Sectarismo na educação? Educadores contra a educação?

O Ministro da Educação Aloízio Mercadante havia convidado a atual Secretária da Educação do Rio de Janeiro, Claudia Costin, para a Secretaria de Educação Básica em seu ministério. Isso, por resultados atestados por uma melhora em índices que avaliam o ensino. Sua principal estratégia, as bonificações por desempenho.

O convite de Mercadante a Costin desencadeou uma tempestade, com manifestos acusando-a de promover “a privatização do ensino público, a fragmentação do trabalho docente, a perda da autonomia dos professores, a submissão estrita aos cânones neoliberais”. Para os manifestantes, “professores, gestores e funcionários têm sido alvo de aliciação pecuniária, os bônus financeiros, através de remuneração extraordinária pelo desempenho dos alunos, traduzido em um percentual de aprovação de alunos nas turmas e no conjunto da unidade escolar, como compensação aos baixos salários.”

Costin recusou o convite. Entidades, professores etc de fato podem estranhar sua trajetória política: de ministra do governo FHC a secretária da cultura no governo Alckmin, daí a secretária da educação no governo Cabral, para chegar ao MEC no governo petista. Certamente, há pessoas qualificadas no campo petista e afins, capazes de promover melhoras no ensino.

Populismo no ensino, isso eu já havia denunciado. Por volta de 2000, durante o governo FHC, gestão Paulo Renato: alertava para absurdos em nossos parâmetros curriculares do ensino médio, associando-os a nossos 70% de analfabetos funcionais. Entre outros lugares, está em http://www.revista.agulha.nom.br/ag25willer.htm . Os parâmetros, em http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/14_24.pdf . O que escrevi repercutiu. Mas os PCN, no tópico “Conhecimentos da língua portuguesa”, continuam valendo – com o mesmo frenesi sociocultural. E continuamos com os mesmos 70% de analfabetos funcionais – além da deficiência em operações aritméticas etc.

A diferença: esse tipo de orientação agora virou plataforma contra o neoliberalismo e as privatizações.

É o que se vê na manifestação do presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Franklin de Leão, que “luta por uma educação pública de qualidade, que priorize a formação de sujeitos históricos (conscientes e independentes) e não só a reprodução de fazeres em benefício exclusivo do capital”, pois “o objetivo da educação é conduzir as pessoas à felicidade.” A metodologia de Costin “visa reproduzir nos sistemas escolares a ideologia dominante do capital, através de uma pedagogia reducionista e adestradora”. Categoricamente, “esses novos atores no setor educacional trabalham a serviço do capitalismo, com foco em metas de empregabilidade e enriquecimento do País”.

Já a professora Carmen Sylvia Moraes, da Faculdade de Educação da USP, afirma : “Esquecem-se de que a educação é a expressão e não a causa do desenvolvimento. Precisamos de um trabalhador com autonomia intelectual, crítico.”

Como é que pode, alguém fazer declarações assim…? Uma diretora da Pedagogia da USP…! Educação é expressão ou causa do desenvolvimento? O que nasce primeiro, o ovo ou a galinha? Havia um chavão dos anos de 1970: “Tem que dialetizar!” Aplica-se. Deveria saber que a relação entre educação e desenvolvimento é complexa. Países com educação de qualidade tiveram, sim, desenvolvimento. Países com elevado índice de desenvolvimento oferecem, sim, educação de qualidade. Discutir o que vem primeiro é falsa questão. Justifica a omissão, o imobilismo burocrático: vamos cruzar os braços, sem mexer em nada na educação, à espera do desenvolvimento chegar.

Quanto ao que declara o dirigente da CNTE: saber ler e escrever não ajudaria alguém a se tornar “sujeito histórico”? Ter um emprego, um salário melhor, isso não seria um primeiro estágio para “conduzir as pessoas à felicidade”? Educadores trabalharem “a serviço do capitalismo, com foco em metas de empregabilidade e enriquecimento do País” – mas não é o que esperam deles os alunos, seus familiares, a sociedade? Não está havendo uma redução ao absurdo da própria educação? E um desvio ético? Afinal, se não é para melhorar de vida, ter emprego etc, então para que ir à escola?

Há – isso foi observado várias vezes, inclusive por mim – um neoconservadorismo muito ativo, cujos porta-vozes alcançam uma repercussão crescente. Argumentar desse jeito é oferecer-lhes um prato cheio. Se quiserem denunciar sectarismo na educação, terão razão. Infelizmente. Há educadores que se encarregam de destruir a educação.

O que citei está nestes links:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/80308-corporativismo-de-novo-contra-a-educacao.shtml

http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2012-12-04/convite-a-claudia-costin-para-o-mec-expoe-embate-ideologico-na-educacao.html

http://www.cnte.org.br/index.php/comunica%C3%A7%C3%A3o/cnte-informa/484-cnte-informa-643-29-de-novembro-de-2012/11377-mercado-reage-a-rejeicao-a-claudia-costin

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4 responses to this post.

  1. Na minha opinião, educação tem que ser valorizada, inclusive com melhores salários, bônus por metas alcançadas, o escambau..melhor do que destinar verbas a projetos invisíveis. Fui tutora de curso de Especialização à distância de uma grande universidade brasileira, a disciplina era Literatura. Fiquei pasma com o nível ruim dos professores da rede pública de um grande estado como São Paulo. Eles precisam ganhar mais, para fazer cursos inclusive, ter dinheiro para comprar livros, investir na própria qualificação. O mérito foi terem melhorado visivelmente ao fim do curso de um ano, o mérito foi o esforço que fizeram para melhorar. Mas podiam ter a vida facilitada para ser e educar cidadãos críticos, “sujeitos da história”. Faltam verbas (quer dizer faltam não, escondem/ desviam), falta investimento em recursos..humanos. E capitalização da educação é esta onda gigantesca de escolas particulares caríssimas que transformam a educação em indústria. Mais, os alunos das escolas particulares quando chega no tempo da faculdade querem migrar todos para a instituição pública. Nunca entendi isso: ensino fundamental só presta o particular, no ensino superior a corrida é pelas públicas. Não dá pra ter ensino público de qualidade no Fundamental e todos concorrerem ao ensino superior público em pé de igualdade? Tá tudo errado.

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  2. Claudio bom dia, apesar de ser um ator e hoje um reles administrador de um projeto cultural, claro estou muito interessado nas questões da educação e de uma coisita que está acima… da cultura. Leio este teu post e volta a minha lembrança meu proprio percurso. Venho de uma familia das classes altas, pois como diria minha mãe se é média não é nada, nem alta nem baixa. Meus pais, passaram a vida enrolados em bandeiras vermelhas, e estudaram na USP. Eu estudei no Colégio Bandeirantes, queria se médico, depois no Aplicação da USP (final dos anos 60). Estudei decoreba, fatos históricos, sei até hoje todos os afluentes do rio Amazonas de cor. E deu no que deu. Falo 5 linguas, me formei e me pos-graduei em Paris III e no Conservatoire Sup d’Art Dramatique em Paris. Domino as técnicas da profissão e da arte que escolhi. Quando crio minhas obras penso no meu público e não na minha familia, amigos, colegas e namorados. Quero através da minha estética fazer e estabelecer um diálogo com meu público. Trocar, compartilhar, para ser mais atual. Quando produzo nessa nossa sociedade meu objetivo é viver e ganhar o que necessário for para viver corretamente. Seja para comer um picadinho no buteco da esquina ou para comprar um Reblochon, cujo gosto e textura me aprazem. Sempre pensei que educar era dar exemplos, de forma que quem me ouvisse tivesse parâmetros para depois decidir por si so. Deu certo. Quando vejo pessoas que passaram por mim são capazes de tomar decisões. A questão me parece que os focos mudaram. Todos preocupados com – não um individualismo – mas com uma identidade. Sou Deleuziano… as diferenças foram para o saco! Quando 3 débeis quebram lâmpadas na cara dos gays da Paulista, todos ficam perplexos. Todos os artistas hoje vivem das verbas públicas. Fazem espetáculos para seus ‘ficantes’. Eu venho de uma geração, no Oficina, trabalhávamos de terça a domingo, com duas sessões no sábado, duas no domingo. Vivia do meu trabalho, e fazia minha arte para o Público. Tudo deslizou pra outros lados, inclusive onde princípios éticos são desviados. A única resposta que se ouve é não sei de nada. Falei demais. E viva eu e viva tu e viva o rabo do tatú… Iça, Japurá, Caquetá, Negro, Pari e Jarú. Sei o tamanho do mundo, sei o que é meu planeta, Quero a felicidade do próximo. Feliz eu sozinho? Arghhhh, pior que punheta! Abraços.

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  3. em minha sucinta opinião, a melhoria da educação passa sim por melhoria salarial. depois, vêm as questões políticas e estruturais, uma vez que sem um profissional altamente motivado, nenhuma política, na prática, será bem-sucedida.

    Beijo, meu professor!

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  4. Como a vida nos proporciona momentos raros… hoje justamente durante meu almoço pude assistir à definição do estado em que nos encontramos. Video Show a vitrine de divulgação da Globo. Confiram…. melhor mesmo como retrato da catástrofe são os comentários que aparecem via Twitter… observem, viramos um monte de adjetivos e advérbios…. galera, a coisa ta ruim mesmo. Mas vamos que vamos,
    http://globotv.globo.com/rede-globo/video-show/t/programas/v/paulao-de-a-grande-familia-erra-feio-no-portugues/2292505/

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