Reler Rimbaud

A seguir, os parágrafos iniciais de um artigo sobre Rimbaud, encaminhado para publicação. O texto todo dá 5 laudas. Quando sair, aviso.

O rebelde

Claudio Willer

A censura retorna pela porta dos fundos, a pretexto de restauração da moral e do politicamente correto. Verbetes de dicionário são alvo de ações judiciais. Tentam impedir a adoção didática de obras de Monteiro Lobato. Livros declarados pornográficos foram confiscados por ordem judicial em Macaé, RJ. Uma lei instituindo programas em defesa da moral e bons costumes, aprovada no Rio de Janeiro. Retrógrados de toda sorte mobilizam-se. Novas eclosões de obscurantismo vêm aí.

É hora de reler Rimbaud.

Reacionários atualizam sua rebelião. Convidam à difusão dos impropérios contra os beatos em “Os pobres na igreja”: “Todos, babando fé de mendicante e inválido, / Recitam sua queixa infinita a Jesus / Que sonha, amarelado á luz do vitral pálido” . E também contra os burocratas, em “Os assentados” e “Os aduaneiros”; contra o Imperador, detentores do poder em geral e, por extensão, Deus, que “ri nas toalhas dos altares”, em “O Mal”; contra o beletrismo em “O que dizem ao poeta a respeito das flores”; contra os valores estéticos na “Venus Anadiomene” que mostra “a bela hediondez de uma úlcera no ânus”; contra os bons sentimentos em geral em “O homem justo”. E, no extenso “As primeiras comunhões”, contra Jesus Cristo: “ladrão eterno de energias, / Há dois mil anos deus que à palidez votaste / As faces que no chão encravam, de vergonha / E de cefalalgia, as mulheres em dor.” Por isso, Rimbaud recusou os sacramentos na “Canção da Torre mais Alta”: “Mas quem rezaria/ À Virgem Maria?” – e também, biograficamente, a extrema unção ao morrer.

“Espero tornar-me um louco muito mau”: essa frase de “Vidas”, uma das Iluminações, poderia ser sua epígrafe geral. Foi muito louco e muito mau. Sua maldade deve ser entendida dialeticamente, como negação criadora. Faltou – estranhamente – o capítulo Rimbaud em A literatura e o mal de Georges Bataille.

 


[1] Todas as citações de poemas e prosas poéticas de Rimbaud utilizam a tradução de Ivo Barroso, nos dois volumes, Prosa poética e Poesia completa, publicados pela Topbooks.

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5 responses to this post.

  1. muito contundente seu artigo! só não concordei com a parte referente a Jesus Cristo. creio que os inescrupulosos do espírito, infelizmente, se apoderaram de seu mito com fins de dominação e exploração econômica, política, social, cultural, moral, etc.
    JC foi um inocente útil ao sistema e morreu sem se dar conta disso.

    mas, Rimbaud, como sempre um ‘mau’ que nos aprimora e regozija.

    Beijo imenso! amei o post!

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  2. Posted by vascant on 24/01/2013 at 17:02

    Oba, Willer. Coincidência! Estou mergulhado nessas duas edições bilíngues do Ivo Barroso. Abração, Raul

    Responder

  3. Tempos difceis pela frente!

    Em 24 de janeiro de 2013 13:35, Claudio Willer

    Responder

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