Defender as sociedades tradicionais é defender a vida

Inspirado em dois episódios recentes, das últimas 24 horas – a supressão ou proibição dos acréscimos de nomes de índios, do tipo Guarani-Caiová, por usuários do Facebook (ver minha postagem anterior) e o cerco ao Museu do Índio no Rio de Janeiro – transcrevo um trecho de Octavio Paz. É de uma de suas entrevistas, “Simetrias iníquas: diálogo sobre o marxismo”, publicada, entre outros lugares, em Convergências: Ensaios sobre arte e literatura, Rocco, 1991. Também pretendo citar / comentar em minha palestra sobre Piva, na próxima quarta-feira:

“ […] é preciso defender as sociedades tradicionais se quisermos defender a diversidade. Todos vemos que isso é dificílimo, mas a outra possibilidade é sombria: uma derrocada geral da civilização, diante da qual o fim do mundo antigo, entre os séculos V e VII, teria sido apenas um modesto “ensaio geral” do desastre. Dessa perspectiva, a preservação da pluralidade e das diferenças dos grupos e indivíduos é uma defesa preventiva. A extinção de cada sociedade marginal e de cada diferença étnica e cultural significa a extinção de uma possibilidade de sobrevivência da espécie inteira. Com cada sociedade que desaparece, destruída ou devorada pela civilização industrial, desaparece uma possibilidade do homem – não só de um passado e um presente, mas um futuro. A história havia sido, até agora, plural: diversas visões do homem, cada qual com uma visão distinta de seu passado e de seu futuro. Preservar essa diversidade é preservar a pluralidade de futuros, isto é, a vida mesma.”

Portanto, Paz vê a diversidade cultural de um modo semelhante àquela que os ecologistas vêem o que chamam de “bancos genéticos”: não se trata apenas de formas de vida atuais, porém de possibilidades; chances de transformações, de continuidade da própria vida. Sabemos que as línguas constituem ou configuram culturas: essa ordem de observações confere, portanto, valor adicional ao trabalho dos antropólogos e lingüistas pela recuperação ou preservação de línguas ameaçadas de extinção, de índios e outras sociedades tradicionais.

Anúncios

5 responses to this post.

  1. oportunissima lembrança

    Responder

  2. Nada como a opinião esclarecida – a sua, a de Paz – para se contrapor à barbárie. Muito boa a sua presença e atuação nestes casos que põem em risco a cultura indígena, sua língua e seus valores. Um bj!

    Responder

  3. Posted by Rafael Monteiro Tannus on 23/01/2013 at 18:31

    E outro recente e infeliz episódio para ilustrar isso: morte da índia anciã Bose Yacu, última a falar língua e manter tradições da etnia pacahuara (http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,morte-de-india-extingue-idioma-e-cultura-de-tribo-amazonica,987721,0.htm)

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: