De Luis Aranha a Roberto Piva

Luis Aranha, poeta marginal? Penso que sim, que foi um renegado do modernismo. E, a meu ver, um poeta especialmente interessante. Foi o que acharam os que vieram a minha palestra sobre poesia e cidades a 20 de outubro, convidado por Vince Vinnius e o grupo teatral Pandora, em Perus.

Aranha participou da Semana de 22; figura em fotos do grupo modernista. Autor de um único livro, Cocktails, sua poesia foi inicialmente designada como “preparatoriana” e em seguida como “desastre” por Mário de Andrade. Dedicou-se à carreira diplomática e não publicou mais nada até a morte em 1987. Cocktails teve reedição pela Brasiliense, muito bem preparada por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite, em 1984. A pesquisa mostra dezenas de exemplares desse livro á oferta em sebos. Em livrarias, nada. Na blogosfera, pouca coisa.

Comparações entre Roberto Piva e modernistas brasileiros levariam à constatação de que ele é muito próximo a Paranóia, inclusive pelo modo como confunde o “eu” e a cidade, sua própria subjetividade e aquilo que o rodeia:

Sou um trem

Um navio

Um aeroplano

Sou a força centrífuga e centrípeta

Todas as forças da terra

Todas as dimensões e todas as liberdades

Sinto a vida cantar em mim uma alvorada de metal

O meu corpo é um clarim […]

Ou:

Eu era uma bússola

Teu rosto um quadrante

Uma roda

Um ventilador

Em Piva:

a lua não se apóia em nada

eu não me apoio em nada

sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas

Ou então:

eu sou uma solidão nua amarrada a um poste

fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago

Poderia seguir, nessas comparações. O melhor de Aranha está em poemas mais extensos e delirantes, como o “Poema giratório” (talvez, o que mais tivesse desagradado a Mário). Também há, nele, uma precursora metalinguagem, comentários no corpo do próprio poema, auto-reflexivos. Piva não o conhecia, me parece. Não circulava no período de criação de Paranóia. Sincronias. Caberia projetar nessa sincronia o que Borges disse, em “Kafka e seus precursores”, sobre os autores que criam seus precursores, enriquecendo a leitura dos que os precederam: Entre outros desses ‘precursores’ de Kafka – Zeno, Han You, Leon Bloy, Dunsanny, Browning – está Kierkegaard, por histórias como aquela das expedições ao Pólo Norte recomendada por párocos dinamarqueses (“Finalmente, anunciariam que qualquer viagem – da Dinamarca a Londres, digamos, em um vapor de carreira –, ou um passeio dominical de carro de praça são, pensando bem, verdadeiras expedições ao Pólo Norte”). Interessam as conclusões extraídas por Borges dessas leituras retrospectivas, de um “precursor” como Kierkegaard a partir do seu “sucessor” Kafka: “O fato é que cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro.”[1]

A partir de Piva, lê-se mais em Cocktails de Aranha: Paranóia “cria”, produz esse e outros “precursores”.


[1] “Kafka y sus precursores”  está, entre outros lugares, em Borges, Jorge Luis, Ficcionario, Una antologia de sus textos, edição e notas de Emir Rodríguez Monegal, Fondo de Cultura Econômica, México D. F, 1985.

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7 responses to this post.

  1. Posted by Dimitri on 04/12/2012 at 18:26

    Luís Aranha, poeta marginal? Que viagem… Não basta o pessoal da PUC considerar Ana Cristina César como poeta marginal, agora você também vem com um disparate desses, Willer…??? Quem viajou ao Polo Norte foi você, amigão!

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  2. Caro Dimitri, penso que o emprego da palavra marginal no artigo tem o objetivo de situar a poesia de Luís Aranha como algo À MARGEM do MODERNISMO, e não da “Geração Marginal/Mimeógrafo” dos anos 70. Leia o artigo novamente…

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  3. Que viagem, professor! amei!! Como sempre você vai além das superfícies – mostra-nos que o passado também pode ser modificado a partir de novas percepções no presente e no futuro e aberturas da consciência. BÁRBARO!!! um tempo absolutamente cíclico do eterno retorno.

    “Todas as dimensões e todas as liberdades” são para poucos, meu grande mestre Willer!! para poucos, muito poucos.

    Beijo imenso! Que aula! obrigada!!

    :))

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  4. Realmente um poeta pouco lido que tem uma grande força, certamente lê-lo depois de Piva dá mais potência a suas imagens poéticas. A maneira como ele trata da cidade veio bem a calhar no projeto do Grupo Pandora que pesquisa a Fábrica de Cimento Perus, entrou via Willer em nossa pesquisa.

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  5. E é mais elegante quando as pessoas discordam por meios de argumentos e não (apenas) com ironias vazias. Os trechos destacados comprovam o pensamento de que, sim, podemos considerar a poesia de Luis Aranha como Marginal, no sentido Pivanesco da palavra.

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  6. Posted by Ruth on 05/12/2012 at 08:17

    Literatura comparada. Adorei!

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