2012, o ano das trapalhadas em prêmios literários

Reproduzo, a seguir, o ofício da UBE ao presidente da Biblioteca Nacional.

Primeiro, meus comentários:

1. Drummond teria recusado – tomava como princípio não aceitar honrarias literárias.

2. Em 2008, Biblioteca Nacional premiou Estranhos sinais de Saturno de Roberto Piva –mais coerente com o espírito da coisa, e os R$ 8.000,00 do prêmio aliviaram dificuldades que enfrentava.

3. Erros e confusões tomam a frente dos acertos, na divulgação. Esse prêmio para Piva nunca foi noticiado. No Jabuti de 2012, não falaram na premiação de Maria Lúcia Dal Farra em poesia.

4. Concursos literários são simples – basta não complicá-los. Nos dois casos, culpa é dos organizadores – no Jabuti, onde já se viu, isso de dar notas – primeira aula do curso de estatística, ou de pesquisa social, o quanto notas não são confiáveis, sujeitas à variação pessoal.

5. Procedimento em concurso é assim: os três membros da comissão (três – se puserem mais, vai complicar) escolhem seus preferidos, reúnem-se ou comunicam-se até chegar a um consenso (no da Cult de 2001, foram 7 horas de reunião, Wally Salomão, Nelson Ascher e eu, precisou paciência, mas chegamos lá). Não há mistério. Foi assim em dezenas de concursos de que participei como jurado, nos quais já premiamos autores que depois viraram alguma coisa na vida, em concursos de novos (como o Nascentes da USP), ou já eram alguma coisa (como naquele concurso da Cult).                   

                                      Ofício UBE 138/2013

Ao Ilmo. Sr.

Galeno Amorim Júnior

Presidente da Biblioteca Nacional

Av. Rio Branco, 219 – Centro

Rio de Janeiro – RJ 

CEP: 20040-008

 Recurso, apresenta, sobre prêmio literário para 2012

 Senhor presidente:

 A diretoria da UBE – União Brasileira de Escritores, em nome de seus associados e defendendo a adequada interpretação das condições de inscrição ao Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional para 2012, vem interpor recurso ao resultado divulgado por meio de portaria sem número dessa Presidência, do mês de dezembro de 2012, especificamente na categoria poesia, diante da concessão da láurea à publicação “Carlos Drummond de Andrade: Poesia 1930-62”, organizada por Julio Castañon Guimarães e editada pela Cosac Naify. A premiação contraria flagrantemente o determinado no item 2 do edital correspondente, em especial os subitens que destacamos abaixo:

2. Da Inscrição

2.1. Poderão participar do Prêmio pessoas físicas brasileiras ou naturalizadas.

2.2. Somente serão habilitadas obras redigidas em língua portuguesa e publicadas por editoras brasileiras.

2.3. As obras deverão ser inscritas pelo autor, de acordo com as categorias premiadas.

2.3.1. As inscrições por intermédio de editoras serão permitidas como forma de assistência ao autor apenas mediante autorização por escrito deste, que deverá ser anexada à ficha de inscrição.

 Premiar o detentor dos direitos autorais, em vez de premiar o autor, abre perigoso precedente que poderá levar à concentração futura de inscrições em nome de herdeiros e editoras, limitando ainda mais as perspectivas possíveis de reconhecimento a um grande número de autores de qualidade que não por outra via poderiam divulgar seu trabalho autoral.

Rogamos a atenção dessa Presidência para que seja reavaliada a premiação, pelo bem do rigor e da credibilidade dos editais dessa Fundação que V. Sa. tão excelentemente dirige.

Joaquim Maria Botelho

Presidente

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7 responses to this post.

  1. Posted by sueli cavendish on 08/01/2013 at 11:16

    Parabéns pela iniciativa UBE

    Responder

  2. Posted by meiotom on 08/01/2013 at 11:36

    Já indo face meiotom, twitter etc. Mais material para gritar contra os absurdos que estão ocorrendo.   abr Carlos Pessoa Rosa (Carlos Alberto Pessoa Rosa)visite:http://www.meiotom.art.br/http://www.pnetliteratura.pt/http://noticiasdacatadora.blogspot.com/http://www.dulcineiacatadora.com.br/http://www.cronopios.com.br/http://www.germinaliteratura.com.br/

    Responder

  3. Posted by Waldemar José Solha ( W. J. Solha) on 08/01/2013 at 14:39

    ISTO / É / UMA / VERGONHA
    W. J. Solha

    Pense num concurso de poesia promovido pelo Governo do Estado da Paraíba, Fundação Espaço Cultural, em que concorressem Antonio Mariano, Joedson Adriano, Sérgio de Castro Pinto, Celso Japiassu, José Bezerra Cavalcante, Águia Mendes, Amador Ribeiro Neto, Astier Basílio, Vitória Lima, Otávio Sitônio, Jessier Quirino, Bruno Gaudêncio, Bráulio Tavares, Chico César, Lau Siqueira, etc, etc, e o vencedor aclamado fosse… Augusto dos Anjos.
    Pois é exatamente o que acaba de acontecer com o Prêmio Alphonsus de Guimarães, da Fundação Biblioteca Nacional, onde eu – com meu Marco do Mundo – concorri com outros cento e tantos poetas, e o vencedor foi… Carlos Drummond de Andrade, falecido – pra quem ainda não sabe – em 17 de agosto de 1987!
    Poderíamos parar aqui: o absurdo é um escândalo da má fé, pois pra três intelectuais nomeados para tal função e por tal entidade, não tem cabimento a hipótese de inocência. Má fé que tem tamanho descaramento, tamanha ousadia, porque vê que a impunidade está solta e na iminência de receber faixa e coroa de Miss Brasil ( Dilma que se cuide, pois a corte da bandida é cada vez maior, e já está enorme e poderosa ). Mas como nossas leis são cheias de firulas, de cujo conhecimento vivem milhares de rábulas à disposição de criminosos de todos os níveis, é bom deixar claro que o regulamento constante do edital assinado por Galeno Amorim, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, é de uma clareza absoluta, como se previsse um atentado desse:
    Item 2.3. As obras deverão ser inscritas pelo autor, de acordo com as categorias premiadas. 2.3.1. As inscrições por intermédio de editoras serão permitidas como forma de assistência ao autor apenas mediante autorização por escrito deste, que deverá ser anexada à ficha de inscrição.
    Alguém psicografou Drummond. Se ficar por isso mesmo, no ano que vem psicografará Castro Alves. No outro, Cecília Meireles. Aí virão João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Paulo Leminski, Olavo Bilac… e por que não entrar na parte do concurso envolvendo outros gêneros – o romance, por exemplo -, derrubando qualquer autor vivo com Guimarães Rosa, Graciliano, Zé Lins, Machado, Érico Veríssimo, Clarice Lispector, Jorge Amado, Lima Barreto, Mário de Andrade, Raquel de Queiroz?
    Já venci vários concursos nacionais e perdi uma infinidade de outros. Marcou-me a infância o poema “Se”, de Kipling, que, lá pelas tantas, diz que Se conseguires tratar derrota e triunfo – esses dois impostores – da mesma forma, etc, etc, és um homem, meu filho. OK, mas vá ser impostor assim no inferno!

    Responder

    • Willer, compreendo que os concursos e prêmios literários devem exigir do júri um tratamento ético mínimo, como uma justificativa abalizada das escolhas feitas, assim como entendo que posições firmes como a demonstrada pela UBE podem tornar isso possível. Aquele grande abraço.

      Responder

  4. Parabenizo a UBE por ter entrado com esse recurso. Essa premiação foi absurda. Revela falta de generosidade, de coerência e de coragem. Abraço, Raquel Naveira

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  5. Eu, particularmente, achei estranhíssima a premiação de um autor morto, num concurso em que é obrigatória a manifestação da sua vontade, enquanto autor vivo, ou seja, o ato de efetuar sua inscrição ou a autorização a uma editora para que a fizesse em seu nome. alguém pode ser premiado por poemas escritos, no passado, por um autor que já se encontra morto? Do ponto de vista do regulamento, entendo que essa premiação é nula de direito.

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  6. Parabéns à inciativa da UBE, recursos e críticas expõem a fragilidade e a falta de credibilidade dos concursos movidos pelas regras do…mercado, uma pena!

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