja preparado para dar todas essas palestras – alguns dos temas poderiam ser desenvolvidos pelo próprio Jorge Coli e outros intelectuais qualificados. E haveria mais – muito mais…

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12 responses to this post.

  1. Posted by Luiz Roberto Guedes on 16/09/2012 at 13:19

    “Lírica da licenciosidade” é lindo… Mas o moralismo mondrongo recrudesceu no século 21, creio, na esteira do advento da AIDS, que tornou o sexo uma coisa “suja” e potencialmente MORTAL. Então, o sexo fica sendo, no máximo, o recurso metafórico que a publicidade usa para vender automóveis, bebidas & outros símbolos de sucesso.

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  2. Posted by Ruth on 16/09/2012 at 13:45

    Quero ouvir sobre Glauco Mattoso!!

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  3. Beleza de lista de palestras, se a ABL não vai acatá-las, algum responsável por espaços culturais podia muito bem se aventurar por aqui e levar o pacote completo para terminarmos o ano de bem com o corpo, o erotismo e a poesia. Alô, alô curadores, olhem que bela lista de palestras fascinantes e adequadas ao momento triste de censura à arte, enquanto o pornô pra valer corre solto por aí! E se queria o professor Jorge Colli falar justamente sobre as aproximações e distanciamentos dos dois conceitos, a ABL perdeu o bonde por burrice. Esta abordagem interessa e muito!

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  4. O atraso da Casa de Machado de Assis, contrasta com a modernidade do patrono em sua vasta obra literária. No mais, virou política o posicionamento de alguns “imortais”; vê-se pela nomeação das cadeiras e uma eleição elitista. Nada me diz a ABL, como dizia nada também; para a inteligência exímia de Carlos Drummond de Andrade e outros que se negaram a fazer parte da Agremiação.

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  5. Alguém viu as restrições aos interessados em participar da bolsa da FUNARTE? Passamos da era do Capital para a era do Controle, alguma dúvida? É o Estado a disciplinar as ações privadas.

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  6. Posted by Máh Luporini on 16/09/2012 at 21:32

    Belissíma lista de sugestivas palestras, bem que algum curador de algum espaço cultural sem censura poderia e deveria levar este pacote de intensidade e erotismo, como bem disse a Célia para terminarmos o ano de bem com a vida e o corpo.
    Coloco meu jornal ‘O GRITO CULTURAL’ para sua disposição, mestre Willer.
    Provocaremos! Beijos!

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  7. Posted by Esmélin Fernández\ on 16/09/2012 at 22:59

    A lista é muito excitante mas o que me chama atenção é a Antropologia e História das religiões: o valor mágico-religioso das blasfêmias, da licenciosidade e da nudez.. Uma grande heresia!

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  8. Posted by neres on 17/09/2012 at 00:50

    Octavio Paz e a “dialética da cara e do cu” em Conjunções e disjunções (da série “Homenagens a ganhadores do Premio Nobel de Literatura”). “estarei na primeira fila, mas acho que poderia incluir algo do “Dupla chama”, rsss

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  9. Posted by Eiane Boscatto on 17/09/2012 at 01:09

    Interessante essa lista de palestras. Dessa lista conheço poucos por já ter lido alguma obra deles: Henry Miller, Hilda Hilst, Vladimir Nabokov, Fernando Pessoa, Marquês de Sade. Mas fiquei especialmente interessada na Antropologia e História das Religiões.

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  10. Muito bom, muito bom! A lista pode ser imensa, ainda mais sob temas tão saborosos! Que tal um Restif de La Bretonne, uma Anaïs Nin?

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