Maria Lúcia Dal Farra: poesia

A propósito do Jabuti de poesia 2012, havia reproduzido aqui um comentário sobre Maria Lúcia Dal Farra, antes publicado em uma revista colombiana. Está em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/10/25/maria-lucia-dal-farra-a-poesia-premiada/  No mesmo arquivo, uma seleção de poemas dela – após consultá-la, reproduzo alguns exemplos dessa poesia ao mesmo tempo visionária e cabralina. As fontes, os livros nos quais foram publicados, constam em seguida aos poemas.

            O gato

Uma palavra para o gato: ágil.

Também unha, preguiça, pupila.

O resto

é o que ele

(entre uma e outra delas)

preenche de charme delgado –

enigmático.

 

Adoraria poder nele apalpar o pêlo

e saber de que abstração é feito.

Mas (felino) ele se enrosca incisivo

no vão do meu pensamento

e dependura-se

(em telepática acrobacia)

nas suas prerrogativas.

Só me permite escrevê-lo

a contrapelo.

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            Boi no pasto

 

Boi no pasto não tem patas.

Bóia as banhas ondulantes

sobre as bordas do capim

que (marítimo de ervas)

em superfície o conserva.

Está no seu elemento

e todo esterco trescala

ao verde que ele abate –

ilhas já dessa paisagem.

É o campo que se alevanta

no negro musgo do estrume

por seu turno resgatando

a larva à própria lavra.

 

Boi no pasto não tem peias

nem a terra lhe é fronteira.

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            Callas na escala ascendente

 

Inteira,

tua voz é um cone,

torre de catedral,

coisa tátil, que se avista,

mutável como caleidoscópio. É fósforo,

poço de petróleo: força que se arremessa

das profundas da treva e que

(de chofre)

perfura com sua agulha as nuvens

para ganhar penugem de pássaro

e adejar (mui devagar)

sobre o espírito.

 

Foguete é tua voz em busca do buraco negro

(olho terceiro)

turbina que se aquece entre coração e cérebro

e desenha ogivas de ignoradas paragens –

onde leio flor, lâmina

arcaica letra grega

que não entendo

mas que se inscreve no mármore dos altares.

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            João e Joan

 

Quando fala João Cabral

da mão esquerda de Miró

é com destra que penteia

a crina das próprias sílabas

empinando seu poema

para o sertão dos garranchos:

as letras e algarismos

atraem-se por faísca –

pedra, lâmina e cal.

Amarelo fica o azul

da tanta luz que lhe infunde:

tal explica o canavial

assim perto ao cemitério.

A mulher e o seu pássaro

(de gaiola ela vestida)

é sim contra sim e não

pois que o diapasão é o mesmo.

A bailadora flamenca

(um alfinete e uma pena)

sapateia em Barcelona

(com saias de Andaluzia)

um xaxado nordestino;

o cacto é borboleta

 

diante do tom adotado,

rapaz com capa vermelha

(Manolete) é sertanejo.

Cada um visa a seu touro

no martelo galopado,

na madeira martelada:

nem um nem outro é canhoto.

                                   De “Viveiro”, do Livro de auras. São Paulo: Iluminuras, 1994, respectivamente pp. 18, 22, 27 e 38.

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            Fruto proibido

Com suas nádegas lascivas de mulher

a maçã deita de costas

na cesta sobre a mesa.

Já de batom está pintada,

armadilha edênica no seu poço

– no ponto da voragem,

caverna de pevides.

 

Drácula, penetro

no seu espírito interdito,

no jardim das delícias.

Cometo (insensato)

a grande virtude capital.

                                   De “Coisas de mulher”, do Livro de auras. Opus cit, respectivamente pp. 53, 60, 64.

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            Ponte de Langlois com senhora de guarda-chuvas

Linhas frágeis sustentam a travessia sobre as águas.

Milagre de vôo

levitação suspensa por tênues fios

e por uma mulher incrédula:

a sombrinha aberta não a protege apenas do sol

mas da eventual hipótese de a mágica não funcionar.

Em última instância

é como pássaro que espera se defender.

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            Pinheiro e figura diante do Asilo Saint-Paul

Debaixo do pinheiro

um homem aguarda. Sua inquietude

(domada no aperto dos punhos

dentro dos bolsos da calça)

se transfere para o turbilhão que avassala

folhas e galhos da árvore. Mesmo assim

a imagem plácida do asilo

lembra o convento –

 

quem sabe uma escola

onde se aprende a lutar com a dor.

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            Noite estrelada (Cipreste e vilarejo)

Tantos sóis na noite escura

e tão baixos

que afrontam (com seus bojos)

as pontas da torre que se alça

dos pés da igreja

para alcançá-los.

Tão irrequietos se mostram

que mal se equilibram na abóboda celeste,

torturados por movimentos espiralados

de quem quer vasculhar

as profundas do horizonte.

Há mesmo um tornado de luz se formando

que traga tudo que brilha

em seu turbilhão de infinito.

 

Apenas um cipreste resiste

(incólume)

com sua secreta sabedoria

de chama da morte.

                                   De “Van Gogh”, do Livro de possuídos. São Paulo: Iluminuras, 2002, respectivamente pp. 16, 17 e 40.

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            Maçã

A maçã na mesa: pomo da discórdia.

Abuso da minha inteligência

porque quero conhecê-la com dentes,

escavá-la até a longínqua estrela.

Saliva a saliva

procurar-lhe nomes,

no afunilado umbigo aprofundar a língua.

 

A presença hierática pede respeito

mas profano-a:

tenho de escolher entre ser

boa ou má,

quebrar a dormência – que não

para bela adormecida fui nascida.

 

Ouso, caio,

começo de novo o mundo,

exilo da fruta o sabor do amor celeste –

sou (por fim) mortal.

 

Debaixo da macieira

(ah dourada mediocridade!)

a sombra saboreio da vida ufana.

Não aguardo, com Arthur,

que os cavaleiros me livrem

do jugo estranho, e nem vou

(a pé, com Merlim)

aprender mágica no pomar.

 

Quero conhecer o mal e suas ramas.

……………………………………………………………………………………………………………………………

            Manga

Ela está sobre a mesa –

nua

e fechada em si

como uma urna.

O elegante perfil convoca outras formas

para torná-la única:

pêra, pêssego, abricô – o coração, afinal,

de onde irrigam a candura

e o aceno para afagá-la com duas mãos.

 

De modo que a boca quase treme

(hesitante entre beijá-la e mordê-la)

quando dela se achega

sem saber se se entrega ao domínio do cheiro

ou à volúpia de lambê-la –

mesmo antes de (com unhas)

fender-lhe a pele vermelho-verde.

 

Ah, sulcar a carne macia com o arado dos dentes

deixando que neles se enrosquem os cabelos

que a fruta

 (aflita)

não pode conter diante do torvelinho dos sentidos –

do cataclismo que o desejo encena

no afã de conhecer-lhe o rosto!

 

Sôfrego, salivo abocanhando a polpa

(esse manancial de sucos que me lambuza,

espirra, goteja e baba)

que chupo exaurindo a fonte dos deleites

dessa mulher que

por fim consentiu

(pudica e fogosa)

de a mim se entregar.

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            Cebola

Gosta dos dias longos

esta milenar senhora!

Memorialista,

enrodilha-se na lembrança das próprias folhas

em permanente esforço de perpetuá-las.

Preferida dos faraós,

deve (por cero) ter inspirado a técnica

em que se eternizaram.

 

Objeto arqueológico de todas as idades,

esta esfinge

foi dita em sânscrito, persa,

latim, grego. Guarda por exemplo

(em gravidez poliglota)

a nostalgia do antigo lar egípcio,

a travessia do deserto, a ausência da mesa,

a carência de alento –

o fundo pranto hebreu que ainda hoje

(inadvertido e fortuito)

compartilha

com quem lhe devassa a alma.

 

Percorre com faca teu ventre sagrado

é topar com inscrições inauditas,

passagens secretas,

falsas portas,

inesperadas relíquias.

 

Que apenas a maldição que eu mereça

recaia sobre mim!

                                   De “Vergilianas”, do Livro de possuídos. Opus cit, respectivamente pp. 63-64, 73-74 e 79-80.

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            Retrato de mulher de frente

 

De tanto esperar pelo meu olhar,

enrubesceu. Aguardou-o

anos a fio

mas emana dela ainda

a mesma timidez

igual esperança. Há

(quem sabe)

uma indagação impossível

na boca rubra e natural.

 

A aura do objeto

mistura-se a seu cabelo

como se a existência

tivesse transcendido o momento

em que por certo nos encontraríamos.

 

Malgrado estar eu aqui –

tudo nela ainda espera por mim.

 

                                   De “Klimt”, do Livro de possuídos. Opus cit, respectivamente pp. 130 e 133.

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3 responses to this post.

  1. maravilhosos poemas!! amei!

    Parabéns à autora!

    Beijosss!!!

    Responder

  2. Posted by Maria Raquel Santilli Villares on 08/11/2012 at 16:33

    Gostei muitíssimo! Não conhecia a poeta Maria Lucia Dal Farra. Conheci-a jovem e adoraria reencontrá-la! Querida Maria Lucia, eu sempre soube da beleza da tua alma, mas ignorava a linguagem que ela escolheria para expressar-se! Um abraço carinhoso a você, na esperança de que possa fazer um contato comigo.

    Responder

  3. Posted by Maria Noélia Alves dos Anjos Corrêa on 16/05/2013 at 14:12

    De tudo se faz poesia. Das frutas vou me deliciar, mas é com as junção das letras que no pomar do raciocínio que eu vou me maravilhar. Parabéns pelas poesias. Amei!!!

    Responder

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