Pedagogia: o Colégio Rio Branco

Alunos do Colégio Rio Branco foram punidos em massa, 107 deles pegaram suspensão por se rebelarem contra a instalação de câmeras de vídeo nas salas de aula. Repercutiu na imprensa. (ao final, links com dossiê)

Inspira-me comentários:

1. Qual o valor pedagógico de alunos freqüentarem ambiente igualzinho à distopia 1984 de George Orwell, com o famoso Big Brother vigiando tudo? Mesmo sendo estabelecimento privado, Secretaria da Educação deveria opinar e Associação de Pais, promover reflexão.

2. Estranho – Rio Branco não costumava ser, que me lembre, colégio do tipo mais autoritário. Rotarianos, não é? Normalmente bonzinhos, sociáveis. Não estudei lá, mas freqüentei, havia festinhas. O que deu neles…?

3. Teatro tem alto valor pedagógico. Forma. Desenvolve sensibilidade. Minha sugestão, companhias teatrais apresentarem à direção do Rio Branco as seguintes peças, para encenar lá: Victor ou as crianças no poder de Roger Vitrac; O mestre de Eugéne Ionesco; Fim de curso (Classe términale) de René de Obaldia (esse tem outras peças instrutivas). Leituras…! Cultura literária! Começar por O ateneu de Raul Pompéia, um clássico, obrigatório – o capítulo do incêndio vai inspirar.

4. Situação diferente de câmeras na rua e em prédios, lugares onde há ameaças objetivas à segurança. Ou de colégios barra pesada, em bairros com desorganização social, alunos querendo pegar professores etc. Câmeras na rua, podia ter mais –  para flagrar motoristas folgados que atravessam os postos de gasolina aqui perto querendo evitar semáforo ou fazer conversão proibida à esquerda, tirando fina dos pedestres. Tinha que multar pesado. Burguesia delinquencial, é para pegar – garotada, que não tem como se defender, é covardia, autoritarismo 100% irracional.

5. Matérias na imprensa – para não falar do que circulou no meio digital – tratam da recaída autoritária, da onda de neo conservadorismo, dando como exemplos a censura judicial por juizões que mandam tirar tudo de circulação, o Facebook (bem feito, o ridículo pelo episódio dos mamilos de The New Yorker), os malucos anti Monteiro Lobato, o episódio da Academia (que coisa, Ana Maria Machado, com essa enorme contribuição, dar uma justificativa dessas, de que podia ter criança ouvindo – quando eu tinha 12 anos, buceta, assim como cu, caralho, puta, porra etc eram vocábulos correntes … só não falavam na frente de adultos – única consequência, a palestra de Jorge Coli tornar-se a mais comentada do ano, ainda bem que é um conferencista de qualidade).

6. Desde 2009, venho profetizando um apocalipse da classe média.

Links sobre Rio Branco – episódio é tão disparatado que até a revista Veja estranhou….

http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,rio-branco-suspende-107-alunos-apos-protesto-contra-cameras-em-sala-de-aula-,935669,0.htm

http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/09/26/para-advogado-dirigentes-do-colegio-rio-branco-podem-ser-penalizados-pelo-uso-de-cameras-nas-salas-de-aula.htm (tomara – será merecido)

http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/alunos-do-colegio-rio-branco-protestam-contra-instalacao-de-cameras-de-vigilancia-e-sao-suspensos

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9 responses to this post.

  1. “Inseguro entre o céu e a estepe, suspenso num fluir de roda gigante, embebido na minha nostalgia de centauros, eu devoro pedaços de musgo e raízes de plátano, estendido em jardins intermináveis onde se modelam arcanjos. Teria sido muito mais fácil escrever cartas de amor, para serem estendidas ao longo das estradas e pelas paredes dos tribunais – são inúteis para a vida, porém, estes poucos instintos que lentamente se devoram uns aos outros – sobra-nos apenas uma memória de fugas de amantes, a grandeza do gesto de um epiléptico, a solidão profunda dos grandes sedutores. Há sonhos, porém, que nos acometem com uma simetria de gaitas de fole – há também a necessidade de escrever testamentos, sempre obscuros, insultando os jardineiros das praças públicas, e aqueles que comem hóstias com uma regularidade de aranha e armazenam pontas de cigarros em cofres de aço, temerosos da posteridade. É absolutamente necessário, também, conclamarmos à união os famintos de santidade, os guardiões de serpentes e domadores de circo, os exploradores dos subterrâneos das pontes e viadutos, os exilados voluntários, para partirmos juntos em busca da inviolável liberdade dos caminhos seguidos ao acaso, e da verdade contida nas escadarias, pórticos e paredões desabados.”

    Anotações para um apocalipse – Claudio Willer, 1964

    Beijo, professor!

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  2. esse apocalipse da classe media, muito bem profetizado:-)

    Responder

  3. O que é isso? “Sociedade Disciplinar” como já denunciou Foucault?!
    Grande abraço,
    Marcelo.

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  4. Posted by Daniel Gambín on 29/09/2012 at 01:14

    Claudio Willer, fale mais sobre o apocalipse da classe média.

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  5. Posted by Pedro on 29/09/2012 at 12:21

    Caro willer, câmera em “colégios barra pesada, em bairros com desorganização social, alunos querendo pegar professores etc.”???? me desculpe, mas não esperava uma besteira tão grande saída de um senhor como você… Gritando liberdade, soltou um comentário totalmente autoritário, ignorante do que se passa fora da SUA SPaulo.

    Responder

    • Pedro, isso objetivamente ocorre, há relatos de professores ameaçados e até agredidos- nesse caso, não cabe o argumento da liberdade – violência física, não. Claro que câmaras não adiantariam, seriam rapidamente destruídas.

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  6. Posted by Eliane Boscatto on 30/09/2012 at 01:24

    Concordo que é absurdo se colocar câmeras de vigilância em salas de aula. Mas se me permite uma pergunta e uma observação banal, talvez óbvia ou quem sabe um desabafo: o que aconteceu ao longo da minha geração até agora? Quando eu estudava, a gente fazia bagunça, colocava e recebia apelidos, tirava onda da cara do colega, porém, respeitava o professor e raramente você via crianças ou adolescentes partindo para a violência. Será que éramos servis, bobos? O que aconteceu? Os valores se inverteram? O que se pretende? Rebeldia gratuita? ou violência gratuita? Qual o ideal do adolescente de hoje? Nenhum, ou melhor, usar tênis e roupa de grife e mais tarde ou o mais cedo possível, ter um carrão, pegar a mulherada e frequentar todas as baladas, e a mulherada, pegar esses caras. Os que têm condição logo se realizam e acabam por vezes, me parece, ficando entediados e procurando emoções mais fortes como por exemplo, cometer crimes. Os que não têm condição, a gente já sabe o que acontece.
    E se não estou enganada, parece que o mundo todo está assim. Mas, se existe um culpado, são os adultos da minha geração que por terem vivido ainda uma época de repressão, ficaram perdidos numa fronteira perigosa entre a liberdade e a permissividade. Junte-se à isso, o poder que os meios de comunicação de massa exercem sobre todos nós e mais fortemente sobre os jovens; poder esse que ninguém pode negar que existe, para o bem e para o mal. Não é função da escola educar para a vida, por melhor que ela seja.
    Na faculdade li dois livros que gostei muito: A Nova Classe Média e do mesmo autor, A Elite do Poder. Pela ótica do autor na época, me parece que a elite do poder ainda continua a mesma e mais forte, a classe média, claro, mudou muito, mas continua um tema interessante para a psicologia, a sociologia e como sempre, para a sátira.

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