Decadência do jornalismo cultural e noticiário de variedades

Especialmente o público entusiasmado que superlotou a apresentação do balé Paranóia ontem, no Espaço Cultural da Caixa, Praça da Sé; e também o bom comparecimento, na véspera, à apresentação de poemas meus no Centro Cultural, em pleno feriadão chuvoso: isso me provoca reflexões e suscita perguntas. E houve mais, muito mais, em matéria de apresentações de qualidade com bom público.

De onde veio essa gente? Como souberam?

O espetáculo Paranóia foi divulgado em anúncios pagos de programação da própria Caixa Econômica. E também, é claro, na internet, por e-mails e na rede social. O Menu de Poesia, idem, na programação do Centro Cultural e internet. Postei neste blog; transmiti por e-mails.

De noticiário na imprensa, nem uma linha. Tornamo-nos underground – nesta altura dos acontecimentos, vejam só.

Nada contra Rita Lee, quero deixar claro. Ótima intérprete, irreverente, e tem história. E, certamente, não pagaram cachê escandaloso, tipo Ivete Sangalo em Sobral. Mas, pelo noticiário da programação do feriadão e do aniversário da cidade, só teve ela e não aconteceu mais nada.

Entre 1980 e 1990, aproximadamente, quando ia a eventos semelhantes a esses deste fim de semana, era comum cruzar com uma equipe da TV Cultura, da Band ou dos noticiários locais da Globo. Jornais davam: faziam matérias ou publicavam notinhas. Também nas rádios havia inserções.

Com o crescimento da programação, a expansão de São Paulo como metrópole cultural (na época, achava bom nossa agenda de espetáculos dar meia Paris ou Londres; hoje empata ou dá mais), e a redução de veículos e de espaço, desistiram, me parece. Abandonaram-se a uma pobre rotina burocrática.

Problema não é a falta de espaço. É falta de imaginação, criatividade e conhecimento.

Depois não reclamem da mídia impressa e da TV por emissoras ser suplantada por redes sociais, blogosfera e instrumentos semelhantes. Querem sobreviver? Então têm que trabalhar – e investir em recursos humanos, é claro.

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4 responses to this post.

  1. Infelizmente mudaram para pior o foco da imprensa! Decaiu o nível cultural dos editores de jornalistas de cultura no país revertendo seus interesses para noticiar e propagar enlatados. O país com esse tipo de imprensa anda pra trás de vez!

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  2. Claudio tenho lido regularmente teus posts, eu na verdade so te conheço por causa do Lautreamont, um dia ainda retomo aqui no Brasil o Canto 4… aliás, este me volta como discurso pertinente neste momento. Talvez nossa lucidez nos atrapalhe… mas… enfim, por favor continue neste tom. Temos que escapar de uma coisa pior, ou seja daquilo que chamo de adjetivos e advérbios. O que aconteceu foi o império dos qualificativos. Verbos foram pro saco. abs

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  3. Entre os perdidos da dimensão do acontecimento e os achados da dimensão do entretenimento estamos todos a naufragar nas armas e nas letras. A mídia está bem, com suas grandes cifras, sob os riscos da mesmice mesmo.

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  4. […] Comentei, em postagem anterior, a aclamação catártica do balé Paranóia, por Ana Bottosso e a companhia de dança de Diadema, baseado na poesia de Piva. Reclamei da desatenção da imprensa, em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/01/27/decadencia-do-jornalismo-cultural-e-noticiario-de-vari… […]

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