O acordo ortográfico Brasil – Portugal: corrigir bobagens

Voltou à pauta o acordo ortográfico Brasil – Portugal, pelo adiamento da sua vigência para 2016. Juntas, voltaram as objeções apresentadas desde 1990. Por isso, cabem as observações a seguir, desta vez distribuídas em tópicos:

1. Brasil e Portugal são os únicos países deste planeta que oficializaram duas ortografias diferentes para a mesma língua, em uma aberrante manifestação de provincianismo e burocracia. (sim, há o caso do hindi e urdu, na Índia – mas são caracteres diferentes, utilizados por hinduístas e muçulmanos – conseqüência, portanto, da profunda divisão religiosa e cultural)

2. Pelos critérios que determinaram as reformas ortográficas e conseqüente separação por volta de 1940, Alemanha e Áustria também teriam ortografias distintas. Por que não as têm? Porque alemães e austríacos não são bobos. Preferem somar esforços na difusão de uma cultura de língua alemã. Idem Inglaterra e Estados Unidos mais Austrália e Canadá e…., ou a França e países francófonos etc.

3. Quem ganha e quem perde com a separação ortográfica de Brasil e Portugal? Perdemos nós: a duplicidade dificulta, objetivamente, a circulação de bens culturais. Adoção pedagógica, nos sistemas de ensino de cada país, é impossível, e alguma cooperação e reconhecimento em organismos internacionais (ONU, UNESCO etc) é dificultada. Não perdem os pequenos poderes burocráticos, as confrarias fechadas, as glórias de província hostis ao que vem de fora.

4. Chegou-se a justificar a separação ortográfica argumentando que o português brasileiro e de Portugal são línguas diferentes – por se relacionarem a contextos distintos etc, em mais um frenesi sociocultural, mais um acesso de populismo. OK – então, qual dicionário usamos para ler Fernando Pessoa?

5. Existe gente, sociólogos e cientistas da linguagem, confundindo o aspecto formal da língua e seu uso. Diferenças de uso, nos modos de expressar-se, no vocabulário, são consideráveis – entre países lusófonos e dentro de cada país lusófono. Mas isso nada tem a ver com ortografia.

6. Chegou-se a falar em “dialetos” do português em Portugal e no Brasil. Absurdo. O dialeto do português é o galego. Basta alguém saber italiano ou alemão e ouvir alguém expressar-se em dialetos dessas línguas: nada entenderá. Modos crioulos e ‘joual’ são dialetos do francês. Temos um dialeto crioulo, em Cabo Verde. Papiamento, portunhol, um português crioulizado em Timor Leste? Talvez.

7. Em 2000, quando falei em defesa do acordo ortográfico no Salon du Livre em Paris, o tema fervia. Saramago era a favor. Gente boa, literariamente, como Lobo Antunes e Antonio Tabucchi, contra – disseram ser neo-colonialismo, coisa de salazaristas velhos, pois sufocava a alofonia. Outro absurdo. Alofonia, no Brasil, são as línguas dos povos indígenas. Na África e em Timor Leste, dos respectivos povos nativos. O português ter essa ou aquela ortografia não muda nada; não é isso o que afeta a diversidade cultural.

8. O que está errado no atual reforma ortográfica, justificando revê-la: a mania de reformarem além da conta. Supressão de acentos, pôr e por, pára e para, pode gerar frases com duplo sentido. Regras de hifenização e palavras compostas sempre foram uma confusão arbitrária – e continuaram a sê-lo, na vigência do acordo. Acadêmicos, gramáticos: simplifiquem.

9. Com a digitalização, tudo ficou mais fácil. Reforma sequer dará trabalho, bastará ajustarem o corretor ortográfico. Muitas das objeções são do tempo em que se escrevia a máquina.

10. Independência de Portugal foi em 1822. Centros de dominação cultural mudaram. Havia, a propósito, um doidão, presidente da UBE do Amazonas, que fazia campanha contra o ensino do inglês. Queria proibir. Morreu. Descobriu-se, passado algum tempo, que era dono de uma escola de esperanto. (juro – pena não ser capaz de me lembrar do nome do tipo – amazonenses sabem quem era)

11. É claro que um acordo ortográfico pouco significa, isoladamente. Corrige ‘nonsense’, o que sempre é bom. Mas ampliar circulação de livros e promover intercâmbio são temas de política cultural. Com a pobreza e falta de iniciativa brasileira nesse campo, mais o recesso português, tudo continuará como antes. Pode até piorar. Mas a ortografia nada tem a ver com isso.

Algo do que já publiquei a respeito:

No meio digital, http://www.revista.agulha.nom.br/ag62willer.htm

Em livro, 100 Discursos Históricos Brasileiros, Carlos Figueiredo, organizador, Editora Leitura, Belo Horizonte, 2003, com a Nossa Língua, nossa Literatura.

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One response to this post.

  1. Concordo contigo, poeta! Num texto até breve, você tocou em todos os importantes pontos.

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