Uma biblioteca sobre Roberto Piva

Roberto Piva de Sergio Cohn, que acaba de sair pela coleção Ciranda de Poesia da editora da UERJ: o que eu teria a dizer sobre esse relato de encontros e diálogos que me soam tão familiares? Em primeiro lugar, que tudo é verdade. A descoberta de poetas pode modificar vidas:

Movido pelo intenso interesse despertado pela leitura de Piva, comecei uma formação autodidata de poesia, passando praticamente todas as minhas tardes na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, em companhia de Priscila, copiando a mão poemas dos autores que encontrava.

Concordo, especialmente, com o que diz sobre “referências a outros poetas”:

[…] não são vazias, nem estão lá para mostrar uma suposta erudição: funcionam como um real diálogo intertextual, um hiperlink pré-internet, propiciando que especialmente a obra de Piva possa ser lida, muitas vezes, como ensaio literário em forma de poesia.

Relato da formação, sintético bildungsroman: ler Piva e conhecê-lo em 1992, aos 18 anos, foi decisivo para que Cohn e amigos chegassem a suas próprias identidades literárias; para que escrevessem poesia – a de Cohn, reunida em O sonhador insone. E se decidissem por iniciativas como a revista Azougue, da qual resultou a editora homônima. Contribuiu para tal o entusiasmo de Piva, desde que visse alguém como interlocutor; sua “generosidade também de explicitar suas leituras, de mostrar que a poesia nãos e constrói sozinha, como obra do ‘gênio’, mas no diálogo com outros autores.”

Cohn retribuiu: na coletânea Encontros: Roberto Piva, por ele preparada; em entrevistas e publicação de poemas na revista Azougue; e com a edição de Os dentes da memória: Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e uma trajetória paulista de poesia, por Camila Hungria e Renata D’Elia, Rio de Janeiro – tratando dos poetas nomeados no título, mas com Piva, a justo título, como protagonista.

Há mais em Roberto Piva de Cohn: um inédito de Piva; transcrição de outros poemas, citações e comentários; relato de como foi a preparação de Ciclones. Interessará a estudiosos.

Nesses últimos 20 anos, outros também partilharam e atestaram esse tipo de experiência. Tornamo-nos menos minoritários. Por isso, esse novo livro de Cohn vem somar-se à biblioteca piviana que se forma aos poucos.

Integram-na títulos como Deixe a visão chegar – a poesia xamânica de Roberto Piva de José Juva, pela Multifoco, adaptado da dissertação de mestrado em Letras na Universidade Federal de Pernambuco. Texto fluente, trata do xamanismo na poesia com precisão.

Também em livro – por ora no estaleiro, para reparos na edição – a tese de Gláucia Pimentel na Universidade Federal de Santa Catarina, Ataques e Utopias: Espaço e Corpo na Obra de Roberto Piva  (ed. Appris): trabalho extenso, ousado, combinando depoimento e painel de época (Gláucia conheceu Piva na época da Sociologia e Política, anos de 1970, no calor da contracultura) com o exame de tópicos de sua poesia, xamanismo inclusive.

À espera da publicação em livro, mas disponível em pdf, Estilhaços de visões: poesia e poética em Roberto Piva e Claudio Willer, mestrado em Letras na USP de Fabricio Clemente, também excelente poeta (Fabrício: lance logo seu livro de poesias … ! ache editor para sua dissertação…!). Pode ser carregado através de http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-11122012-101230/pt-br.php

Outro mestrado em Letras na USP: Teatralidade da palavra poética em Paranóia de Roberto Piva de Danilo Monteiro, defendida em julho de 2010, três dias após a morte do poeta. Piva queria que sua poesia fosse pública; declamava-a; inspirou-se em outros poetas eloqüentes, como García Lorca e Ginsberg. Em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-30092010-102524/pt-br.php .

Ha mais … ! De um historiador, Reginaldo Souza Chaves, da Federal do Piauí, Flanar pela cidade-sucata compondo uma estética da existência: Roberto Piva & seu Devir Literário Experimental (1961-1979)preciso e original, encontra-se em http://www.ufpi.br/subsiteFiles/mesthist/arquivos/files/Reginaldo%20Sousa%20Chaves.pdf (vou consultar / citar em minha palestra sobre Piva e a cidade no SESC do Bom Retiro, agora em janeiro)

De Bruno Eduardo da Rocha Brito, Roberto Piva, panfletário do caos, mestrado pela Federal de Pernambuco, ambicioso estudo comparativo de Paranóia e Ciclones, contracultura e vanguardas contemporâneas: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=157044

E o pioneiro trabalho de Thiago de Almeida Noya, também mestrado, para a UERJ, Roberto Piva e a “periferia rebelde” na poesia paulista dos anos 60 – curioso, desse não achei arquivo em pdf para descarregar – ao menos, no Google não tem nada.

A poesia de Piva também vem inspirando uma quantidade de criações artísticas bem sucedidas, desde os documentários – Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti e Assombração urbana de Valesca Dios. As mais recentes: São Paulo surrealista II: a poesia feita espuma, de Marcelo Marcus Fonseca: espero que a sensacional encenação retorne em 2013. E o balé Paranóia, de Ana Botosso e a Cia. de Dança de Diadema – que voltará a ser apresentado a partir de 25/01.

Se fosse elencar / comentar TCCs e ensaios, iria longe; preencheria mais algumas páginas. Piva fez restrições notórias à universidade; dificilmente se deixava entrevistar por pesquisadores. Mas essa produção funciona como antídoto ao que já denominei de “flipização” da crítica: sua conversão em desfile mundano. Somando-se a outras manifestações, estimulará leituras. Encaminha ao que interessa: os três volumes das Obras reunidas, pela Globo Livros, que estão aí, à espera de mais leitores.

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10 responses to this post.

  1. Maravilha. Esse trabalho do Noya nunca achei tambem, e ele nao parece interessado em divulgar, pois nunca respondeu meus emails.

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  2. Viva Piva e os que se dedicam à sua obra. E gostei da crítica à “flipização” da crítica…rs, bjs!

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  3. Valeu, Willer, boas fontes. Vou repassando por aqui, a todos os que leem Piva. Obrigado pelas indicações

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  4. Posted by Djalma Neto on 03/01/2013 at 02:15

    Muito boas referências sobre Piva.Já havia mencionado por aqui, sobre a dificuldade de encontrar o documentário Uma outra Cidade do Ugo Giorgetti. Só vi no Canal Brasil, uma vez, por sorte. É uma pérola. Não existe a possibilidade de adquiri-lo ?

    Grande Abraço

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    • Djalma: é da TV Cultura – me parece que não liberaram cópias – exibem todo ano, na época do 25 de janeiro – é estar atento e piratear, fazer gravação doméstica.

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  5. Posted by Jeferson Ribeiro on 13/01/2013 at 22:23

    Parabéns Claudio, a leitura de PIVA me fez rever toda a leitura que havia feito de Nietzsche. Realmente boas indicações visto ser tão difícil conseguir algo sobre o poeta, inclusive os documentários aqui citados, já tentei adquiri-los, porém nem na livraria cultura consegui…….

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  6. […] 9. Deste blog, nota sobre a bibliografia piviana, a propósito da publicação de Roberto Piva por Sergio Cohn: https://claudiowiller.wordpress.com/2012/12/28/uma-biblioteca-sobre-roberto-piva/ […]

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  7. uma longa entrevista com piva, de 94, pouco conhecida –
    [in
    Claudio Roberto da Silva
    Reinventando o Sonho – História Oral de Vida Política e Homossexualidade no Brasil Contemporâneo
    Dissertação de Mestrado em História Social apresentada à Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
    Orientador: Prof. Dr. José Carlos SebeBom Meihy
    São Paulo1998 ]

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