Mais poemas de Philip Lamantia, o beat-surreal

Já havia publicado aqui uma tradução de Philip Lamantia, poeta raro, refinado, por Ikaro Maxx, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/04/13/philip-lamantia/

Em meu Geração Beat, publiquei comentários sobre Lamantia, como este:

“Lamantia é o underground do underground, marginal entre marginais, excêntrico mesmo frente aos beats. Importa ter sido um poeta poderoso, expressando-se através de imagens surrealistas; ao mesmo tempo, um encontro de dicções, a exigir maior difusão da sua obra, inclusive nos Estados Unidos e, é claro, no Brasil.

E o citei, por seu comentário sobre a consciência literária americana se fixar no realismo e no positivismo, tolerando uma vanguarda apenas à margem:

A grande ironia neste país, como o assinalou Barthes em seu livro sobre semiologia e literatura, e como o destacou Susan Sontag antes dele, é que uma escrita de natureza analógica, metafórica, não-realista, foi praticamente interditada nesses cinqüenta últimos anos, mesmo sendo uma prática corrente, quase um hábito na França.

Talvez nem seja preciso comentar que essa crítica se aplica a outros ambientes literários – o brasileiro, inclusive ou principalmente.

Agora, mais – Leonardo Morais publicou estas, no Facebook – a fonte, a página de internet de Steven Fama, principal especialista em Lamantia, em http://stevenfama.blogspot.com.br/2010/10/viva-lamantia.html  A terceira delas, eu mexi (a quatro mãos, diz Leonardo – nem tanto – e foi encaminhada / sugerida por Lou Albergaria)

NO DOMÍNIO DE EMU

Philip Lamantia

Para Franklin Rosemont

Como a tumba aberta que irradia uma risonha couve-nabo
e a cenoura fazendo em pedacinhos a areia
algo assim como uma árvore estampando seus pés em um leopardo
de olhos quadrados

as luas e o pão competem pela preferência entre os corações
de diamante

Do outro lado do lago do ser o vento fuma flamas tubulares
As cadeias estão tresandando corvos-marinhos
As placentas refratadas na torre deserta da tormenta
substituem a Rua das Maravilhas submersa novamente em
sua oculta saída
enquanto a cidade desperta como uma flor de cavaleiros
apaixonados

(Franklin e Penelope Rosemont, recentemente falecidos, lideraram o Grupo Surrealista de Chicago, criado em 1963, ao qual Lamantia se ligou. Esse grupo publicou ou publica uma revista, Race Traitor; adotam Bugs Bunny, o Coelho Pernalonga, como patrono; quando a cidade de Chicago foi inundada por um rio que a atravessa, fizeram manifestações homenageando o rio; consideram o blues música surreal – tudo isso, conforme me relatou Ron Sakolsky, um dos integrantes do grupo)

APARIÇÃO DE CHARLES BAUDELAIRE

Quando um oceano de dor movimenta rios e pontes
e olhos negros lampejam na poeira dos túmulos
então o êxtase de Baudelaire atinge uma nota flamejante.

Pelo sangue do sombrio semblante
vagam todas as câmaras de cinquenta voluptuosas garotas,

hipnotizadas pela cintilante pulsação do poeta
cujas unhas têm olhos apenas para sua gigante rainha,
peneirando os raios de crianças esquecidas.

Acima da gargalhada burlesca e do pálido jardim,
ele toca a flauta da languidez
e reza em um altar voador
afogando-se a cada toque do sol.

EU ESTOU CHEGANDO

Eu a estou seguindo rumo à lua vacilante
à ponte à beiramar
aos vales de incêndios beatíficos
às flores mortas no espelho do amor
aos homens devorando os minutos selvagens de um relógio
às mãos brincando nos bolsos celestiais
e àquele quarto escuro ao lado do castelo
de vozes juvenis cantando para a lua.

Quando nascer o sol ela viverá em um céu
coberto de sangue de pardais
e envolto em túnicas da perdida decadência.
Mas eu estou indo para a lua
e ela estará lá em uma noite musical
em uma noite de gargalhadas flamejantes
queimando como uma estrada do meu cérebro
derramando seu braço para dentro do lago lunar.

(Uma observação – estou chegando, no original ‘I am coming’: ‘to come to’ também pode ser gozar, ter orgasmo, em inglês)


[1] Em seu depoimento para a coletânea Entretiens – Beat Generation.

Anúncios

5 responses to this post.

  1. Um beat com uma poesia forte, vibrante e estarrecedora! Baudalaire se sentiu lisongeado na tumba que flutua na densa e leve nuvem do verão francês.

    Responder

  2. Correção:Baudelaire! Ok Mago!

    Responder

  3. até quando erra o meu nome é gostoso ser citada por você.

    Beijos!! amei os poemas! Lindos!!!

    Lu

    Responder

  4. veja bem: eu pedi a tradução deste último poema sem saber do detalhe técnico avassalador – ‘estar chegando’ quer dizer orgasmo, uauuu!! Que acaso objetivo mais superlativo este! benzadeus! Que os anjos digam amém!

    Beijo grande, meu professor!!

    Responder

  5. Sim, mestre Willer! Tinha pensado nesse detalhe do gozo também… Só que não consegui encontrar uma solução que fosse compatível com o restante do poema. De qualquer maneira, excelente a sua observação! Em tempo: os poemas que traduzi, inclusive esse (a quatro mãos, insisto!), foram publicados na Mallarmargens Poesia. Viva a Beat! Viva Lamantia!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: