Best Sellers

Nada a perder de Edir Macedo ocupa há semanas o primeiro lugar da lista dos livros mais vendidos na categoria não-ficção.

É para disparar os sinais de alarme.

Houve quem chegasse a sustentar, a propósito de best-sellers, que o importante era haver mais pessoas lendo livros e que a leitura sempre irá formar leitores. A posição alcançada pelo livro do dirigente da Igreja Universal do Reino de Deus e da Rede Record desmente esse otimismo.

Na década de 1980, marcada pelo desgaste do autoritarismo, houve um crescimento da qualidade de listas de mais vendidos: nela figuravam Virginia Woolf, T. S. Eliot, Drummond, bons narradores brasileiros etc. Teremos alcançado o máximo da reversão dessa tendência?

Mas sempre é possível exercitar o humor, a propósito do consumo de massa. Na categoria ficção, no mesmo período, Cinqüenta tons de cinza e Cinqüenta tons mais escuros de E. L. James ocupam o topo da lista. James vende muito mais que Macedo. Redes de pequenas livrarias, como eram aquelas da Siciliano, armavam uma prateleira na frente com os “best sellers”. Ingenuamente, colocariam lado a lado Edir Macedo e E. L. James? Ofereceriam essa metáfora sobre o recalque e o retorno do recalcado? Completariam com o Ágape do padre? Acrescentariam A guerra dos tronos?

Há tempos, já, na lista de mais vendidos, as obras de George R. R. Martin, os volumes de A guerra dos tronos e outras. Ler coleções com mil páginas em cada volume, para mim não dá. Assisti a episódios da série de TV. Pareceu-me original e atraente. A revista literária Metáfora, em sua edição deste mês, traz um artigo de Bráulio Tavares (revista com alguém da qualidade de Bráulio Tavares entre os colaboradores precisa ser lida), tratando de Game of Thrones e outras produções para TV, confrontando-as com a narrativa escrita, o romance. Bráulio comenta a “prosa rica e detalhista de George R. R. Martin”.

Enfim – e felizmente – tem de tudo. Mesmo assim, Edir Macedo no topo impressiona. É algo parecido demais com a realidade. Dá vontade de mudar para os reinos míticos de Game of Thrones, não sem antes estagiar no colégio de Harry Potter.

O capítulo final de Mito e realidade de Mircea Eliade trata do retorno dos mitos na modernidade, através da literatura e dos mass media, em versões mais ou menos degradadas. Material para corroborar o grande historiador das religiões é o que não falta.

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9 responses to this post.

  1. No caso específico do Edir Macedo,todos os fiéis da Universal devem estar comprando para aprenderem como ganhar dinheiro. Livros de “divulgação” de religião vendem muito pelo sentimento de culpa religiosa que ataca muita gente: sou da religião tal, não pratico, atuo contra os dogmas, mas me redimo lendo os livros do Macedo, do Dalai Lama, do Chico Xavier, do Marcelo Rossi, etc. Um livro que ficou muito tempo em primeiro lugar, A Cabana, é horrível, mas vendeu horrores, as pessoas compravam para dar de presente (ganhei um). O apelo era religioso, deus falando com as pessoas, expiando culpas.

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  2. Em um país com índice tão elevado de analfabetos funcionais, não é de se estranhar que os best sellers de hoje sejam os vampiros, os 50 tons de cinza e Edir Macedo. sem falar em Pe. Marcelo Rossi e Pe. Fábio de Mello. fechou. passa a régua, vamos tomar a saideira!

    enquanto isso, a poesia está lá no fundo na última estante, a menor de todas e dividindo espaço com os gibis. é o Brasil! e é o mundo inteiro. não nos esqueçamos que Paulo Coelho é o autor dos mais lidos na Europa há algum tempo.

    Beijo!

    Ótimo post! pede mais um chope, por favor!

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    • Posted by Marquês Gouvêa on 04/10/2012 at 21:13

      Cerveja é péssimo para o pensamento crítico. Não o beba. Também se poderá dizer embriaguez aquilo sob o que se está a tomar-se à escrita do que citado postagem acima.

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      • Posted by Marquês Gouvêa on 04/10/2012 at 21:15

        “(…) Também se poderá dizer embriaguez DAQUILO sob o que se está…”

      • dá mais vontade de beber…hehe…ainda mais no calor que está fazendo hoje!! Que calor é esse!!!!

  3. Posted by Marquês Gouvêa on 04/10/2012 at 21:02

    A auto-ajuda – não o negam os seus leitores; e se o negam, mentem – é para quem precisa reaver o seu juízo desde aquele ponto experiencial em que se o adquiri em parques de areia escolares. ― Marquês Gouvêa.

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  4. De Edir Macedo a Mircea Eliade, esse post é para pensar! Afe! Diante da lista de preferência dos leitores, onde está Schklovski e seu estranhamento; Bakhtin e sua polifonia, seu dialogismo; Zumthor e sua voz… Meu Deus, como entender o mundo???

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  5. Lembrei-me de um escritor célebre que disse: são necessários os maus escritores para atender aos maus leitores. se não me engano foi Nietzsche que o disse.

    Beijos, professor!

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  6. Posted by Ruth on 06/10/2012 at 20:03

    Ai, QUE MEDAAAA!

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