Os Guarani-kaiowáa de Naviraí

A resposta ao drama dos Guarani-kaiowáa da reserva de Sossoró, imediações de Naviraí, Mato Grosso do Sul, ameaçados de despejo por ordem judicial, parecia restrita à rede social e á blogosfera. Notícias em jornais, poucas e reduzidas. Hoje, finalmente, saiu uma reportagem mais extensa, em O Estado de S. Paulo:

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,ameacada-de-despejo-aldeia-guarani-caiova-promete-resistir-ate-a-morte,952567,0.htm

Já vinham sendo publicados na mídia impressa artigos de Marina Silva, relatando, opinando, divulgando petições públicas e outras formas de mobilização:

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,nos-guaranis-kaiowas,952159,0.htm

Também merece leitura o relato de Fernando Gabeira, que foi lá:

http://www.gabeira.com.br/wordpress/2012/10/guaranis-vao-apenas-resistir/

É claro que logo, muito em breve, algum desses neocom atualmente na moda publicará algo depreciando os defensores dos Guarani-kaiowáa.

Sabem a diferença entre os guaranis de Mato Grosso do Sul e os índios Ianomami? É que Roraima e Norte do Amazonas ficam longe: a ocupação desenfreada de terras demorou para chegar lá, deu tempo para defensores dos índios, como a fotógrafa Claudia Andujar, se organizarem.

A diferença entre os guaranis de Mato Grosso do Sul e os índios Macuxi da reserva Raposa / Serra do Sol também é essa: o extremo norte de Roraima: fica longe – mesmo assim, foi necessária uma batalha judicial, resolvida no Supremo, tornando possível uma política indigienista no Brasil.

A diferença entre os guaranis de Mato Grosso do Sul e povos como os Camaiurá, Ulapiti, Uaurá, Kalapalo, Cajabi e demais habitantes do Alto Xingu é que o Alto Xingu era longe em 1961, quando os irmãos Villas Boas, Darcy Ribeiro e outros heróis conseguiram implantar o Parque Nacional do Xingu – hoje inteiramente cercado por fazendas que afetam o seu clima e bioma, além dos danos que advirão da Usina de Belo Monte (não, o problema não é só dos Caiapós e demais grupos no baixo e médio curso desse rio – para quem não sabe, peixes, por exemplo, costumam subir e descer os rios, e terão que mudar seu modo de vida – ou então mudar-se, achar algum outro rio para nadar nele)

Com o que se parece a situação, não só dos Guarani-kaiowáa de Naviraí, mas de vários outros povos indígenas de Mato grosso do Sul? Com aquela dos Pataxós do Sul da Bahia, Por volta de 1979, após invadirem suas terras e os expulsarem, fazendeiros obtiveram títulos de propriedade e se tornaram donos daqueles territórios. Levou 33 anos até isso ser corrigida e os Pataxós recuperarem alguma terra.

O que mais me lembra a situação atual dos Guarani-kaiowáa de Naviraí? A desocupação à força do Pinheirinho, em São José dos Campos. Pelo seguinte: são episódios a contrapelo, regressivos, anacrônicos – não se faz mais isso, não é desse jeito que se promovem desocupações, com um juiz determinando sumariamente, e a subseqüente remoção a ferro e fogo. Loteamentos ilegais que poluem as represas de São Paulo, por exemplo; ou aqueles em áreas de risco, ou que impedem obras públicas: a tendência é a negociação, a reparação para os removidos. Ocupante ilegal não é criminoso; menos ainda, esses, a exemplo dos índios, que haviam sido anteriormente desalojados aforça.

O que mais me choca nesse drama dos Guarani-kaiowáa de Naviraí? A mesquinhez. São dois hectares de terra ocupados pelos índios, e ainda por cima de reserva florestal. Dois hectares: isso não é nada, em uma região onde 50 hectares passam por sítios ou chácaras e onde são normaisl propriedades rurais acima dos mil hectares.

A que associo a presente situação drama dos Guarani-kaiowáa de Naviraí? A uma ideologia segundo a qual índios tem que ser reintegrados à “civilização” a qualquer custo, á força, e isso de multiculturalismo, respeito à diversidade, etc, é tudo bobagem, sabotagem de radicais contra a economia de mercado (ouvi tudo isso, certa vez, de um coronel, ao retornar do Xingu – durante o regime militar, é claro).

O endurecimento contra esses Guarani-kaiowáa de Naviraí é um último arreganho do conservadorismo extremado. Temem o precedente: prevalecendo a causa dos Guarani-kaiowáa de Naviraí, aumentará a chance de outros povos indígenas desalojados nas últimas décadas recuperarem algum pedaço de chão. Talvez o escândalo e a repercussão contribuam para que recebam mais atenção os Carajás da Ilha do Bananal, os Gavião do Maranhão, os ….

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4 responses to this post.

  1. O escândalo torna-se cada vez mais necessário à situação escandalosa dos índios brasileiros. E que nação linda, apesar de toda miséria com que os civilizados os contemplam. Vejo fotos de crianças indígenas e as vejo como as mais lindas do mundo, conservam-se lúdicas, apesar da violência. Luto por esta alegria, este transbordamento, esta natureza, estes corpos pintados, esta etnia cheia de cor. Para mim , uma das últimas causas que…valem, na fronteira dos diretos humanos e , se for preciso, até os confins da utopia!

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  2. Estive recentemente em Itamaraju, sul da Bahia e conversei com alguns Pataxós. Os adultos nem falam mais seu idioma. Há naquela região, segundo crianças de quem comprei algumas obras de arte (muitos chamariam de artesanato, diminuindo o valor da cultura indígena), um único professor que percorre as escolas para ensinar a língua. E sim- os evangélicos já estão por lá, dando continuidade à lavagem cerebral inaugurada pelos jesuítas. É nesses templos que eles rezam agora. Muito triste.

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  3. Posted by lais on 16/04/2013 at 10:24

    oi meu nome e tchesley eu gostei muito

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  4. Claudio, trabalho com os Guarani desde 1990, existem Kaiowá em Paraty como Demécio Benitez e sua família que ocuparam a Terra Indígena de Rio Pequeno, no estado do Rio de Janeiro. Na própria terra da FLIP eles sao tratados como cachorros ou pior que isto, quando ocorre um evento importante nesta cidade de arquitetura/pensamento colonial os proprietários de hotéis expulsam os Guarani do centro urbano e eles dormem amontoados em uma marquise, o que fazer nesta “terra de ninguém” que ignora os direitos humanos indígenas?

    Segue um trecho de poema de meu irmao Afonso Henriques Neto (ESTRELAS DE BELO HORIZONTE-IV em Restos, Estrelas & Fraturas”) para nos inspirar:
    “índio esculpido em bandeirante
    ouro pra europa
    sífilis pro brasil
    que lei tao sem lei
    desenhou o curral-del-rey?
    todo princípio é voluntário
    (poema em moda riso de otário)”

    Eis a seguir trecho do livro Museu de Arte e Origens: Mapa das Culturas Vivas Guaranis, RJ, Contracapa, 2003, organizado por mim como professora da PUC/RJ, no qual os próprios índios contam suas histórias-de-vida:

    “O povo Guarani chega a “terra sem males” (por Werá Djekupé ou Marcelo Guarani, cacique da Aldeia Três Palmeiras, ES e neto da líder religiosa Tataenty que cheguei a conhecer pessoalmente em 2001)
    Miguel Venites, cacique e líder religioso, juntamente com sua esposa Tataenty Ywareté, já vinham com seu grupo desde o estado do Rio Grande do Sul, a procura do paraíso. Deixaram o Posto Indígena de Guarita, ainda na década de 1940.
    Seguindo sempre rumo ao litoral, de onde pudessem observar o mar, chegaram a Pelotas (RS). A forma que encontraram para sobreviver durante as caminhadas era a venda de artesanato. Quando os Guarani chegaram em Sao Paulo, a marcha foi interrompida pelo SPI-Servico de Protecao ao Índio que os conduziu para Itariri, onde ficaram por mais de 10 anos.
    Inconformado com a violenta interrupcao de sua marcha religiosa, Miguel Venites resolveu retornar ao litoral (…) e morreu quando o grupo se aproximava de Silveira, SP. Tataenty Ywareté liderou os Guarani em busca da “terra sem males” até Paraty,RJ, onde permaneceram cerca de 06 anos até partir para Caieiras Velha, ES, onde encontraram os Tupinikim de 1962 a 1970, quando a Aracruz Celulose passou a ocupar todo o território indígena” (ps. 113-114).

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