Mais haicais de Kerouac

Este é o link das leituras de haicais por Kerouac, acompanhado por Zoot Sims e Al Cohn:

http://www.youtube.com/watch?v=30mXVvWBrwQ

A seguir, minha tradução desses haicais. Selecionei da seleção, não estou publicando todos os que ele leu, pelo simples motivo de que direitos autorais existem e não vou atropelá-los, posto que sairão em livro pela L&PM. Em compensação, adicionei alguns dos esclarecedores comentários da organizadora dessa edição, Regina Weinreich (que fez um excelente trabalho). A propósito: a seleção de Kerouac para a gravação é menos do que o livro, pois ainda não havia escrito seus últimos e mais melancólicos e formalmente ousados haicais.

 

Em meu armário de remédios

a mosca do inverno

Morreu de velhice

Embora Kerouac entendesse a disciplina do haicai, freqüentemente seus experimentos são mais lúdicos que rigorosos. […] Cada poema revela a essência do haicai através da simplicidade de expressão e compressão. Que a mosca “do inverno” tenha morrido de velhice sugere que estamos em uma estação do ano após o inverno, talvez a primavera ou o verão. Assim, o uso do inverno é uma brincadeira com a referência tradicional á estação do ano. A situação da mosca do inverno sugere igualmente a mortalidade humana, movendo-se rumo ao “inverno”, à idade avançada.

 Onde estou,

14:00 h –

Que dia é hoje?

 

A árvore se parece

a um cão

Latindo ao Céu

Esse poema, de um caderno de bolso, converte a raiva e frustração de Kerouac em visão universal, personificando a natureza indignada diante de um “céu” desconcertante e indiferente. Significativamente, Kerouac o selecionou para seu Livro de Haicais. Escrito em Northport, no outono de 1958, sua composição coincide com os “haicais da geração beat”, onde ele renega a forma deliberada do haicai para criar as justaposições mais surreais que marcam sua prosa mais experimental.

 Veneradas contas no

manual Zen –

Sinto frio nos joelhos

 

Na geada do amanhecer

os gatos

Pisam devagar

 

Nenhum telegrama hoje

– Nada a não ser

Mais folhas caídas

 

Bêbado feito uma coruja

escrevendo cartas

Durante a tempestade

 

O dia todo usando

um chapéu que não estava

Na minha cabeça

 

Lindas garotas correndo

pelos degraus da biblioteca

Usando shorts

Cruzando o campo de futebol

voltando do trabalho

O solitário homem de negócios

 

Inútil! Inútil!

– chuva forte a escorrer

Para o mar

Esse lamento pelas realizações do homem, fútil diante do caráter inevitável da Natureza, evoca o espírito atemporal e universal dos poetas japoneses.

 

Após a chuvarada

entre as rosas encharcadas,

O pássaro brinca e se banha

 

Estale seu dedo,

pare o mundo!

– A chuva cai mais forte

 

Anoitece – escuro demais

para ler a página

Frio demais

 

Roupa lavada dependurada

à luz da lua

– Sexta feira à noite

[…]

O celeiro, nadando

em um mar

De folhas ao vento

 

Vagalumes que dormem

nesta flor,

Suas luzes estão acesas!

 

Noite de primavera –

uma folha cai

Da minha chaminé

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7 responses to this post.

  1. Muito bom tudo isso! Com as suas explicações, poeta, melhor é. Abraços!

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  2. O sujeito nasceu especial, sensibilidade para devaneio do Bachelard.

    Responder

  3. Gostei especialmente deste:

    Vagalumes que dormem
    nesta flor,
    Suas luzes estão acesas

    Soa com muita delicadeza. Parabéns pelo trabalho e grata por publicar alguns comentários de Regina Weinreich . Aguardamos este Kerouak “japonês” e vou querer um autógrafo..rs. Bjs!

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  4. Correção: Kerouac.

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  5. os haicais são mesmo belíssimos! e os de Kerouac possuem um tom a mais de rebeldia, de transgressão, até mesmo em relação às imagens poéticas que utiliza, não apenas às ideias.
    – a mosca morrer de velhice, enquanto o ser humano, ainda que tome remédios, morre antes da hora, simplesmente sensacional!

    aguardo meu exemplar também.

    Beijos, professor!

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  6. Admiro o seu trabalho em traduzir estes grandiosos escritores como Kerouac, Ginsberg entre tantos outros da Beat Generation. Sua matéria na revista metáfora também foi excelente traçando um roteiro de leitura para esta geração fascinante. Aguardo estes Hai-cais de Kerouac com um pouco de angústia… Parabéns Sr. Cláudio Willer pela sua dedicação e por compartilhar conosco o fruto de seu esforço.

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  7. […] Em meu armário de remédios a mosca do inverno Morreu de velhice Jack Kerouac Tradução de Claudio Willer. Mais haicais, traduzidos pelo Willer, aqui: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/12/09/mais-haicais-de-kerouac/ […]

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