Jack Kerouac e os índios

Diante da mobilização em favor dos Guarani-Kaiowáa do Mato Grosso do Sul que reivindicam o retorno a seus territórios, cabe relembrar a precursora defesa do multiculturalismo por autores da Geração Beat. Especialmente por Kerouac, enfático em sua admiração por índios e povos arcaicos em geral. A seguir, citações, indicando de onde foram extraídas, desde On the Road, escrito em 1951, até Vanity of Duluoz, de 1967. Há mais, evidentemente. Respeito e admiração por “selvagens” são uma constante em sua obra colossal, assim como em outros beats.

[…] nós finalmente aprenderíamos algo entre os lavradores indígenas desse mundo, a origem, a força essencial da humanidade básica, primitiva e chorosa, que se estende como um cinturão ao longo da barriga equatorial do planeta […] Essas pessoas eram indubitavelmente índias e não tinham, absolutamente nada a ver com os tais Pedros e Panchos da tola tradição civilizada norte-americana. Tinham as maçãs do rosto salientes, olhos oblíquos, gestos suaves; não eram bobos, não eram palhaços, eram grandes e graves indígenas, a fonte básica da humanidade, os pais dela. As ondas são chinesas, mas a terra é dos índios. Tão essencial como as rochas no deserto, são os índios no deserto da “história”. (On the Road, p. 339 – na quarta parte, da viagem ao México)

 … olhar para três ou quatro índios atravessando um campo é para os sentidos algo inacreditável como um sonho. (Os subterrâneos, p. 32).

[…] pois eu sabia que esses esquimós são um povo índio grande e forte, que eles têm seus deuses e mitologia, que eles conhecem todos os segredos de sua terra estranha e que eles têm uma moral e honra que ultrapassa a nossa de longe. (Vanity of Duluoz, p. 134).

[…] meu cabelo balançando em tufos com as pontas quadradas para trás como um índio, Cody dizendo sem parar que eu pareço um índio e eu falo para ele da minha avó Iroquois ao norte de Gaspé, em 1700, eu pertenço à raça dos índios expulsos de todos os cantos do hemisfério ocidental no Novo Mundo exceto na América, haha – (Visões de Cody, p. 350)

Na verdade, é exatamente igual ao México, o mundo Felá, ou seja, o mundo que não está fazendo História no presente: fazendo história, fabricando história, atirando a história para cima em bombas de hidrogênio e Foguetes, em busca do grand finale conceitual da Mais Alta Conquista (na nossa época e no Fáustico “Oeste” da América, na Grã-Bretanha e na Alemanha em toda parte. (Anjos da desolação, p. 305)

Se estivesse aqui, o que diria Kerouac sobre a luta dos nossos índios? Ele idealizou representantes de culturas arcaicas? Mitificou os índios? Claro que sim: foi um poeta, em primeira instância; como poeta, em favor do mito, contra o logos; contra uma argumentação que, apresentando-se como racional, tem servido para justificar a devastação do planeta e o extermínio de outras culturas, diferentes da nossa.

Ainda publicarei mais observações sobre o drama em curso dos Guarani-Kaiowáa e outros de nossos povos indígenas.

Em tempo:

Adiciono à postagem o oportuno comentário de Leonardo Morais, lembrando que Kerouac começou seus relatos de viagens em On the Road falando de índios, de modo inequívoco. Sabia enxergar, por isso sabia escrever:

Mestre Willer: Kerouac também denunciou a triste situação de abandono dos índios norte-americanos (1º mundo?) em On the road. Me lembrei destes trechos: “Aí, um velho que não disse palavra — e só Deus sabe por que ele nos apanhou — nos levou até Shelton. Então Eddie prostrou-se na estrada, sem ânimo, em frente a um grupo de pequenos índios omahas, mirrados, com os olhos fixos e vazios, acocorados, sem ter para onde ir ou o que fazer.” (Pé na estrada, p. 25). Mais: “Havia uns caciques índios vagando por ali, com enormes enfeites na cabeça e um ar solene em rostos enrubescidos pela bebida.” (pp.39-40).

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5 responses to this post.

  1. Mestre Willer: Kerouac também denunciou a triste situação de abandono dos índios norte-americanos (1º mundo?) em On the road. Me lembrei destes trechos: “Aí, um velho que não disse palavra — e só Deus sabe por que ele nos apanhou — nos levou até Shelton. Então Eddie prostrou-se na estrada, sem ânimo, em frente a um grupo de pequenos índios omahas, mirrados, com os olhos fixos e vazios, acocorados, sem ter para onde ir ou o que fazer.” (Pé na estrada, p. 25). Mais: “Havia uns caciques índios vagando por ali, com enormes enfeites na cabeça e um ar solene em rostos enrubescidos pela bebida.” (pp.39-40).

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  2. Posted by Ruth on 03/11/2012 at 11:22

    E não se pode deixar de lembrar do Piva, herdeiro genuíno (estou certa?) da Beat Generation e grande defensor das culturas indígenas e ele próprio um xamã.

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  3. Kerouac tinha consciência Planetária. Diferente da filosofia fascistas dos governos que renegam os direitos indígenas. O índio é o coração da Terra. Sempre foi e será historicamente! Kerouac era Abaetê!

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  4. Muito bom, mestre Willer

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